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Você se lembra da dedicação de Cuba a Angola?

Sangue cubano deixou sua marca na consciência mundial após sua participação nas Guerras Angolanas de 1975-1988. Os políticos corporativos estão unidos em seu desejo de que ignoremos esta realidade.

Don Fitz
12 January 2021
Farol do Lobito, Angola, que foi destruído durante a guerra civil. Foto de 1995
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Claus Bunks/Wikimedia Commons/CC BY 2.0

Fartos das guerras estrangeiras, os oficiais portugueses derrubaram o Primeiro Ministro Marcello Caetano em 25 de abril de 1974. Muitas ex-colônias, então, viram a oportunidade de definir seu próprio futuro.

Angola tinha sido a mais rica das colônias portuguesas, com grande produção de café, diamantes, minério de ferro e petróleo. Das ex-colônias, tinha a maior população branca – 320 mil, de cerca de 6,4 milhões de habitantes. Quando 90% de sua população branca fugiu em 1974, Angola perdeu a maior parte de sua mão de obra qualificada.

Três grupos disputaram o poder. O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), liderado por Agostinho Neto, era a única alternativa progressiva. A Frente Nacional de Libertação de Angola (FLNA), liderada por Holden Roberto, ganhou o apoio do líder de direita do Zaire, Joseph Mobutu, conspirador no assassinato de Patrice Lumumba. Jonas Savimbi, que dirigia a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), trabalhou junto ao regime do apartheid da África do Sul.

Portugal disse à África do Sul para retirar suas tropas de Angola, o que fez até outubro de 1974. Recentemente derrotados no Vietnã, os Estados Unidos se sentiram incapazes de enviar tropas. Incentivados pela administração Ford, a África do Sul voltou a Angola dentro de um ano.

Enquanto isso, os representantes de Fidel Castro se reuniram com Neto junto com o chefe da milícia recentemente organizada pelo MPLA, as Forças Armadas Populares para a Libertação de Angola (FAPLA. Sem motivação para intervir, Cuba recusou-se a dar apoio financeiro.

A invasão sul-africana começou em 14 de outubro, quando muitos membros brancos de suas tropas brancas fingiram ser forças da UNITA, escurecendo sua pele através de aplicações do creme de camuflagem "Black Is Beautiful". Em novembro, Fidel sabia que sem ajuda a capital angolana cairia nas forças do apartheid e aprovou a assistência militar. Um pequeno número de cubanos chegaram ao país fundamental para evitar que a África do Sul alcançasse a capital angolana, Luanda.

A intensa hostilidade entre a UNITA e a FNLA acabou com o esmagamento desta última no início de 1976, simplificando o conflito para batalhas entre o MPLA e a UNITA e seus aliados. As tropas cubanas chegaram à fronteira sul com a Namíbia, expulsando completamente as forças do apartheid.

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Múltiplos fatores impulsionaram o envolvimento de Cuba. A revolução de 1959 foi tão intensamente oposta pelos Estados Unidos que ficou claro que a melhor defesa de Cuba seria atacar. Uma campanha na África seria menos provável de provocar um confronto direto, em grande parte porque a maioria dos americanos não via a África como parte de seu quintal. Um grande número de cubanos é de ascendência africana e os revolucionários viam o antirracismo como parte fundamental de sua política. Fidel referiu-se à luta antiapartheid como "a mais bela causa".

A segunda fase de guerra

Como os combates pareciam diminuir, o número de soldados cubanos em Angola caiu de 36 mil em abril de 1976 para menos de 24 mil em um ano. Entretanto, quando a França e a Bélgica enviaram tropas para o Zaire, Cuba suspendeu sua retirada das tropas.

Durante todo o conflito angolano, a África do Sul e os Estados Unidos ignoraram a lei internacional e agiram como se fosse perfeitamente natural para a África do Sul dominar a Namíbia. Depois que aviões sul-africanos massacraram refugiados namibianos no campo de Cassinga, em Angola, em maio de 1975, o presidente dos EUA, Jimmy Carter, pôs de lado a situação e disse que "esperamos que tudo tenha acabado".

