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No Amazonas, os shuar lutam em duas frentes

Shuar significa “o povo”. Hoje em dia, os shuar, um povo indígena originário do atual Equador e Peru, continuam a lutar contra o Estado colonial. E contra o extrativismo capitalista. English Español 

Inti Cartuche Vacacela
1 February 2017
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Grupo de Shuar no parque de Logroño, Equador. Wikimedia Commons/Jlh249. Alguns direitos reservados.

Para o filósofo equatoriano Bolívar Echeverría a vida moderna apoia-se num absurdo: “um modo de vida no que, no meio da possibilidade da abundância, reproduzir-se supõe ao mesmo tempo mutilar-se, sacrificar-se, oprimir-se e explorarmo-nos uns aos outros”.

Quer dizer, as possibilidades técnicas e sociais atuais são tais que nos permitiram alcançar o tão desejado Sumak Kawsay (a vida plena de todos os seres humanos que habitamos neste planeta). Contudo, a “maldição da abundancia” consiste em que, apesar disso, a sociedade atual gera, consome e reproduz riqueza ao destruir duas das suas principais fontes: os seres humanos e a natureza.

Historicamente constituímo-nos como povos e culturas, cada um com umas características particulares, como resultado de diversas formas de relacionarmos o trabalho humano com a natureza e de dar sentido a essa experiencia – quer dizer, de criar um certo tipo de sociedade. Mas, além disso, como povos e indivíduos, somos possuidores de uma característica particular: o Ruray-ushay – ou seja, a capacidade de fazer, contruir e criar, tanto individualmente como, sobretudo, coletivamente. Esta, para muitos, seria a capacidade ou característica que nos torna humanos e nos afasta (ainda que nunca totalmente) do animal. Por outro lado, está a natureza – Allpamama – como sustento material da reprodução dos povos e culturas, mas também como fonte de significações e saberes que acompanhou o longo processo de produção das diferentes sociedades humanas na historia, e que agora está ameaçada pelos efeitos da cobiça e do egoísmo.

Estas duas fontes originarias da riqueza social são destruídas sob o capitalismo para acumular valores. Destrói-se a natureza e destroem-se as culturas do mundo para sustentar a vida opulenta de um grupo reduzido de pessoas. Neste absurdo, como disse Echeverria, o que se observa quando analisamos a ofensiva da mineração transnacional em vários territórios da nação shuar, a agressão aos povos, aos seus modos de vida, e ao seu meio de reprodução social: a selva amazónica.

Mas a historia da expansão do capitalismo nunca esteve isenta da sua correspondente resistência, uma vez que aqueles que geram riqueza e aqueles que se apropriam da mesma estão necessariamente unidos. Diz Echeverría: hoje não há capital, não há acumulação possível, sem seres humanos criadores, fazedores”.

Os shuar, povo guerreiro, tem habitado de forma soberana a Amazónia a sul do Equador e a nordeste do Peru há séculos, muito antes que os estados nacionais tivessem sido construídos desconhecendo, como um pouco por todo o AbyaYala, – o continente americano – a presença de nações originárias. O papel que o governo equatoriano está a desempenhar ao apoiar sem meio termo as empresas transnacionais chinesas demonstra a atualidade do racismo e do colonialismo de um Estado que menospreza a presença imemorial dos povos indígenas. Quando o Presidente Correa diz que nesses territórios não existiam povos ancestrais, não faz mais do que verbalizar uma antiga ideologia segundo a qual a Amazónia era um território vazio e, por tanto, disponível para a exploração. Ao mesmo tempo, Correa fala da suposta histórica missão dos estados coloniais da América: construir uma só nação passando por cima dos povos originários.

Neste sentido, a luta da nação shuar é uma luta direta contra o Estado colonial, contra essa estrutura de dominação que serviu para subjugar os povos indígenas em nome do bem de uma nação que nunca reconheceu na prática a pluralidade histórica do seu país. A sua luta evidencia a violência que este Estado colonial deve exercer contra os povos diferentes para consolidar e culminar esse processo inconcluso e inviável que diz: “um Estado, uma Nação”. Ao mesmo tempo, mostra a “atualidade da plurinacionalidade” como um projeto de superação dessas estruturas políticas que não permitem a autodeterminação territorial das nações indígenas e da sua própria historia. O Estado plurinacional, como sugere a antropóloga Rita Segato, dever ser um garante da reestruturação e autodeterminação dos povos, da “devolução da capacidade de cada povo de exibir o seu próprio projeto histórico”. E isto é exatamente o que está em jogo na luta do povo shuar contra a politica extractivista deste governo.

Mais além disto, a agressão das empresas transnacionais mineiras chinesas em território shuar expõem outra dimensão da luta, desta vez contra o capitalismo selvagem. No mundo capitalista, segundo Bolívar Echeverría, a reprodução da vida social do povo subordina-se à lógica de acumulação de capital. Os seres humanos, como indivíduos e como povos, não conseguem autodeterminar totalmente o seu modo de reprodução social. Em vez disso, vivem de forma alienada, “porque o seu processo natural de reprodução não obedece a um telos próprio, capaz de sintetizá-lo, mas sim a um alheio, coisificado, que é o telos da acumulação capitalista”.  

Em palavras mais simples, a lógica do capital não permite aos povos decidir livremente a sua forma de vida coletiva, mas sim impor-lhes uma vida que serve maioritariamente para que uns poucos acumulem riqueza. Nesta lógica, a natureza e os seres humanos tornam-se coisas, mercadorias que se compram, vendem, consomem e exploram. A luta do povo shuar contra a grande mineração é também uma luta contra essa lógica coisificadora, uma luta para manter aberta a possibilidade de ser pessoas, de poder decidir os termos de convivência sem as coerções do capital, de poder continuar a contruir a sua história ao lado da Sachamama (a selva). A resistência shuar à grande mineração chinesa desafia por tanto o controlo do capital sobre o ser humano, os povos e a natureza. E mostra que os povos, a longo prazo, não só somos vitimas da agressão capitalista e do Estado colonial, senão que, no fundo, apesar dos efeitos da dominação, somos sujeitos que lutam a diário por contruir um caminho que nos permita especificar os nossos próprios projetos de sociedade. É uma aposta pela possibilidade de ser livres.

Este artigo foi publicado previamente em castelhano pela lalineadefuego.

Can there be a green populist project on the Left?

Many on the Left want to return to a politics of class, not populism. They point to Left populist parties not reaching their goals. But Chantal Mouffe argues that as the COVID-19 pandemic has put protection from harm at the top of the agenda, a Left populist strategy is now more relevant than ever.

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Paolo Gerbaudo Sociologist and political theorist, director of the Centre for Digital Culture at King’s College London and author of ‘The Mask and the Flag: Populism and Global Protest’ and ‘The Digital Party: Political Organisation and Online Democracy’, and of the forthcoming ‘The Great Recoil: Politics After Populism and Pandemic’.

Chantal Mouffe Emeritus Professor of Political Theory at the University of Westminster in London. Her most recent books are ‘Agonistics. Thinking the World Politically’, ‘Podemos. In the Name of the People’ and ‘For a Left Populism’.

Spyros A. Sofos Researcher and research coordinator at the Center for Middle Eastern Studies, Lund University and author of ‘Nation and Identity in Contemporary Europe’, ‘Tormented by History’ and ‘Islam in Europe: Public Spaces and Civic Networks'.

Chair: Walid el Houri Researcher, journalist and filmmaker based between Berlin and Beirut. He is partnerships editor at openDemocracy and lead editor of its North Africa, West Asia project.

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