Changemakers: Opinion

Por que precisamos do feminismo para alcançar a justiça climática

Mulheres do Sul Global, que há muito combatem a desigualdade, têm as ferramentas para enfrentar a crise climática

Barbara van Paassen
11 Maio 2022, 12.00
A ativista queniana Elizabeth Wathuti está entre uma onda de ativistas do clima feministas do Sul Global
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Guglielmo Mangiapane/Reuters/Alamy

A emergência climática é uma questão de justiça social intrinsicamente relacionada com a desigualdade. Existe uma lacuna de riqueza bem documentada – que reflete injustiças históricas e relações de poder desiguais – entre as nações responsáveis ​​pelas principais emissões de gases de efeito estufa e aquelas forçadas a lidar com seus efeitos adversos, que variam de enchentes a secas e incêndios florestais.

Por muito tempo, homens brancos no Norte Global – em grande parte intocados pelas realidades catastróficas das mudanças climáticas – dominaram o debate climático, excluindo populações do Sul Global, particularmente mulheres e comunidades indígenas. As consequências são emissões desenfreadas e financiamento insuficiente para apoiar ações de mitigação e adaptação, além de perdas e danos.

Enquanto isso, as “soluções” usuais, como a compensação de carbono, parecem agravar em vez de abordar as desigualdades globais. A gigante do petróleo Shell, por exemplo, planeja compensar 120 milhões de toneladas de dióxido de carbono de suas atividades poluentes com plantações de árvores em grande escala que provavelmente levarão à apropriação de terras no Sul Global.

“Se levamos a sério o enfrentamento da crise climática, precisamos começar a ouvir e sentir a dor daqueles que sofrem as consequências já hoje”, argumenta a ativista ambiental e climática queniana Elizabeth Wathuti.

Este não é apenas um pedido de representação, embora essa questão seja importante. “As ferramentas do mestre nunca vão desmantelar a casa-grande”, como disse a ativista americana de direitos civis Audre Lorde. Para enfrentar a crise climática e alcançar a justiça climática, precisamos de “ferramentas”, liderança e princípios radicalmente diferentes. Mulheres e feministas têm muito a oferecer nesse quesito, especialmente aquelas do Sul Global, com sua longa história de combate à desigualdade e construção de soluções inclusivas. São essas mulheres, de diversas origens, que estão indo cada vez mais para as linhas de frente na luta pela justiça climática.

Como apresentadora do podcast "People vs Inequality", tive a honra de entrevistar seis das líderes climáticas mais inspiradores da atualidade. As seis mulheres têm uma característica em comum: lutam para tentar transferir o poder para os mais afetados pelas mudanças climáticas. Independentemente de se considerarem feministas, suas histórias são ilustrações poderosas de liderança e princípios feministas. Mas o que exatamente elas fazem? E o que podemos – de ativistas a formuladores de políticas – aprender sobre como alcançar a justiça climática?

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Construir um mundo solidário

As seis ativistas climáticas foram inspiradas a trabalhar pela justiça climática devido a sua forte conexão com a natureza, bem como com outras ativistas e comunidades afetadas pela crise climática. A ativista Elizabeth Wathuti está seguindo os passos de Wangari Maathai, a ambientalista queniana que se tornou a primeira mulher africana a ganhar o Prêmio Nobel da Paz por construir movimentos de mulheres por meio do plantio de árvores e defesa da natureza.

Como Maathai, Wathuti mostra como nutrir qualidades de liderança em jovens, envolvendo-se com elas e ensinando-as não apenas a plantar árvores, mas a cultivá-las. Ela usa suas plataformas para compartilhar as histórias de quenianos que enfrentam os efeitos das mudanças climáticas, como a seca, e pede aos líderes que humanizem a crise climática.

Regeneração do meio-ambiente, solidariedade e economia solidária são cada vez mais centrais para a criação de um mundo mais justo e sustentável. E as feministas há muito mostram como incorporar esses elementos em suas vidas diárias, seu ativismo e suas propostas de políticas.

Compartilhar poder

A História nos ensina que a mudança só é possível quando as pessoas dão as mãos para uma ação coletiva. Outra mulher com quem conversei, Victoria Tauli-Corpuz, ativista dos direitos indígenas e ex-relatora da ONU, ajuda a capacitar mulheres e suas comunidades para defender seus direitos.

Ela nos relembra os conhecimentos e as soluções empregadas por povos indígenas há muito tempo para proteger nosso planeta. Jovens ativistas do clima e feministas como Chihiro Geuzenbroek estão comprometidas com a inclusão radical, garantindo que as vozes excluídas sejam ouvidas. Geuzenbroek destaca a necessidade, especialmente para o Norte Global, de desafiar seus comportamentos e mentalidades. Essas líderes feministas também nos mostram como unir os movimentos, quebrando os silos que restringem uma abordagem unificada para soluções holísticas.

Coragem e ousadia

Precisamos de uma mudança radical na política e na prática, o que exige transferir o poder dos poluidores para os mais afetados e para aqueles que buscam soluções justas e sustentáveis. Em um episódio de "People vs Inequality", a advogada de direitos humanos Tessa Khan explica o que isso significa na prática. Ela tem uma missão clara e uma estratégia abrangente que reúne cidadãos, trabalhadores e organizações ambientais para um Reino Unido justo e livre de fósseis. Ela mostra a agência que temos e a importância de ter mais pessoas a bordo.

Formuladores de políticas muitas vezes não conseguem lidar com os poderes invisíveis ou ocultos que impedem mudanças

As líderes climáticas de longa data Tasneem Essop e Farhana Yamin também desafiam os desequilíbrios de poder, a falta de solidariedade global e o foco no crescimento econômico. Ambas mostram como construir organizações que representam o mundo que querem construir.

Formuladores de políticas muitas vezes não conseguem lidar com os poderes invisíveis – normas, por exemplo – ou ocultos – lobby corporativo – que impedem mudanças. Para substituir soluções de curto prazo por mudanças estruturais, aqueles no espaço climático precisam ser ousados ​​em seu engajamento com o poder. Líderes feministas são particularmente boas nisso, porque não têm outra opção. As ferramentas e estratégias que desenvolveram para analisar, construir, afirmar e transformar o poder são úteis para qualquer pessoa interessada em abordar as causas da crise climática e construir soluções justas.

Os desafios que temos pela frente são grandes e podem parecer intransponíveis. De fato, exigem um tipo diferente de liderança. As mulheres que trabalham pela justiça climática mostram o que é a liderança feminista e por que precisamos dela.

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