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Crise global de fertilizantes e inflação de alimentos diante da guerra na Ucrânia

Crise energética da China e sanções à Bielorrússia já limitaram fornecimento e elevaram preços de insumos

Carlos Guimarães Filho
23 Março 2022, 12.00
Agricultor carrega trator com fertilizante para aplicá-lo em uma plantação de soja no município de Cristalina, em Goiás
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Mateus Bonomi/AGIF/Sipa USA/Alamy Stock Photo

Oprodutor rural Claudio Zeni tem dividido sua atenção entre a geopolítica mundial e o cuidado de sua propriedade de 15 hectares no município de Capitão Leônidas Marques, no oeste do Paraná, onde planta soja, milho e trigo e cria 25 bois.

“A gente fica com um olho na lavoura e outro no cenário global. Afinal, quem está na agropecuária depende da importação de fertilizantes. Sabemos da falta destes produtos no mercado internacional”, diz Zeni.

Embora seja um dos maiores produtores agrícolas do mundo, o Brasil importou quase 84% dos fertilizantes necessários em 2021.

No entanto, a oferta global, que começou a diminuir no final do ano passado devido a vários fatores internacionais, pode se tornar escassa no caso de uma guerra prolongada entre a Ucrânia e a Rússia – maior fornecedor do Brasil e outros países latino-americanos.

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O desabastecimento já provocou o aumento do preço de insumos no ano passado. A alta foi de 185% no cloreto de potássio, 138% na ureia e 103% no fosfato monoamônico, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

“O Brasil já está sendo atingido em cheio. Os produtos disponíveis, em muitos casos, dobraram de preço”, afirma Zeni.

Um dos principais riscos dessa crise é a inflação dos alimentos. “Os impactos aqui são o aumento do custo de produção, a redução da margem de lucro do agricultor e o repasse desses aumentos para a mesa do consumidor”, explica Maísa Romanello, especialista em fertilizantes da consultoria Safras & Mercado. O governo federal também já prevê o aumento dos alimentos no mercado doméstico.

Conflito entre Rússia e Ucrânia

A Rússia, principal fornecedor global, respondeu por 22% dos fertilizantes recebidos pelo Brasil em 2021, um total de 9,27 milhões de toneladas, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). Mas em novembro passado, o país impôs cotas de exportação de nitrogenados para salvaguardar o abastecimento doméstico.

Carvão, gás natural e petróleo são recursos essenciais para a produção de fertilizantes. Eles são feitos gaseificando-se o carvão e combinando-o com nitrogênio em altas temperaturas para formar compostos químicos como amônia e ureia, que são a base de muitos fertilizantes, ou queimando gás natural diretamente. Combustíveis fósseis também abastecem várias fábricas.

O produtor não possui muitas alternativas e fica refém da precificação internacional, de questões logísticas e políticas internacionais

Esses combustíveis atingiram picos de preço entre o início e meados de 2021, causando um aumento significativo de custo para os produtores de fertilizantes e, consequentemente, dos preços globais desses insumos. O dólar também valorizou 7,47% sobre o real em 2021, afetando consumidores brasileiros.

“O produtor não possui muitas alternativas e fica refém da precificação internacional, do dólar, de questões logísticas e políticas internacionais”, afirma Romanello.

Na época, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, viajou à Rússia para tentar assegurar o fornecimento ao Brasil. Ela recebeu garantias do governo russo e de empresas de fertilizantes. “Nós não teremos problemas com a entrega”, afirmou.

Mas os preços continuaram voláteis, e a situação deve se agravar devido à explosão do conflito da Rússia contra a Ucrânia. Além do custo humano devastador, a guerra traz consequências como a interrupção do escoamento pelos portos do Mar Negro e a possível suspensão total das exportações de fertilizantes.

Em coletiva de imprensa recente, Tereza Cristina disse temer impactos nos próximos meses: “A safra de verão, que será no final de setembro, outubro, é uma preocupação".

