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O plano do G7 para contrapor a China no desenvolvimento de infraestrutura global

O B3W não se refere explicitamente à China, mas cada um dos princípios é inequivocamente uma crítica da Belt and Road Initiative

Luis Filipe de Souza Porto
Luis Filipe de Souza Porto
2 Julho 2021, 12.00
Lok Yiu Cheung/Alamy Stock Photo

“Os instrumentos da ciência econômica não são suficientes para analisar uma economia com as características da chinesa. É preciso entender a cultura que está na cabeça dos operadores” 

PAIVA, Marcos Caramuru de. Lendo a Cabeça do Chinês. [S.L.], 2016. Entrevista concedida ao portal Valor Econômico em 6/5/2016


O comunicado final da Cúpula de Líderes do G7 em Cornwall, Reino Unido, expressa de forma bastante clara as contradições dos tempos atuais, principalmente na politização sobre as origens da Covid-19 e na distribuição da vacina, ao passo que grande parte do mundo ainda luta para combater a pandemia. Não obstante, os líderes reconhecem a urgência da crise climática global, ao mesmo tempo que somam esforços para uma ação mais ambiciosa, simbolizada pela iniciativa “Build Back Better World (B3W)”. Apesar da posição de antagonismo do grupo contra a China, é necessário reconhecer que os desafios globais correntes perpassam a colaboração com o país, que é a segunda maior economia do mundo atualmente.

O plano B3W é apresentado no ponto 67 do comunicado, onde o G7 o descreve como um plano que deve representar “uma mudança radical na abordagem ao financiamento de infraestruturas”. A iniciativa contém cinco princípios-chave: visão orientada por valores, colaboração intensiva, padrões fortes de regulação orientados pelo mercado, financiamento multilateral aprimorado e parcerias estratégicas. O plano não se refere explicitamente à China, mas cada um dos princípios é inequivocamente uma crítica da Belt and Road Initiative (BRI), muitas vezes vista no Ocidente como uma abordagem liderada pelo Estado para o desenvolvimento de infraestrutura que aplica padrões frouxos e serve principalmente aos interesses estratégicos próprios da China.

Até que ponto a contra oferta do G7 é “nova”? Ele pode cumprir a promessa de ser uma “mudança radical” no financiamento de infraestrutura global? E como isso funcionará na realidade, dado o envolvimento de vários países e partes interessadas, públicas e privadas, na abordagem multilateral liderada pelo mercado? Talvez mais importante, como as economias do Sul Global, o suposto mercado-alvo da iniciativa, irão recebê-la?

A B3W não é a primeira resposta dos países do G7 ao papel da China no desenvolvimento de infraestrutura global. Os EUA, Japão e Austrália já formaram uma Parceria de Infraestrutura Trilateral (TIP) em 2018 e têm procurado ativamente os países do Indo-Pacífico para apoio. A B3W supostamente terá uma cobertura geográfica mais ampla. Resta saber como os países do G7 irão reunir seus recursos financeiros, experiência e coordenação de seu envolvimento econômico com os países em desenvolvimento para que a almejada “mudança radical” seja alcançada.

Embora o G7 tenha bem alinhado o objetivo comum de contrapor a China, as empresas privadas dos países integrantes do grupo podem ir na contramão desse objetivo

Uma questão que não está clara é como os países do G7 coordenarão os interesses econômicos entre si, visto que defendem o modelo de Parceria Público-Privada e buscam mobilizar capital privado para investimentos em infraestrutura. Veja os exemplos das Instituições Financeiras de Desenvolvimento (IFDs) envolvidas no TIP, como a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA (DFC), o Banco Japonês para Cooperação Internacional e a Corporação de Finanças e Seguros de Exportação da Austrália. Nenhuma delas configuram como agências de Assistência Oficial ao Desenvolvimento (ODA), assim como exige o Comitê de Assistência ao Desenvolvimento da OCDE para distinguir ajuda ao desenvolvimento dos interesses econômicos.