Memórias daquele massacre ficaram na mente de uma menina de 12 anos de idade, Sophia Ndeitungo: "Os primeiros cubanos que eu vi na vida foram os soldados que vieram" para resgatá-los. A maioria dos cubanos eram brancos, então ela "...pensava que eram sul-africanos. Mais tarde, entendemos que nem todos os brancos são ruins". Sophia foi transferida para a Ilha da Juventude de Cuba para estudar. Ela se formou na faculdade de medicina de Havana, casou-se com outro refugiado de Cassinga, retornou à Namíbia e tornou-se chefe dos serviços médicos de suas forças armadas em 2007. Para milhares de negros africanos, os cubanos eram os únicos brancos que lhes mostravam algum tratamento digno.

Exuberante depois das eleições americanas de 1980 que levaram Ronald Reagan ao poder, a África do Sul intensificou suas incursões em Angola, Moçambique, Zimbábue, Zâmbia, Lesoto, Suazilândia e Botsuana. Em agosto de 1981, a África do Sul enviou entre 4 mil a 5 mil soldados para o sul de Angola com tanques e apoio aéreo. Expandiu as táticas para incluir envenenamento de poços, matando gado e destruindo a distribuição de alimentos e comunicações. Foi neste contexto que Cuba começou a enviar 9 mil tropas de volta para Angola em agosto de 1983.

Savimbi: Aliado dos EUA e África do Sul

Durante toda a administração Carter e os primeiros anos de Reagan, os Estados Unidos aumentaram seu fluxo de armas para a UNITA. Já em 1974, o líder da UNITA, Savimbi, havia estabelecido contatos com a ditadura portuguesa e prometeu à África do Sul que os ajudaria a construir um bloco anticomunista. Savimbi falava inglês fluentemente, exalava autoconfiança, manipulava inteligentemente sua audiência, sabia exatamente o que os americanos queriam ouvir e era "sem escrúpulos". Em outras palavras, sua combinação de atributos era um ajuste perfeito para um homem de frente da CIA.

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Savimbi com o presidente americano Ronald Reagan em 1986 | Wikimedia Commons/Domínio Público

Savimbi consolidou seu poder local, executando os adversários de aldeias sob o argumento de serem "feiticeiros". Ele tinha controle total e não tolerava dissidências. Em 1980, além de livrar a UNITA daqueles que o desafiavam, Savimbi tinha "...as esposas e filhos dos dissidentes queimados vivos em exibições públicas para ensinar os demais".

O Coronel das Forças Especiais Jan Breytenbach via Savimbi como um "manipulador extraordinário... Como líder político, ele era muito bom. Eu o compararia a Hitler.” Esta comparação com Hitler não era um ataque a Savimbi – era um elogio, pois vários políticos sul-africanos de alto nível haviam sido membros de grupos pró-Nazismo.

Entre aqueles que ignoravam as campanhas de destruição em massa de Savimbi estava o presidente Jimmy Carter, que tirou tempo de sua agenda de defesa dos direitos humanos para organizar o fluxo de dólares secretos para a UNITA. Em 1985, Steve Weissman resumiu atitudes que abrangiam ambas as partes: "Queríamos prejudicar Cuba e queríamos ajudar as pessoas que queriam prejudicar Cuba". Quando Savimbi disse que estava "lutando pela liberdade contra Cuba" – este era seu trunfo. Era impossível combatê-lo. Savimbi tinha uma qualidade redentora: ele matou cubanos".

As atitudes da África do Sul em relação a Savimbi se enquadravam em sua perspectiva mais ampla de desprezo total pelos negros. As mortes de brancos eram seguidas por anúncios do exército e obituários de jornais na imprensa. As mortes de soldados negros não eram transmitidas nem por seus superiores militares nem pela imprensa local.

Os pontos de vista sul-africanos refletiam os dos políticos americanos. Uma emenda de 1971 ao projeto de lei de sanções dos Estados Unidos pelo ex-membro da KKK e senador democrata Harry F Byrd isentou o cromo, livrando o governo de minoria branca da então Rodésia (hoje Zimbábue) de qualquer consequência. Em discurso altamente divulgado em julho de 1986, Reagan elogiou os brancos sul-africanos que, segundo ele, deram grandes oportunidades aos negros.

Conflito entre aliados

Uma considerável discórdia entre aliados surgiu do casamento por necessidade entre Cuba e a União Soviética. A estratégia de Cuba tinha sido a de que a União Soviética enfrentaria as bem armadas e treinadas forças sul-africanas, enquanto a FAPLA de Angola combateria os inimigos internos da guerrilha. Já os soviéticos acreditavam que a FAPLA deveria desenvolver um exército convencional com tanques e armas pesadas para combater a África do Sul.

