“Nós éramos felizes quando morávamos às margens do rio Paraná. Nós tínhamos nossas casas, tínhamos nossos animais e nossas hortaliças, que vendíamos no lado brasileiro do rio”, diz Carmen Martínez. Com notável melancolia, a cantora de 84 anos diz que não sabe como começar a falar sobre suas inúmeras lembranças de sua antiga casa no leste do Paraguai, ao lado do Paraná – um dos grandes canais da América do Sul – e das dificuldades que enfrenta desde que sua comunidade indígena, Tekoha Sauce, foi forçada a abandoná-la durante a construção da imensa represa de Itaipu em 1982.
Carmen está sentada em uma cadeira de plástico ao lado de um caminho de terra. De um lado dessa estrada estreita, há um campo aparentemente interminável usado para a agricultura comercial em larga escala. Do outro lado está a reserva natural de Limoy – uma área de 13,3 km2 de floresta densa administrada pela Itaipu Binacional, uma instituição que pertence e é administrada conjuntamente pelos estados paraguaios e brasileiros que também é responsável pela barragem de Itaipu. Esta fina faixa de terra entre as duas paisagens contrastantes é, atualmente, o lar temporário das 43 famílias que compõem Tekoha Sauce.

Ao lado de Carmen está sua neta Amada Martínez, uma líder comunitária. Amada explica que Tekoha Sauce é apenas um dos muitos grupos indígenas – todos pertencentes à nação Ava guarani – que foram despejados à força das suas terras ancestrais no leste do Paraguai durante a construção de Itaipu. Agora, afirma Martínez, os Tekoha Sauce estão engajados em uma luta legal para recuperar a terra perdida, ao mesmo tempo que enfrentam a terrível ameaça de um segundo despejo nas mãos da Itaipu Binacional: desta vez do seu atual assentamento temporário em Limoy.