democraciaAbierta: Opinion

Oportunidades e desafios da cooperação China-América Latina na crise pandêmica

As relações com a China podem aumentar a resiliência e capacidade da América Latina nos diversos setores afetados pela crise.

Luis Filipe de Souza Porto
Luis Filipe de Souza Porto
31 Maio 2021, 12.00
Oleg Elkov/Alamy Stock Photo

A região da América Latina e Caribe (ALC) tem um histórico de desafios estruturais para o desenvolvimento de forma geral. Mais recentemente, essa realidade foi intensificada pelas crises decorrentes da pandemia de Covid-19, com transbordamentos para além da saúde e questões. Nesse contexto, é oportuno ressaltar o potencial das oportunidades de recuperação advindas das relações com a China, principalmente dentro do escopo da Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative, BRI), no sentido de aumentar a resiliência e capacidade da América Latina nos diversos setores afetados pela crise, reforçar cadeias de valor regionais existentes e atrair Investimento Estrangeiro Direto.

Embora a China tenha aprofundado há tempos os laços com muitos países da América Latina, é relativamente recente a participação efetiva da Iniciativa do Cinturão e Rota na região. Muitos países da região assinaram acordos para se beneficiarem da Iniciativa do Cinturão e Rota, à medida que o nível de comércio entre a América Latina e a China continua aumentando. Além disso, nações que não são formalmente participantes da iniciativa – incluindo Argentina, Brasil, Colômbia e México – também foram beneficiárias de investimentos chineses significativos. A Iniciativa do Cinturão e Rota, portanto, não representa uma nova política, mas sim a atualização – ou concentração das atividades em um discurso político único – de iniciativas já existentes da China no que tange ao comércio, investimentos, infraestrutura e outros.

Entre os diversos projetos da Iniciativa do Cinturão e Rota encontra-se a Rota da Seda da Saúde (Health Silk Road, HSR), que apesar de ter chamado a atenção durante a crise de Covid-19, não é nova. Xi Jinping usou o termo pela primeira vez durante uma visita a Genebra, em janeiro de 2017, onde assinou um memorando de entendimento com a Organização Mundial da Saúde (OMS) comprometendo-se com a construção de uma "Rota da Seda da Saúde", que teria como objetivo adotar estratégias para a evolução da saúde pública nos países em torno da Iniciativa do Cinturão e Rota.

Em agosto de 2017, o governo chinês também organizou um seminário em Pequim intitulado “Fórum Belt and Road sobre Cooperação em Saúde: Rumo a uma Rota da Seda da Saúde”, onde o diretor geral da OMS, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus elogiou a proposta “visionária” de Xi para utilizar a rede da Iniciativa do Cinturão e Rota para fortalecer a cooperação no setor da saúde. Tedros terminou seu discurso endossando a recomendação da China de que "os líderes da saúde de 60 países reunidos aqui, e os parceiros da saúde pública, construam uma rota da seda saudável, juntos".

Em 2017, Pequim sediou a primeira “Reunião de alto nível de Belt and Road para cooperação em saúde”. Na ocasião, foi assinado um memorando de entendimento sobre a Rota da Seda da Saúde entre a China, a Organização Mundial da Saúde (OMS), UNAIDS e mais 30 outros países, abordando medidas, como: i) apoio explícito à cooperação entre a Iniciativa do Cinturão e Rota e organizações internacionais, como a OMS e a UNAIDS; ii) defesa dos princípios gerais da Iniciativa do Cinturão e Rota de "ampla consulta, esforços conjuntos, benefícios compartilhados", além do reforço ao "Estado de direito e oportunidades iguais para todos".

A China também quer garantir a estabilidade de seus mercados na América Latina, mantendo o equilíbrio que construiu na região em torno do “Consenso de Pequim”

No contexto regional, além de apoiar os organismos internacionais de saúde, a China promoveu vários fóruns de saúde como plataformas para aumentar sua influência, a saber: i) Fórum de Cooperação Sanitária China-ASEAN; ii) Fórum de Ministros da Saúde da China e dos Países da Europa Central e Oriental (ECO); iii) Fórum de Cooperação em Saúde China-Países Árabes. Esses fóruns contam com a participação de autoridades de saúde da China e dos países participantes para propor e discutir projetos concretos de cooperação.

Rota da Seda da Saúde durante a Covid-19

A China registrou 4,9% de crescimento do produto interno bruto no terceiro trimestre de 2020 em comparação com 2019. Além disso, teve crescimento de 0,7% do PIB nos primeiros três trimestres de 2020. Embora a China tenha enfrentado intenso escrutínio internacional por seu tratamento inicial inadequado da Covid-19, depois de conter a disseminação do coronavírus se configurou como grande exportador de insumos de saúde, exercendo ativamente o que denominaram como “Diplomacia das Máscaras” e “Diplomacia da Vacina”, mantendo capacidade contínua de produzir e exportar suprimentos de saúde para diversos países, especialmente emergentes. Além disso, a China também enviou equipes de especialistas em saúde para diversos países, que puderam compartilhar experiências, lições e sugestões de como o país lidou com a pandemia.