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Fidel Castro em visita de estado a Angola em 1976 | DPA/PA Images

Mas as tropas angolanas não tinham praticamente nenhuma educação formal. Os oficiais talvez tivesse chegado à segunda, terceira ou quarta série, mas os recrutas do exército, de forma geral, nunca tinham ido à escola e não conseguiam dominar armas sofisticadas fornecidas pelos soviéticos.

Enquanto Cuba defendia que a FAPLA se concentrasse na UNITA, advertiu simultaneamente que os militares angolanos deveriam ter apoio cubano sempre que se aventurassem em território cercado em grande parte por tropas da UNITA e da África do Sul. O presidente Neto morreu em setembro de 1979 e seu sucessor, José Eduardo dos Santos, se mostrou atraído pelas visões soviéticas de ter um exército convencional suficientemente forte para superar ambas as forças da oposição.

Cuba é o único país estrangeiro representado no Muro dos Nomes no Freedom Park, em Pretória

Durante todo o conflito, os soviéticos agiram como se as principais armas de guerra fossem planos logísticos, tanques e armas. Para Cuba, os mapas de guerra precisavam ter em mente aqueles que usavam essas armas. Cuba entendeu que a frente angolana era parte de uma ampla campanha contra a dominação racista em toda a África Meridional.

O movimento antiapartheid

Em março de 1976, a vitória inicial de Cuba sobre a África do Sul gerou um forte terremoto contra o domínio racista dos brancos, pois os negros se tornaram conscientes da vulnerabilidade das forças do apartheid. Em setembro de 1977, o ativista sul-africano Steve Biko morreu sob custódia policial e, dentro de um mês, o governo baniu 18 organizações e o mais importante jornal negro. Em setembro de 1984, uma nova constituição sul-africana concedeu participação política às comunidades "de cor" e hindu, negando os mesmos direitos aos negros. As cidades negras nos centros industriais do país explodiram. Manifestações massivas, greves, protestos escolares e boicotes à lojas de brancos surgiram por todos os lados. Logo também surgiram funerais para as vítimas da repressão estatal, aumentando a intensidade dos eventos.

A cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz ao Bispo Desmond Tutu atraiu uma grande multidão. A oposição aberta ao apartheid cresceu junto com a intensificação da guerra em Angola. Em 1987, as manifestações sul-africanas eram tão grandes que milhares de soldados brancos estavam ajudando a polícia dentro de suas fronteiras.

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Protestos antiapartheid na África do Sul nos anos 1980 | Paul Weinberg/Wikimedia Commons/CC BY-SA 3.0

Os soviéticos frequentemente demonstravam indiferença àqueles que vinham proteger. Os próprios africanos notaram a rapidez com que soldados, médicos e outros cubanos posicionados perto deles se integraram em sua sociedade. Um recruta lembrou-se que "Os cubanos comiam o que nós comíamos, dormiam em barracas como nós, viviam como nós". O médico Oscar Mena descreveu seu trabalho em Angola como uma "bela experiência". Os soviéticos em Angola pareciam pensar enxergar o país como um lugar de trabalho. Os campos de batalha refletiam o abismo cultural – conselheiros soviéticos ficavam à margem dos combates, enquanto os cubanos sempre participavam do combate.

Brincando com fogo

Em 1985, os soviéticos persuadiram Angola a atacar o reduto da UNITA em Mavinga, apesar dos avisos de Havana de que teriam que passar por uma área controlada pela UNITA e criar uma linha de abastecimento que ela não poderia defender. A situação foi desastrosa. A mesma tragédia se repetiu em 1987.

Depois disso, o General Geldenhuys, da África do Sul, se vangloriou de sua vitória para a imprensa, provocando um intenso repúdio global já que aquele país havia reivindicado a não participação em Angola. Chegou a hora de Cuba lançar um ataque total contra as forças da África do Sul? Esta decisão obrigou Fidel a brincar com fogo.

O ato de equilíbrio mais delicado foi com a União Soviética. Sem sua ajuda financeira, Cuba não poderia levar a cabo a guerra. Sem sua doação de suprimentos militares, a FAPLA de Angola seria incapaz de lutar. Mas sua falha repetida de decisões estratégicas ameaçava todos os aspectos da guerra.

