
A abertura de novos horizontes sempre foi um objetivo importante dos movimentos sociais. Quando os atores dominantes impõem a ideia de que "não existe alternativa" para a ordem mundial, os movimentos sociais os desafiam, afirmando que "um outro mundo é possível", como diz o slogan do Fórum Social Mundial. Introduzem debates e reflexões diante de uma ordem mundial que é tomada como certa, contribuindo para a capacidade de uma sociedade se transformar, se reinventar mais conscientemente, como diria o sociólogo Alain Touraine.
Esse papel é ainda mais importante em tempos de crise. Crises quebram rotinas e o "business as usual". Mas oferecem oportunidades para a reflexão individual e coletiva sobre nossos valores e objetivos. A pandemia de Covid-19 abalou profundamente nosso cotidiano e muitas das "certezas" do nosso sistema econômico, político e social. Coisas que eram impensáveis há três meses se tornaram realidade, tanto na vida pessoal quanto na sociedade. A pandemia tem abalado os dogmas econômicos que dominam o mundo há décadas. Forçados a implementar o isolamento para limitar a disseminação do vírus, os governos enquadram o "retorno à normalidade" como o propósito da "unidade nacional" que reúne políticos, empresas, trabalhadores e toda a população em uma luta comum contra a Covid-19. Os ativistas insistem, por sua vez, que o que é apresentado como "normalidade" é na verdade parte do problema e não o único caminho a seguir. "Nada poderia ser pior do que um regresso à normalidade", diz a ativista indiana Arundhati Roy.
As principais preocupações e demandas que têm mobilizado ativistas e cidadãos progressistas nos últimos anos tornaram-se ainda mais importantes, visíveis e urgentes durante a crise: menos corrupção e menos poder para a elite, mais democracia, justiça social e dignidade. Muitos intelectuais e ativistas compartilham uma convicção: a pandemia expôs os limites do sistema capitalista corporativo e os danos que causou na última década, particularmente através de políticas de austeridade. Afirmam a necessidade de um modelo que coloque maior ênfase no ser humano, menos desigualdade e melhores sistemas de saúde pública.