democraciaAbierta: Opinion

A democracia brasileira emergirá mais forte deste dia de infâmia

Os ataques em Brasília exigem do governo Lula postura firme contra golpistas de Bolsonaro, seus apoiadores e financiadores

WhatsApp Image 2022-04-16 at 2.52.03 AM.jpeg
Francesc Badia i Dalmases
9 Janeiro 2023, 6.13
Bolsonaristas radicais invadiram a Praça dos Três Poderes em Brasília no último domingo
|
Matheus Alves/dpa/Alamy Stock Photo

O atentado à sede dos três poderes do Estado, em Brasília, neste domingo, 8 de janeiro, entrará para a história brasileira como um dia de infâmia. O fato de o ataque, convocado por grupos radicais do ex-presidente Jair Bolsonaro através das redes sociais, especialmente ativos no Telegram, ter ocorrido sem que o governo recém-formado tivesse conhecimento revela uma falha retumbante do sistema de inteligência do Estado.

“Lula roubou as eleições…. Os brasileiros sabem...” Steve Bannon escreveu na rede social Gettr, expressando sua satisfação pelo sucesso da estratégia trumpista de deslegitimar o resultado das urnas, a ponto de provocar uma insurreição violenta.

Dezenas de ônibus, coordenados online pelos apoiadores de Bolsonaro, chegaram na manhã de domingo à capital brasileira de diversas procedências e se concentraram no acampamento montado há dois meses em frente ao quartel-general do Exército, antes de marcharem rumo à Praça dos Três Poderes. A passeata entre os 8 km que separam a sede e a praça não teria sido possível sem a evidente conivência das forças de segurança de Brasília.

Os milhares de agressores, alguns exibindo grandes faixas clamando por uma intervenção do Exército para tirar do poder o recém-empossado presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se encontraram com forças de segurança claramente desprovidas de recursos e despreparadas, que timidamente repeliram os ataques. Alguns agentes, inclusive, foram vistos conversando e tirando fotos com os agressores. O secretário da Segurança Pública, Fernando de Sousa Oliveira, e o governador do DF, Ibaneis Rocha, ambos conhecidos bolsonaristas, têm sido acusados de serem cúmplices dos ataques.

Os paralelos com o ocorrido há dois anos durante a invasão ao Capitólio, em Washington, são evidentes. No entanto, no caso do Brasil não havia um presidente aplaudindo os agressores do poder, nem representantes públicos presentes, por ser domingo. Bolsonaro, que está na Flórida, só se pronunciou pelo Twitter quando já era evidente que os agressores não iriam conquistar o apoio do Exército que reivindicavam. Em sua mensagem, defendeu o direito legítimo de se manifestar, mas não de vandalizar edifícios públicos.

Apoiadores de Bolsonaro têm estado ativos desde os resultados ajustados de outubro. A demanda é sempre a mesma: intervenção militar

A essa altura, Lula, em viagem oficial ao interior de São Paulo, já havia decretado que as autoridades federais assumissem a segurança de Brasília até 31 de janeiro e declarado que os agressores, que classificou como fascistas, e seus financiadores seriam identificados, presos e levados à justiça. O presidente também apontou Bolsonaro — que até hoje, a exemplo de Trump, não reconheceu sua derrota nas urnas — como principal responsável pelos acontecimentos.

Até o final da tarde, as forças de segurança federais haviam detido cerca de 400 golpistas e restabelecido o controle. Lula voltou a Brasília e fiscalizou in loco os danos ao patrimônio nacional causados ​​pelos atos de vandalismo, descritos por muitos como terroristas.

A indignação entre as forças políticas e a opinião pública é enorme. E levanta muitas questões. Apoiadores de Bolsonaro têm estado ativos desde os resultados ajustados de outubro, primeiro com bloqueios agressivos de rodovias em todo o país, seguidos de comícios e acampamentos em frente a quartéis do Exército. A demanda é sempre a mesma: intervenção militar.

