
Michel Temer recebe notificação de posse como presidente interino encaminhada pelo Senado. Marcos Corrêa/Flickr. Creative Commons.
No Brasil de hoje, tudo é o que parece. O ventre da política foi aberto, teve suas entranhas repugnantes expostas, derramando fluidos fétidos e corrosivos na adoecida corrente sanguínea da sociedade. A conspiração é uma prática palpável, não uma teoria. As redes sociais e os meios de comunicação são os principais campos de batalha. O sigilo está perdendo seu valor, e a vantagem política é determinada pela velocidade de ação. Diversas facções adversárias se apressam em impedir as ofensivas alheias, que parecem ultrapassar e estilhaçar a flecha do tempo. O presente se encolhe. O amanhã é agora. O “homem de hoje” de Plutarco já está morto.
A retrospecção é seletiva; racionaliza e sequencia eventos passados, atribuindo a eles uma lógica que raramente manifestam no momento. Mas a mera reflexão sobre a complexidade da política brasileira nos últimos anos refuta qualquer narrativa linear. Cada subtrama labiríntica integra o infinito labirinto da História. Contingência e absurdo são descritores mais precisos do que “ordem e progresso”. Ainda assim, cada intervalo entre as frenéticas acusações trocadas é preenchido com discursos sobre modernização – como justificativa para a agenda do atual governo ou como proposta para sua correção – refletindo o materialismo e o racionalismo que conduziram a construção da república brasileira.