democraciaAbierta: Opinion

O que a guerra russo-ucraniana diz à esquerda latino-americana

Nós de esquerda devemos lutar pela solução diplomática do conflito e pelo combate à desinformação, venham de onde venham

Jean Wyllys
8 Março 2022, 12.00
'Menos Carnaval', por Jean Wyllys
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Arquivo pessoal

Se não for mais uma das muitas fraudes e bravatas perpetradas pelo MBL, grupo de extrema direita brasileiro, a suposta viagem de dois de seus membros à Ucrânia sob invasão do exército de Putin corresponde a dois sintomas manifestos na periferia do mundo:

O primeiro é o de que esta guerra já é uma guerra mundial em curso principalmente – por enquanto e esperamos que aí se limite – no campo da (des)informação, ou, melhor, das novas formas da velha propaganda política que agora pode ser mais capilar e persuasiva graças aos algoritmos das plataformas de comunicação. Ou seja, a guerra russo-ucraniana já é uma guerra mundial de desinformação em que munições pesadas como a mentira deliberada, as fotografias e audiovisuais tirados de contextos originais, as sequências de jogos, a censura a meios de comunicação de um dos países envolvidos no confronto quente e o uso da estrutura da ficção hollywoodiana na construção das notícias pela imprensa hegemônica bombardeiam as subjetividades de quem deseja saber realmente o que se passa no mundo e estendem ao nível global a polarização política e o ódio que já dividiram países.

A própria incerteza dos brasileiros em relação à suposta viagem dos abutres do MBL à Ucrânia já diz muito de como a verdade sobre essa guerra nos escapa.

O segundo sintoma que esta viagem aponta é a desorientação geopolítica da extrema-direita e seus esforços em fazer com que seus valores nefastos (entre estes, a exaltação da própria guerra!) se sobreponham à solução diplomática do conflito em curso.

Não é só no Brasil que a extrema direita se dividiu entre apoiar Putin ou Zelensky. Além do imediato e suspeitoso alinhamento por parte de governos de extrema-direita de países como Hungria e Polônia a sanções impostas pela União Europeia à Rússia – países que até ontem desafiavam os valores e a ordem democráticos de países da Europa Ocidental – líderes da extrema direita, como Bolsonaro, Marine Le Pen, Salvini e Abacal ainda não sabem bem como se posicionar nessa nova ordem que a guerra russo-ucraniana está gerando. Seus seguidores nas mídias sociais – igualmente desorientados geopoliticamente – dividem-se entre ofensas ou defesas cegas a seus líderes e adesão ou denúncia à cobertura maniqueísta da guerra feita pela imprensa hegemônica.

A esquerda não deveria ver com bons olhos essa glamourização do nacionalismo e do armamento de civis engendrada pela narrativa ocidental hegemônica

Aliás, em se tratando especificamente deste maniqueísmo simplificador de uma realidade complexa ao nível da idiotia e expresso em reportagens folhetinescas e análises intelectualmente indigentes das relações internacionais feitas na GloboNews (com destaque para as mentiras deslavadas do jornalista de direita Demetrio Magnoli), o resultado não poderia ser outro que ver os militantes do PCO (extrema-esquerda fascista) e do MBL (extrema-direita fascista)  trocar socos e insultos entre si em frente ao consulado da Rússia no Rio de Janeiro. Seria para rir se não fosse trágico.

O presidente da Ucrânia, Zelensky, que até ontem não passava de um populista hipócrita e homofóbico fruto da criminalização da política levada a cabo pelo vazio de pensamento – uma mistura do juiz Sergio Moro com o humorista Danilo Gentili – é tratado como um “herói” de Hollywood pela maior parte da imprensa ocidental. Sem falar que ele mesmo se propagandeia nas mídias sociais como se um “herói” fosse.

Por isso, por mais que admire e respeite meus amigos e minhas amigas do grupo “Judias e Judeus Sionistas de Esquerda”, e concorde com elas e eles de que Putin é um tirano sociopata que, neste momento, ameaça todo o planeta com sua agressão à Ucrânia, achei precipitado o diagnóstico em forma de artigo de que a União Europeia já venceu a guerra contra ele. Isto ainda não é uma verdade, apesar do relativo sucesso de algumas das sanções impostas à Rússia.

Além disto, a esquerda não deveria ver com bons olhos – ou pelo menos deveria ver com muito mais desconfiança – essa glamourização do nacionalismo e do armamento de civis engendrada pela narrativa da imprensa ocidental hegemônica. A esquerda – principalmente a esquerda latino-americana, que conhece a brutalidade da colonização e do imperialismo – não deveria se apressar a festejar a compra de armas letais por parte de países da Europa Ocidental para entregar ao governo Zelensky e suas milícias apenas porque isto estaria ajudando a conter o tirano que pode apertar o botão da bomba atômica. Um rato acuado não foge, ataca!

E, como pessoa LGBT, tenho uma preocupação a mais: a homofobia é o denominador comum dos países do leste europeu, incluído aí a Ucrânia. Tenho uma real preocupação sobre o destino de gays, lésbicas e pessoas trans durante e após o fim da guerra, com exércitos e milícias armados até os dentes seja com seus próprios recursos, seja com os da União Europeia.

Nós de esquerda devemos lutar pela solução diplomática do conflito e pelo combate ininterrupto à desinformação e à propaganda, venham de onde venham. Podemos começar fazendo sempre distinções claras entre governo de Putin e russos, e entre governo Zelensky e ucranianos.


Esta coluna foi republicada com autorização do autor.

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