Todas essas instituições têm um mandato para ajudar suas empresas nacionais a exportar ou estabelecer bases no exterior. Nesse sentido, elas se configuram como as reais contrapartes dos bancos chineses, tais como o Banco de Exportação e Importação e o Banco de Desenvolvimento.

Embora o G7 tenha bem alinhado o objetivo comum de contrapor a China, as empresas privadas dos países integrantes do grupo podem ir na contramão desse objetivo, o que pode ser o principal desafio da iniciativa B3W. Problemas de coordenação também existem na China, mas são mitigados pela relação entre o governo e as empresas, de maioria pública, como de praxe para os atores envolvidos em setores considerados estratégicos pelo país.

Outra questão é sobre a classificação dos projetos a serem financiados pela B3W. De fato, as partes envolvidas buscarão se diferenciar da China enfatizando a sustentabilidade, a equidade e a inclusão. Haverá potencialmente tensão entre esses objetivos e as prioridades dos governos anfitriões. Além disso, o DFC dos EUA "está empenhado em gerar retornos para o contribuinte americano", o que pode ser um obstáculo para a capacidade de financiar projetos que não gerem retornos diretos de curto ou médio prazo para este público.

A competição será menos sobre como as IFDs funcionam e mais sobre a eficácia com que as empresas dos países do G7 e da China podem identificar e executar projetos nos respectivos países anfitriões, o que torna a disponibilidade de apoio financeiro do governo um ativo importante nesta competição, mas não necessariamente o fator determinante.

O propósito muito mais limitado da B3W torna difícil uma comparação útil com a Belt and Road Initiative

A competição entre o G7 e a China também pode significar maior poder de barganha para os países anfitriões, que podem fazer valer seus objetivos e interesses entre ambos os recursos chineses e do G7, em vez de escolher apenas um. Na medida em que reúne não somente os países do G7, sua aderência levanta a questão referente à participação mais abrangente de outros países, como o Brasil, Índia, Austrália, Coréia do Sul e África do Sul.

A iniciativa B3W enfatiza a busca de princípios democráticos fundamentais, a maioria deles de longa data: transparência, boa governança, desenvolvimento sustentável e respeito ao clima. Embora vise mobilizar capital do setor privado para melhorar a infraestrutura em países de baixa e média renda, tem potencial para evoluir e incorporar uma agenda mais ampla. Contudo, atualmente a B3W significa apenas um gesto, pois nenhum compromisso de financiamento específico foi feito, tampouco mecanismo multilateral de coordenação da gestão de projetos foi anunciado. Não há indicação de quais empresas do G7 poderão fazer as contratações internacionais.

Dito de outra forma, os líderes do G7 têm objetivos políticos além do desenvolvimento, que perpassam a geopolítica, influenciando no processo de decisão sobre trabalhar com parceiros chineses ou não. Assim, o que o plano B3W parece não levar em consideração são os motivadores locais de interesse na assistência chinesa pelos países receptores. Alguns líderes não solicitam necessariamente ajuda para beneficiar as instituições de seu país, como também procuram usar essa ajuda para enriquecer e ampliar o alcance de sua influência política.

A BRI parece ter começado como um projeto de melhoria de infraestrutura em toda a Ásia Central até a Europa e ao longo da Rota da Seda Marítima. Hoje, parece mais como uma totalidade na política externa da China que atinge todo o globo. A iniciativa chinesa se transformou para muito além do aprimoramento da infraestrutura focado em uma zona geográfica delimitada. A BRI assumiu características para além da geografia, agora incluindo o Ártico e a América Latina. Neste ponto, o propósito muito mais limitado da B3W torna difícil uma comparação útil com a BRI.

Em suma, abordagens bilaterais e multilaterais em relação ao financiamento de infraestrutura global não são novas. O que a B3W representa é a convergência, harmonização e criação de novas políticas a fim de criar uma alternativa global viável para a BRI e a China. Os membros precisarão negociar políticas, abordagens e princípios comuns sobre o financiamento de infraestrutura para os países de baixa e média renda. Este processo será difícil porque os membros do B3W têm suas próprias instituições nacionais e normas sociais, que irão competir entre si na formação da iniciativa.

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