democraciaAbierta: Opinion

Pare de tentar salvar povos indígenas

Em vez de 'salvá-los', devemos parar de destruir. E esse é um trabalho que temos que fazer para nós mesmos, não para o outro

Mirna Wabi-Sabi
15 Outubro 2021, 12.00
Mural de Eduardo Kobra no Rio de Janeiro
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Donatas Dabravolskas/Alamy Stock Photo

É comum que pessoas ou instituições brasileiras façam gestos gentis a comunidades indígenas e, em seguida, enquadram isso como um grande esforço em defesa de seus direitos. Por exemplo, pagar indígenas para construir uma estrutura tradicional dentro de um museu. Às vezes, até coisas simples como comparecer a uma aldeia e dizer "oi", levar alunos para uma visita ou comprar objetos deles se tornam uma grande declaração política. Não é. É decência básica, como pagar por bens e serviços ou tratar outra pessoa como ser humano.

Em vez de buscar aplauso por ações cotidianas, como tratar as pessoas como pessoas, talvez uma maneira mais eficaz de provocar mudanças seja concentrar nossa energia em outro lugar. Os povos indígenas estão em sua luta e perseveraram durante séculos por seus próprios méritos e esforços, não nossos.

Deixá-los "em paz" não significa fazer nada. Os povos indígenas não precisam ser salvos, mas eles merecem reparações. E uma forma de garantir que isso aconteça é engajar-se, não com indígenas, mas com aqueles que tentam destruir suas populações.

Muitos conservadores no Brasil argumentam que indígenas praticam infanticídio, enterram bebês vivos e outras crueldades inimagináveis e fictícias. De acordo com essas pessoas, as ONGs internacionais, sob o pretexto de preservar essas práticas culturais "retrógradas" e "selvagens", ajudam a demarcar terras indígenas. Essa demarcação, por sua vez, faz com que terras valiosas e ricas em recursos caiam nas mãos de empresários estrangeiros – ao invés de nas mãos de empresários brasileiros ou do Estado brasileiro, onde "por direito" pertence.

Essa retórica não visa apenas acumular o processo de aproveitamento e exploração da floresta, mas também de subjugar as comunidades nativas e suas culturas. O processo de dominação e extração de recursos é essencialmente o mesmo que era durante o colonialismo algumas centenas de anos atrás, mas, desta vez, sob o disfarce de instituições modernas. No Brasil, essas instituições são categorizadas em três setores. Ao contrário da abordagem de dividir as atividades da nação como indústrias de extração de matéria-prima, manufatura e serviços, discutimos seções de poder institucional como 1-Estado, 2-Empresas e 3-ONGs.

Empresas e Corporações (setor empresarial) utilizam o terceiro setor para esquivar de impostos (investimento do primeiro setor). O primeiro setor pode encorajar isso porque quando terceiriza para o terceiro setor, alivia suas ineficiências. Um exemplo disso seriam as doações dedutíveis de impostos para a Planned Parenthood, uma ONG que garante acesso ao aborto, e alivia um aspecto das falhas excrescentes dos sistemas de saúde e educação dos Estados Unidos.

A situação fica ainda mais complicada com estruturas híbridas, que misturam negócios com fins lucrativos com fundações sem fins lucrativos

O segundo setor aprecia essa dinâmica porque se vai pagar imposto, prefere escolher uma causa que direta ou indiretamente resulte em mais lucro para eles. Um exemplo disso seria uma empresa que produz pasta de amendoim obtendo uma redução de impostos ao doar para pesquisas na área de alergia ao amendoim. Enquanto isso, o terceiro setor consegue gerar capital a partir de bens e serviços (sociais) não abertamente lucrativos, sem depender de ciclos eleitorais e burocracias governamentais.

A situação fica ainda mais complicada com estruturas híbridas, que misturam negócios com fins lucrativos com fundações sem fins lucrativos. Humans in the Loop, por exemplo, é uma empresa social com sede na Europa que treina refugiados e pessoas deslocadas em zonas de guerra no Oriente Médio para fazer trabalho remoto anotando imagens em nome de empresas de Inteligência Artificial. É uma agência de recrutamento com fins lucrativos e uma fundação sem fins lucrativos que treina pessoas para entrar no mercado de trabalho. Este modelo foi replicado na América Latina para lidar com a migração em massa da Venezuela para o Brasil, grande parte da qual é de indígenas, por uma organização parceira do Humans in the Loop chamada DignfAI.

