50.50: Opinion

O Haiti precisa de um feminismo inclusivo que defenda todas as mulheres, inclusive as trans

Parte das feministas locais acreditam que o país não está pronto para essa conversa – mas não o fazer é trair a essência do movimento

Fedorah Pierre Louis Naike Ledan
27 Setembro 2021, 12.00
Pessoas trans haitianas exigem respeito e segurança em uma recente campanha Transgender Haiti

O feminismo deve ser inclusivo. Mas no Haiti, onde vivemos, muitas vezes não é. As mulheres trans haitianas, em particular, enfrentam diariamente múltiplas ameaças vindas da sociedade patriarcal, disse-nos Lulu, ativista e porta-voz da Kay Trans, um abrigo para pessoas trans em Porto Príncipe, a capital do país.

As organizações de mulheres haitianas estão se mobilizando para enfrentar os sistemas patriarcais, para organizar movimentos feministas e para lutar pela mudança. É triste, no entanto, que algumas vozes sejam esquecidas ou às vezes até mesmo vergonhosamente silenciadas, privando-as de reivindicar seus direitos e de participar nesses movimentos e na sociedade.

"As ONGs trans nunca foram convidadas para nenhuma atividade [feminista] organizada". Os serviços e informações sobre a VBG [violência baseada no gênero] que são oferecidos não têm definição, vocabulário ou um interesse claro em mulheres como eu", disse-nos Semi, uma ativista trans da cidade de Petit-Goave, no sul do Haiti.

As pessoas trans, acrescentou Sami, "suportam situações abomináveis para sobreviver". É difícil para nós ter acesso aos serviços de saúde, enquanto o acesso a hormônios ou apoio psicossocial é um luxo [...] e não há plataformas para levantar nossas vozes ou para trabalhar em melhorar os sistemas existentes".

Uma parte significativa do movimento feminista no Haiti acredita que o país não está pronto para esta conversa – que há muitos outros problemas para resolver, e que agora não é o momento de acrescentar vozes trans aos debates. A questão é demasiado complexa, demasiado difícil de abordar, demasiado delicado para falar.

Mas isso sugere que as mulheres trans deviam deixar de existir e deixar de ser quem são na sua luta por espaço, dignidade, respeito e proteção. Isto é inaceitável. Feminismo é igualdade, para todos.

Crise e luta

O Haiti tem estado nas primeiras páginas do mundo pela sua atual crise política e econômica - uma das piores desde 1986, quando as ditaduras de François e Jean-Claude Duvalier, pai e filho, terminaram após 29 anos.

Esta crise agrava a vulnerabilidade das comunidades já marginalizadas. O assédio sexual e a violência baseada no gênero estão criminalizados no novo Código Penal (que entrará em vigor em 2022), mas continuam sendo muito comuns.

Além disso, as pessoas LGBT têm pouca proteção legal, enfrentam uma discriminação considerável, e os grupos anti-LGBT estão mais ativos e vocais do que nunca. Há também políticos que tentaram aprovar projetos de lei anti-LGBT (sem sucesso até agora).

Será difícil mudar isso, mas devemos lutar por uma verdadeira igualdade, incluindo a diversidade: de sexo, orientação sexual, gênero, realidades econômicas, cor e raça.

Temos que desafiar a ideia de que as identidades trans e outras identidades de gênero são menos legítimas do que suas equivalentes cis.

Precisamos ser intencionalmente inclusivos para assegurar que toda pessoa humana seja respeitada e que seja feita justiça se seus direitos forem violados.

Não o fazer é trair a essência do feminismo, um movimento definido por sua defesa radical dos direitos humanos iguais. E devemos prestar atenção especial às mulheres que correm maior risco de serem discriminadas, espancadas, estupradas, assassinadas e ignoradas pelos sistemas patriarcais.

Uma concepção inclusiva do feminismo – uma concepção que defende as mulheres trans – faz de todos nós feministas melhores.

*Tradução de Lourenço Melo

Empower and protect, don’t prohibit: a better approach to child work

Bans on child labour don’t work because they ignore why children work in the first place. That is why the International Year for the Elimination of Child Labour will fail.

If we truly care about working children, we need to start trying to keep them safe in work rather than insisting that they end work entirely. Our panelists, all advocates for child workers, offer us a new way forward.

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