Não menos sensível era Angola, que parecia mergulhada na corrupção. No entanto, o governo do MPLA era muito superior a qualquer coisa que Savimbi pudesse fazer. Uma vitória em Angola seria um golpe fatal no apartheid. No entanto, Cuba não poderia seguir em frente sem a aprovação de Luanda.

Cuba havia guardado suas armas mais poderosas para autoproteção no caso de uma invasão dos Estados Unidos. Enquanto os cubanos se cansavam de uma década e meia de sacrifício, Fidel e Raúl Castro sabiam que ser cauteloso demais poderia significar perder uma oportunidade que jamais se repetiria. No entanto, avançar muito rapidamente poderia causar uma derrota que desmoralizaria e esgotaria as tropas cubanas, os médicos e o povo cubano em casa.

Eles também sabiam que milhares de soldados brancos se tornaram indisponíveis para o serviço em Angola porque eram necessários na África do Sul para reprimir a dissidência. O envolvimento de Reagan no escândalo Irã-Contras deixou os Estados Unidos incapazes de atacar.

Os líderes cubanos concordaram que havia chegado a hora de enviar muito mais tropas e armas para Angola, incluindo seus melhores aviões, seus melhores pilotos e suas armas mais sofisticadas. Em março de 1988, a FAPLA e Cuba defenderam a cidade de Cuito Cuanavale ao ser atacada por tropas sul-africanas e da UNITA. Chegaram aviões e pilotos cubanos em número suficiente para que eles conseguissem uma vitória no ar. Ao mesmo tempo, as tropas angolanas repeliram o ataque terrestre. As tropas sul-africanas foram desmoralizadas ao sinalizarem o início do fim. Nelson Mandela observou que esta batalha-chave "destruiu o mito da invencibilidade do opressor branco".

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Tanque PT-76 cubano nas ruas de Luanda, 1976 | Wikimedia Commons/Domínio Público

Apesar da clara derrota das forças do apartheid, os diplomatas americanos continuaram a dizer a seus homólogos soviéticos que a África do Sul não deixaria Angola até que todas as tropas cubanas desaparecessem. Fidel disse ao negociador soviético para "... perguntar aos americanos por que o exército da raça superior foi incapaz de tomar Cuito, que é defendido por negros e mulatos de Angola e do Caribe".

O negociador cubano Jorge Risquet disse-lhes educadamente: "Os sul-africanos devem entender que não vencerão nesta mesa o que não conseguiram vencer no campo de batalha". Sabendo que uma invasão total de Angola seria repreendida internacionalmente, resultaria em milhares de baixas e potencialmente deixaria o país incapaz de se defender da rebelião negra interna, os políticos sul-africanos deram o sinal para seus comandantes partirem. Suas tropas foram retiradas de Angola até 30 de agosto de 1988.

Nas eleições angolanas, dos Santos do MPLA derrotou Savimbi (49,8% a 40,1%). Em abril de 1990, o presidente sul-africano Frederick de Klerk legalizou o Congresso Nacional Africano e o Partido Comunista Sul-africano ao libertar Nelson Mandela, que foi eleito para chefiar o país em abril de 1994.

Muitos dos paralelos entre os EUA no Vietnã e Cuba em Angola foram marcantes e ambas as intervenções estrangeiras tiveram um efeito profundo na consciência pública. No entanto, Cuba estava defendendo um país real da invasão, enquanto a divisão do Vietnã em "Norte" e "Sul" foi engendrada pelos franceses e americanos, ou seja, não invasão estrangeira. Não foi coincidência que Cuba tratasse Angola como um Estado soberano (apesar de muitas diferenças) enquanto os políticos americanos tinham tanto respeito pelos vietnamitas quanto um marionetista tem por seus muitos fantoches.

Ninguém apreciou mais a realidade política do que os sul-africanos que inauguraram o Freedom Park em Pretória, em 2007. Seu Muro dos Nomes inclui 2103 cubanos que perderam suas vidas na guerra angolana. Cuba é o único país estrangeiro representado no Muro.

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Francesc Badia i Dalmases Director, democraciaAbierta – openDemocracy's Latin America project

Chair: Mary Fitzgerald Editor-in-chief, openDemocracy

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