No momento, o país está ativamente envolvido em assuntos internacionais de saúde, atividades que incluem cooperação com organizações internacionais e expansão da cooperação intergovernamental em saúde. A China dobrou seu apoio a organismos internacionais e de saúde da ONU, como a OMS, enquanto o governo Trump adotou posição isolacionista se retirando da organização.

Rota da Seda da Saúde na América Latina

Nos países da América Latina, a China prestou assistência médica para países diversos, como Argentina, Chile e Cuba, Costa Rica e Panamá, promovendo o intercâmbio de conhecimento entre especialistas chineses e latino-americanos. A colaboração com a China permitiu que os países latino-americanos encontrassem um forte aliado nas questões de saúde. Indiretamente, esses países contribuíram para a afirmação da influência chinesa, não só na região, mas também no sistema internacional, considerando que a China busca ativamente desassociar sua imagem internacional das críticas que vem recebendo por sua má gestão do início da pandemia e falta de transparência.

Por outro lado, a China também quer garantir a estabilidade de seus mercados na América Latina, mantendo o equilíbrio que construiu na região em torno do “Consenso de Pequim”, ou seja, incorporando parceiros da periferia para o modelo de desenvolvimento centralizado da China. Mais especificamente, a ideia é criar laços de dependência com a região, como parte do processo que se encontra atualmente para o desenvolvimento industrial, conquista de novos mercados para seus produtos de alto valor agregado e tecnologia de ponta, enquanto os países latino-americanos ainda dependem muito de commodities, com a economia baseada na exportação de produtos do setor primário.

Embora os interesses nacionais devam ser protegidos, não há razão para que a América Latina não possa se beneficiar de trabalhar com a China no âmbito da Rota da Seda da Saúde

Essa relação centro-periferia buscada pela China também ocorre no campo da saúde, com presença significativa de uma rede de empresas do país ativamente envolvida na administração da diplomacia de saúde da China na América Latina. A falta de investimento em infraestrutura no subcontinente, em comparação com outras regiões, leva a uma série de externalidades negativas, como produtividade baixa, desigualdade de renda ou acesso reduzido a serviços de saúde de qualidade. As relações da China com a região, desse modo, geralmente resultam em uma estreita colaboração de alto nível entre instituições médicas e de saúde governamentais, regionais e locais, como no âmbito de um plano de ação conjunto estabelecido em 2018 pela China e a CELAC.

A realidade subdesenvolvida da América Latina também permite que a China se envolva de forma abrangente em diferentes aspectos da Rota da Seda da Saúde na região. Com base nesse ativo chinês, os países mais pobres podem pedir maior assistência na construção de infraestrutura básica de saúde pública e capacitação, bem como intercâmbio e cooperação científica.

A gama de mazelas e desafios para o desenvolvimento dos países da América Latina permite que a China se envolva de forma abrangente na região em diferentes aspectos. Portanto, a América Latina representa para a China oportunidade e necessidade, e reforça o ensejo de promover relações ainda mais fortes com os países da região. No que tange a saúde, a pandemia de Covid-19 destaca a necessidade de infraestrutura de saúde pública para muitos países, especialmente os países em desenvolvimento.

A Rota da Seda da Saúde fornece a estrutura política para a China fortalecer e propor seu sistema de ajuda médica internacional, aumentar sua influência na governança da saúde regional e global, direcionar de forma mais assertiva os recursos e investimentos da Iniciativa do Cinturão e Rota em saúde pública e ampliar o papel do país no fornecimento de insumos médicos. Para a América Latina, a Rota da Seda da Saúde representa uma base de barganha para assistência na construção de infraestrutura básica e cooperação em saúde pública. Ao mesmo tempo, a Rota da Seda da Saúde fornece as bases para que a China possa oferecer ajuda a diferentes países em meio a crise pandêmica, expandindo sua influência.

Embora os interesses nacionais devam ser protegidos com cuidado, não há razão para que os países latino-americanos não possam se beneficiar de trabalhar com a China no âmbito da Rota da Seda da Saúde, assegurando, obviamente, termos de cooperação bem negociados e projetos forem bem administrados.

What happens when asylum seekers are sent back into danger?


Most countries closed their borders over the pandemic, but for asylum seekers, deportation continued all over the world. More and more often, they are returned to the same life-threatening conditions that they fled.

To mark World Refugee Day on 20 June, and the launch of our multimedia project 'Parallel Journeys', join us as we explore returns without reintegration.

Speakers to be announced soon.

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