Analistas de mercado dizem que as sanções impostas à Rússia pelos países da Europa e os Estados Unidos devem tornar ainda mais instável o fornecimento. “Com a retaliação do Ocidente, o fornecimento de fertilizantes ficará ainda mais complicado. O preço dos alimentos pode aumentar bastante”, destaca César Castro, especialista da consultoria Agro do Itaú BBA.

Crise de energia e metas climáticas da China

A China é o segundo maior fornecedor de fertilizantes do Brasil, respondendo por 15% das importações em 2021, segundo dados do MDIC. No entanto, a China também apertou sua política de exportação no terceiro trimestre do ano passado, impulsionada por sua crise de energia.

No contexto global de escassez e alta de preços, produtores chineses de fertilizantes começaram a favorecer o mercado internacional em detrimento do interno. Para contornar a crise doméstica, a China limitou a exportação de fertilizantes ano passado, e as vendas para o exterior caíram.

“A China optou por atender o mercado doméstico. É preciso esperar até abril para sabermos se ela vai voltar a exportar [como antes]”, comenta o especialista da consultoria Agro do Itaú BBA.

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Para o Brasil, por enquanto, o volume de importações se mantém, possivelmente porque o país é o maior consumidor dos insumos chineses. Os brasileiros compraram 450 mil toneladas da China em janeiro de 2022, contra 413 mil no mesmo período do ano passado.

As promessas da China de reduzir sua pegada de carbono nos próximos anos também pode afetar o mercado internacional de fertilizantes. A produção no país ainda depende fortemente do carvão, que é altamente poluente e tem intenso consumo de energia.

No ano passado, a crise energética da China levou ao aumento da produção de carvão. Mas o país prometeu atingir seu pico de emissões até 2030, meta climática confirmada durante a CO26, em novembro passado. Além disso, segundo o 14º Plano Quinquenal da China — seu projeto de desenvolvimento, lançado em março de 2021 — o país prevê reduzir o uso do carvão e impor restrições a indústrias com alto consumo e emissão de energia nos próximos anos.

Bielorrússia sofre sanções

Outro importante fornecedor de fertilizantes para o Brasil, no caso dos potássicos, a Bielorrússia vem sofrendo uma série de sanções internacionais dos Estados Unidos e Europa desde agosto de 2020, a partir da contestada recondução de Aleksandr Lukashenko ao poder e, mais recentemente, com seu apoio à guerra contra a Ucrânia.

O país do Leste Europeu é responsável por 20% das exportações mundiais e figura como terceiro maior produtor mundial de potássicos, mas enfrenta dificuldades para escoar o produto devido ao fechamento de portos europeus.

“Os potássicos já vinham com baixa disponibilidade devido a manutenções em fábricas e o fechamento de duas importantes minas da Mosaic [no Canadá]. As sanções agravaram a situação, gerando menor disponibilidade e preços elevados”, explicou Maísa Romanello. “O cloreto de potássio deu um salto, saindo de US$ 250 a tonelada no início de 2021 para US$ 800 [em 2022], atingindo patamares recordes”.

Mineração em terras indígenas

O Brasil já foi menos dependente da importação de fertilizantes, mas cresceu substancialmente desde 2015, segundo dados do MDIC. Isso ocorreu em função do desinvestimento da Petrobras no setor após os escândalos de corrupção levarem ao aumento de sua dívida e forçou a estatal a vender ativos. Diversas unidades produtoras de nitrogenados foram fechadas nos últimos anos.

“Ficamos na expectativa de que as empresas multinacionais comprem estas plantas para produzir no Brasil, como aconteceu no início de fevereiro, com a aquisição do grupo russo Acron da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados (UFN3) da Petrobras em Três Lagoas [Minas Gerais]”, diz Romanello.