Neste cenário "híbrido", o termo "sem fins lucrativos" é usado para exaltar uma empresa com fins lucrativos — a fim de gerar mais lucro. Todo o dinheiro dedutível do imposto colocado na Fundação se traduz diretamente numa força de trabalho bem treinada que gera lucro para empresas ou instituição do segundo setor. Em outras palavras, a Humans in the Loop Foundation é um braço da empresa com fins lucrativos que pode oferecer a seus clientes uma redução de impostos. Enquanto isso, toda a operação é enquadrada como ajuda às comunidades em “perigo” devido ao “conflito armado e deslocamento forçado” em lugares como Síria e Iraque.

A narrativa que esta empresa criou foi que, ao treinar "IDPs" (pessoas internamente deslocadas, ou refugiados que não deixaram seus países), eles estão ajudando a inseri-los no campo de HITL — 'Human in the Loop' Learning. Essa empresa híbrida não só gera lucro para empresas que precisam de trabalhadores qualificados, mas também mitigam os efeitos da guerra. Em outras palavras, é o terceiro setor canalizando recursos humanos para o segundo setor, enquanto fornece uma solução paliativa para sequelas de guerras, que é uma batata quente para o primeiro setor.

Como 'defensores' dos povos indígenas, podemos inconscientemente reproduzir a falácia de que somos nós que precisamos conceder a eles espaço numa chamada estrutura desenvolvida

Os indígenas no Brasil são, de certa forma, deslocados internos pelo simples fato de rejeitarem o princípio de divisão de terra com base na especulação imobiliária ou em fronteiras nacionais. Essa estrutura moderna de três setores sustenta os mesmos princípios coloniais de exploração de pessoas que foram deslocadas pela ocupação forçada de seus territórios. Uma das ferramentas mais poderosas que mantêm essa estrutura é a narrativa de que tudo isso é, na verdade, o Ocidente desenvolvido salvando o Outro subdesenvolvido, ao invés de uma exploração racista da força de trabalho.

Talvez, em vez de tentar salvar outras pessoas da destruição, devêssemos parar de destruir. E esse é um trabalho que temos que fazer para nós mesmos, não para o outro.

Brasileiros conservadores que afirmam que a demarcação de terras indígenas é uma farsa podem ter bons motivos para duvidar do trabalho de ONGs e fundações internacionais. Eles frequentemente se intrometem e lucram com pessoas vulneráveis. Mas quando isso é misturado com um desejo de erradicar (por meio da assimilação) povos com "práticas culturais inferiores", o quadro parece bem diferente. Parece uma manobra para forçar pessoas deslocadas a cumprirem com os valores nacionais de propriedade — o pilar de um sistema econômico de fins lucrativos. A motivação por trás dessas suspeitas confusas do terceiro setor global é vencer na disputa pelo poder e pelo lucro, à custa dos povos indígenas — aniquilando-os ou usando-os como peões.

Essa narrativa de direita vai ainda mais longe ao argumentar que povos indígenas "querem" ser assimilados, mas não podem porque estão reféns de um terceiro setor conivente. Os únicos cenários possíveis parecem ser aqueles em que os povos indígenas não têm iniciativa própria e estão à mercê do que instituições ocidentais "desenvolvidas" decidem.

Como "defensores" dos povos indígenas e de seus direitos, podemos inconscientemente reproduzir essa falácia — a de que somos nós que precisamos conceder a eles espaço numa chamada estrutura desenvolvida de instituições. Achamos que podemos fazer isso validando-os, dando-lhes um aperto de mão e exibindo publicamente nosso apoio. Mas talvez o que devêssemos fazer é impedir que essas instituições ocidentais se intrometam na vida dessas pessoas e em suas terras.

A violência contra indígenas não é um desastre natural e não devemos simplesmente tentar resgatá-los. Ser resgatado da violência não acaba com a violência — apenas mantém certas pessoas temporariamente seguras. Na Europa desde 1945, por exemplo, o antifascismo tem sido eficaz quando tem como alvo o desmantelamento de grupos fascistas e o racismo em que eles prosperam, não por meio de "resgatar" pessoas que são alvos do racismo, debatendo seu valor. No Brasil, ainda não cunhamos um termo para definir os segmentos da população e do governo mais hostis aos povos indígenas. Precisamos erradicar essa hostilidade e mudar nossas formas de trabalhar, mais do que dizer aos indígenas que os validamos.

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