democraciaAbierta: Opinion

Plebiscito constitucional no Chile: novo fracasso da esquerda?

A rejeição à nova constituição mostra que a saída está em ouvir os povos originários, que propõem soluções diferentes para nossos problemas coletivos

Atawallpa Oviedo Freire
20 Setembro 2022, 12.00
Monumento aos povos nativos na Plaza de las Armas em Santiago do Chile
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Alamy Stock

O que o plebiscito de 4 de setembro mostrou é que os chilenos não votaram a favor da nova ou da velha Constituição, mas contra o presidente Gabriel Boric. A população não rejeitou o texto proposto pela Convenção Constitucional para manter a Constituição de Augusto Pinochet, mas contra o que representa a esquerda hoje no poder. Ao contrario do que diz Gustavo Petro, presidente da Colômbia, Pinochet não “reviveu”. A esquerda de Boric prometeu grandes mudanças, mas demonstra não poder implementá-las.

Até mesmo a maioria dos Mapuche rejeitou a nova constituição, não porque quisessem manter a de Pinochet, mas porque, como outros antes dele, Boric militarizou seu território. Porque a esquerda não os apoia em sua declaração de autonomia do Estado chileno. Porque a nova constituição continuaria a vinculá-los à República do Chile. Porque a constituinte Elisa Loncón não surgiu do consenso dos Mapuche, mas do movimento da esquerda.

Quem também saiu vitorioso foi o medo. No espetáculo da democracia é possível, por meio da publicidade, ligar ou desligar ideias. A democracia não capta a verdadeira essência de um povo, uma vez pode ser facilmente manipulada por propagandas maliciosas.

Assim, a visão do buen vivir (bem viver) propõe formas alternativas, concretas e diretas, como a sociocracia e a comunocracia. Se essa ideologia fosse praticada no Chile, o país teria buscado a participação de diferentes grupos, tentando chegar a um consenso que vem de baixo, e não deixá-lo nas mãos de uns poucos esclarecidos, que resolvem tudo de cima.

O processo constituinte e seu resultado representam um golpe à esquerda, que acredita que as mudanças são produzidas por meio de leis (anteriormente pelas armas) e principalmente por meio do pensamento e da ordem liberais. É necessária uma reflexão para buscar a mudança a partir de baixo, gerando transformações profundas que vão além do Estado, da democracia e dos partidos, forjando caminhos pós-estatais. Caso contrário, permaneceremos no pêndulo eterno: recentemente venceu Boric, depois será alguém de direita. E assim por diante.

A esquerda gera ilusões e esperanças, que geram desencanto ou desilusão quando não são cumpridas. Por que não podem cumprir com o que prometem? O sistema não pode ser revertido com leis, nem através do Estado e do próprio sistema. É preciso trabalhar para que o povo não deposite sua esperança no Estado ou espere que os governos resolvam seus problemas, mas crie as condições e projeções para que o povo o faça por si mesmo em todos os atos e todos os dias. Quem entende isso muito bem é a direita, que atua além do Estado, buscando e gerando formas próprias de benefício aos seus interesses e consolidação de suas aspirações particulares.

A esquerda, com sua visão institucionalista e eurocêntrica, não vai mudar sua estratégia

O mesmo pode acontecer na Colômbia, já que o recém-eleito presidente Petro não busca outra forma de mudança que não dependa de formas convencionais, aquelas já utilizadas repetidamente. Derrotar a direita e o sistema com suas próprias armas é uma imolação. É como acreditar que o pensamento que gerou a crise climática será capaz de resolvê-la. A mudança real tem que vir de fora do sistema oficial. Portanto, para o povo, a esquerda representa um perigo porque gera desilusões e porque dá argumentos à direita para se reposicionar.

O aventureirismo ou o salto no vazio da esquerda custou caro ao povo. Seus experimentos não funcionaram, mas seus representantes continuam a rejeitar outros caminhos e concepções. E a esquerda desmerece soluções alternativas como romantismo e pachamamismo.

Os povos milenares veem que os representantes da esquerda não são seus aliados, mas seus inimigos, ou pelo menos seus adversários, uma vez que não são dirigido por suas ontologias e epistemologias. Assim como a direita, os esquerdistas também veem seus paradigmas como retrógrados, simplistas e obsoletos. Os marxistas (embora não Marx) e os leninistas devem ser desmascarados, porque retardam as mudanças promovidas pelas filosofias dos povos ancestrais.

Há 30 anos, os zapatistas abriram o debate sobre o Estado e o sistema constituído, mas poucos entenderam e aceitaram sua proposta. A esquerda, com sua visão institucionalista e eurocêntrica, não vai mudar sua estratégia, nem seu horizonte. Não querem trabalhar fora do Estado, mas endeusá-lo. A proximidade do ex-presidente boliviano Álvaro García Linera e Boric sugere outro fracasso como o boliviano. Se a ação não for priorizada fora da ordem estabelecida, mais 100 anos se passarão.

A esquerda produz fracasso atrás de fracasso. Mas parece que ninguém aprende desses erros. É hora de ouvir os povos primordiais que propõem novas soluções.

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