O governo federal também deve lançar o Plano Nacional de Fertilizantes, cuja expectativa é diminuir a importação de insumos de 84% para 60% em três décadas, o que dificilmente resolverá sua dependência do comércio exterior. Dentre as medidas propostas, pretende-se buscar novas fontes de mineração no território brasileiro.

Os entraves no fornecimento global de fertilizantes expuseram a dependência de insumos químicos para as lavouras brasileiras

Com isso, o presidente Jair Bolsonaro usou a oportunidade para voltar a defender a mineração em terras indígenas. Ele cobrou a aprovação do projeto de lei 191 de 2020, em tramitação no Congresso, que abriria essas áreas protegidas à exploração mineral. O PL enfrenta críticas de grupos ambientalistas por seus potenciais impactos aos povos indígenas e ao meio ambiente.

“Em 2016, como deputado, discursei sobre nossa dependência do potássio da Rússia. Citei 3 problemas [para maior autossuficiência brasileira]: ambiental, indígena e a quem pertencia o direito exploratório na foz do Rio Madeira”, escreveu o presidente no Twitter. “Uma vez aprovado [o projeto de lei], resolve-se um desses problemas”.

Após a convocação do presidente, o Congresso d deve tentar acelerar o projeto. A ministra Tereza Cristina também se mostrou favorável à mineração em terras indígenas para minimizar a crise dos fertilizantes, mas aposta principalmente em diversificar os fornecedores internacionais.

Para Romanello, a saída mais viável é buscar mais parcerias externas, como o Canadá para potássicos e Marrocos e Arábia Saudita para fosfatados. “Para os nitrogenados, a situação é mais delicada, principalmente para o nitrato de amônio, em que o Brasil importa praticamente todo o volume da Rússia”, diz a especialista.

Redução de insumos e de produtividade

Os entraves no fornecimento global de fertilizantes expuseram a dependência de insumos químicos para as lavouras brasileiras. O uso de fertilizantes é um avanço tecnológico que serve para aumentar a produtividade, principalmente de grãos como a soja, cuja área plantada cresce ano a ano no país, impulsionada pela demanda doméstica e global. O cultivo de soja também leva à degradação do solo, que é compensada pelo aumento do uso de fertilizantes.

Hoje, reduzir a quantidade de insumos agrícolas inevitavelmente leva à redução da produção. E diante dos preços e da incerteza do fornecimento externo, é exatamente o que analistas e agricultores esperam acontecer.

“Os indicativos são de que os produtores devem reduzir a quantidade aplicada na safra 2022/23”, diz Ana Paula Kowalski, agrônoma da Federação de Agricultura do Estado do Paraná, um dos maiores produtores de grãos do Brasil. “E muitos vão reduzir a adubação sem critérios técnicos, podendo afetar a produtividade das culturas”.

Castro, da consultoria Agro do Itaú BBA, faz coro. Para ele, os produtores vão “segurar a mão” no uso de fertilizantes, colocando em risco a produtividade. “Nunca vimos isso antes, pois não é comum usar o mínimo [de fertilizantes]”, diz.

O agricultor Evandro Ghellere pretende reduzir a quantidade de insumos nos 40 hectares de lavouras em sua propriedade no município de São Miguel do Iguaçu, no Paraná, mesmo sabendo que isso pode comprometer sua produtividade.

“Não tem jeito de usar a mesma quantidade de safras passadas”, afirma Ghellere, que ainda tenta digerir os custos crescentes de produção. “Se antes eu colocava 15 sacas [de fertilizante] por alqueire, agora vou colocar dez. Uma saca de 50 quilos pela qual paguei R$ 80 na temporada 2019/20 e R$ 140 na safra 20/21, agora custa R$ 220”.

“Não sabemos o que vai acontecer daqui a 40 dias: qual será o preço e se vai ter [fertilizante] disponível”, diz o produtor rural Claudio Zeni, resumindo a profunda incerteza entre os agricultores brasileiros.


Este artigo foi publicado no Diálogo Chino em 8 de março.

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