Hannah Arendt foi uma das primeiras autoras a identificar o caráter virulento das narrativas antissemitas. Em Origens do totalitarismo, ela destacou como o antissemitismo foi consolidado em alguns regimes totalitários, principalmente porque sua virulência não foi prontamente identificada pelo público e pelos chamados homens ilustres (os indivíduos responsáveis pela produção de conhecimento). Na época e antes do anúncio da solução final, Hitler se auto intitulou como profeta ao descrever seu plano de trazer a Alemanha de volta à era de ouro. Além disso, ele também tinha uma equipe de pesquisadores responsáveis por legitimar teorias da conspiração antissemitas, como a que judeus transmitem doenças.
Ao longo da história, a disseminação de teorias conspiratórias antissemitas por indivíduos cujo discurso era recebido pelo público como verdade (padres, intelectuais) foi crucial para legitimar essa ideologia extrema. Com o advento das mídias digitais, esse movimento de legitimação do antissemitismo para ter se modernizado. Se, no passado, o lugar de autoridade ocupado por alguns oradores era consagrado por meios de comunicação de massa, hoje o salto de orador comum para orador com autoridade, ficou ainda mais fácil. As redes sociais permitem que qualquer um crie uma conta e apresente mensagens como se fossem uma verdade incontestável, podendo atingir um número considerável de seguidores/espectadores. Vale ressaltar que, em nossa sociedade, esse número considerável de seguidores/espectadores representa poder (na medida em que indivíduos com um grande número de seguidores têm, sem dúvida, maior influência na formação da opinião das pessoas).
Como resultado, atualmente, não contamos mais com dezenas de pessoas legitimando o antissemitismo através da produção de teorias da conspiração tidas como verdadeiras, mas um número incontável de indivíduos envolvidos em tal atividade, aumentando ainda mais a virulência de uma ideologia que prospera em tempos de crise, especialmente crises que levam a um estado permanente de medo. Uma busca no Twitter pelas palavras em inglês Jew (judeu) e coronavirus entre 20 de março e 3 de abril de 2020 revelou a existência de dez tipos diferentes de teorias de conspiração antissemitas que associam a Covid-19 à comunidade judaica.