As dissensões no recém-formado governo Lula, que integra uma pluralidade de forças e sensibilidades reunidas por sua rejeição ao autoritarismo de extrema-direita liderado por Bolsonaro, sobre como lidar com essas ações causaram inércia. Ninguém ousou dissolver as concentrações à força, baixo a justificativa de se tratarem de concentrações pacíficas, protegidas pelo direito de protesto e pela liberdade de expressão. O próprio Bolsonaro as validou com esse argumento em sua primeira aparição pública dois dias após sua derrota eleitoral. No entanto, outras vozes apontam que os comícios pediam abertamente um golpe, o que é ilegal e inconstitucional.

Agora fica o dilema sobre o que fazer diante dessa situação, que se tornou insustentável. Muitos dos participantes no atentado regressaram ao acampamento em frente ao quartel-general, onde o Exército impediu que a polícia interviesse. Alguns agressores orquestraram alguns bloqueios de estrada e grupos apelaram nas redes sociais pelo bloqueio da saída de combustível das refinarias de todo o país.

Os próximos dias serão tensos no Brasil. A resolução da situação depende muito das respostas às diferentes incógnitas que ainda cercam os acontecimentos na Praça dos Três Poderes.

A primeira será apurar as responsabilidades entre as autoridades de Brasília. A segunda identificar as falhas de inteligência, militares e civis, que foram incapazes de alertar o governo da insurgência. Em terceiro lugar determinar qual será a estratégia para dissolver as concentrações persistentes e impedir a formação de novas. E a quarta, e mais difícil, será combater efetivamente os numerosos grupos de bolsonaristas radicais sem provocar reações violentas que levem à desestabilização do país, comprometendo assim a viabilidade do novo governo.

Por um lado, é possível que o execrável espetáculo dos atos terroristas contra as sedes dos poderes públicos faça com que muitos simpatizantes do bolsonarismo radical percebam seu verdadeiro caráter violento e neofascista e suas consequências. Por outro, alguns proeminentes ativistas de extrema-direita já se apressaram a acusar a esquerda de usar agentes infiltrados para provocar o ataque como forma de desacreditar o movimento.

O sucesso de Lula e sua equipe na gestão desta nova realidade dependerá em grande parte de como encarem essa governabilidade difícil

De todas as formas, essa grotesca tentativa de golpe ao estilo Trump põe em xeque a retórica de Lula, que promove um discurso conciliatório e de unidade para superar a extrema polarização atual. Diante dos atentados, o governo deve pôr um fim à tolerância com os grupos golpistas de Bolsonaro, que são muito ativos e muito bem financiados por poderosos empresários e pastores evangélicos. O governo terá que levá-los à justiça, com toda a mão pesada que o Estado de direito permite, inclusive exigindo a extradição de Bolsonaro dos EUA, se for o caso.

O sucesso de Lula e sua equipe na gestão desta nova realidade dependerá em grande parte de como encarem essa governabilidade difícil, herdada de um extremista com alto teor de toxicidade política. O que está em jogo nesta profunda crise é a enorme esperança de mudança, restauração e um retorno à justiça social e climática e à normalidade democrática vislumbrada há pouco mais de uma semana durante a inauguração de Lula.

O compromisso de Lula com a reconciliação nacional será uma tarefa titânica, mas a democracia brasileira, não sem enormes dificuldades, emergirá mais forte após este dia de infâmia. A maioria do povo brasileiro e da comunidade internacional está do seu lado.

We've got a newsletter for everyone

Whatever you're interested in, there's a free openDemocracy newsletter for you.

Unete a nuestro boletín ¿Qué pasa con la democracia, la participación y derechos humanos en Latinoamérica? Entérate a través de nuestro boletín semanal. Suscribirme al boletín.
Audio available Bookmark Check Language Close Comments Download Facebook Link Email Newsletter Newsletter Play Print Share Twitter Youtube Search Instagram WhatsApp yourData