democraciaAbierta: Opinion

Drama da violência e insegurança no México piora em 2022

O país contabiliza 12 das 50 cidades mais perigosas do mundo, um aumento em relação a 2021, quando tinha oito

Amigzaday López Beltrán
10 Junho 2022, 12.00
No México, 3.462 mulheres foram assassinadas em 2021
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ZUMA Press, Inc./Alamy Stock Photo

Não se vire quando vir uma van blindada preta

Não saia do carro na estrada mesmo se um pneu estiver furado

Não saia à noite

Não reaja em caso de assalto; deixe que levem tudo

Não confie na polícia

Não poste sobre a violência – isso te coloca em perigo

Não se vista provocativamente

As múltiplas restrições autoimpostas que os mexicanos usam para se proteger há anos não bastam. Crimes e criminosos foram superados aos milhares, sempre cobertos por um manto de impunidade. No México, 3.462 mulheres foram assassinadas em 2021, além de milhares de outros assassinatos e centenas de desaparecimentos e sequestros.

Esse nível intolerável de violência foi naturalizado em todo o país, forçando os mexicanos a mudar seu estilo de vida para tentar evitar entrar para as estatísticas. No México hoje ninguém está a salvo e qualquer um pode ser o agressor.

Em 18 de maio, Viridiana Moreno Vázquez, de 31 anos, se apresentou a uma "entrevista de emprego" em Cárdel, Veracruz. “Procura-se recepcionista para hotel. Jornada de segunda a sexta e sábado até o meio-dia. Pagamento semanal de 1.850 pesos (US$ 94), auxílio transporte...”, dizia o anúncio.

Ela nunca voltou para casa. Seu desaparecimento gerou protestos e manifestações. Seis dias depois, as autoridades confirmaram sua morte. No entanto, sua família não acredita que o cadáver desmembrado apresentado pela polícia seja os restos mortais da jovem. A família ainda espera por um teste de DNA confiável que confirme a identidade de sua filha.

A família de Viridiana não é a única que vive esse tipo de angústia. Cecilia Flores tem dois filhos desaparecidos, um há sete anos. “Quero informar à sociedade que hoje fui sozinha, junto com minha filha Ceci, sem nenhuma segurança, procurar meu filho Alejandro. Meu amor é maior do que qualquer medo”, disse. Nesses anos de busca, Cecilia fundou o coletivo “Mães Procuradoras de Sonora”.

Hoje, ela está sob proteção do Mecanismo de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, depois de ter sido ameaçada pelo crime organizado. No entanto, afirma ter “mais medo das autoridades do que dos cartéis”.

Recentemente, María Herrera Magdaleno, mãe de quatro filhos desaparecidos, visitou o Papa Francisco em Roma para pedir que intercedesse para acabar com a violência e que rezasse pelos desaparecidos no México.

Cecilia Monzón, advogada e ativista de direitos humanos, foi assassinada em 21 de maio em San Pedro Cholula, em Puebla, vítima de disparos de dois homens em uma moto. A ativista havia solicitado diversas vezes medidas de proteção devido a ameaças de morte e intimidação.

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Das 50 cidades com as maiores taxas de homícidio do mundo, 38 estão na região. O Nordeste brasileiro domina 20% da lista

Essas três mulheres ilustram apenas algumas das tragédias que ganham visibilidade na mídia. Mas a violência silenciosa aumenta a cada dia o medo que atinge todos os cidadãos: mães, crianças, mulheres, policiais, militares, ativistas, políticos. Hoje, o México é um país de sobrevivência.

Este ano, o México contabiliza 12 das 50 cidades mais perigosas do mundo, segundo o ranking "World Population Review 2022", um aumento em relação a 2021, quando tinha oito.

De acordo com o estudo, 42 das 50 cidades mais perigosas do mundo estão na América Latina. O México é o segundo país da lista, atrás apenas do Brasil, que contabiliza 17 das cidades mais violentas. Em terceiro está a Venezuela, com cinco.

“Na região, a violência é atribuída ao narcotráfico e ao crime organizado, especialmente no México. Além disso, a violência na região é exacerbada pela pobreza, corrupção, instabilidade política e impunidade”, afirma o estudo.

Tijuana, cidade localizada na fronteira com os EUA, ao sul de San Diego, encabeça a lista, com 2.640 homicídios por ano. Ela é seguida por Acapulco, Ciudad Victoria, Ciudad Juárez, Irapuato, Cancún, Culiacán, Uruapan, Ciudad Obregón, Coatzacoalcos, Celaya, Ensenada, Tepic, Reynosa e Chihuahua, em ordem de perigo.

Segundo o estudo, a violência em Tijuana é causada principalmente pelo crescente tráfico local de drogas, com cartéis lutando por território para vender, sobretudo, metanfetamina. Outras cidades mexicanas da lista sofrem graus semelhantes de violência devido à mesma droga.

Os números são assustadores. Na Ucrânia, um país em guerra, a ONU registrou 4.183 mortes de civis desde a invasão russa em 24 de fevereiro. No primeiro trimestre no ano, o México registrou 7.354 homicídios dolosos, uma média diária de 82 assassinatos.

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A impunidade não é acidental, aleatória ou involuntária: é o resultado de uma cadeia de ações com o propósito de minar investigações

As políticas do presidente Andrés Manuel López Obrador para reduzir a violência relacionada ao crime organizado sob o slogan “abraços, não disparos” não surtiram efeito. Em quase três anos e meio de seu mandato, os crimes dolosos chegaram a 121.824, os desaparecimentos ultrapassaram as 21,5 mil vítimas e as denúncias de desaparecimentos de crianças e adolescentes chegaram a 19.445, dos quais 5.102 ainda estão desaparecidos.

Similarmente, as políticas dos ex-presidentes Enrique Peña Nieto e Felipe Calderón, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), desenvolvidas em sua "guerra ao narcotráfico" também fracassaram. Seus governos também foram marcados por acusações de envolvimento com o crime organizado, incluindo do secretário de Segurança de Calderón, Genaro García Luna, preso nos Estados Unidos acusado de tráfico de drogas.

Os supostos pactos de impunidade do ex-presidente Vicente Fox também lançam uma sombra sobre o passado, embora os presidentes do PRI tenham oficializado a crise de insegurança que assola o México e que se desdobra em todo o território com cada vez mais crueldade.

López Obrador deve se concentrar em deter os crimes que assolam o país e que deixam milhares de pessoas com medo de sair às ruas, evitando os discursos de atribuição de culpa e partidarismo. O presidente precisa lançar as bases para implementar políticas efetivas agora se quiser mudar a situação do país, como prometeu em sua campanha de 2018.

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