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Com a morte de Marielle no Rio, um sonho se despedaça

A trágica morte de Marielle Franco, ativista negra contra a violência no Rio, e vereadora municipal, alimenta os temores de que a atual militarização da segurança no Brasil seja o prelúdio de um possível retorno ao seu passado ditatorial. Spanish English

Marcelo Freixo - #Luciana50 • Debate Partida com Luciana Boiteux • 22/09/2016

Ha cerca de duas semanas, escrevi um artigo para o Open Democracy sobre o carnaval político deste ano no Rio, onde refleti sobre a resistência contra – e a repressão advinda do - governo brasileiro, e sobre as dificuldades que os tempos vindouros trazem.

Infelizmente, tão brevemente depois, estou aqui escrevendo novamente a luz desta tragédia que ocorreu ontem à noite no Rio.

Marielle Franco, a quinta vereadora mais votada nas eleições municipais do Rio de Janeiro (2016) pelo partido esquerdista PSOL, foi morta quando retornava de um evento sobre empoderamento de mulheres negras no qual era palestrante.

“Marielle (38 anos) era negra e lésbica. Suas origens foram de dificuldade financeira; ela foi criada (e atualmente vivia) na Favela da Maré, uma das favelas mais pobres da cidade do Rio.”

Ela estava em seu carro quando nove tiros foram disparados de outro veículo. Marielle e Anderson Gomes (seu motorista) foram mortos no local e sua assessora de imprensa ficou ferida.

Inicialmente, o terrível evento foi transmitido pela mídia principal brasileira sem o devido foco nas implicações altamente políticas do incidente enquanto a imprensa internacional enfatizou imediatamente a dimensão política de um crime tão trágico e politicamente simbólico.

Marielle (38 anos) era negra e lésbica. Suas origens foram de dificuldade financeira; ela foi criada (e atualmente vivia) na Favela da Maré, uma das favelas mais pobres da cidade do Rio. Sua destacada carreira foi marcada pela luta pelos direitos humanos e realidades mais justas para minorias.

A vereadora teve que confrontar sua própria realidade para se tornar uma socióloga, mestre em administração pública. Com uma plataforma desafiadora focada em minorias e inclusão, ela superou as chances quando eleita para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro em 2017.

A luta mais feroz de Marielle foi contra a brutal violência policial imposta às populações de favelas em conflito no Rio. Apenas um dia antes de seu assassinato, referindo-se ao assassinato de um residente da favela, ela tuitou: o homicídio de outro jovem que pode ser creditado na conta do PM (policial). Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantas mortes serão necessárias para acabar com esta guerra?

O apoio crescente a suas causas despertou receio entre as camadas conservadoras da administração do Rio, pois sua plataforma representava uma ameaça para o status quo.

O fato de sua vida haver tido um fim tão violento, por meio de uma suposta execução, não oferece esperança para aqueles que lutam por mudança.

As cidades do Brasil tornaram-se tão cheias de violência criminal, e houveram tantos questionamentos relacionados ao sistema de justiça, que isso inevitavelmente levou a uma complete perda de confiança entre pessoas e respectivas instituições.

“O decreto presidencial que colocou os militares no comando no Rio foi justificado pela necessidade de "securitização", pela necessidade de melhorar a segurança e aumentar a proteção dos cidadãos.”

A intervenção militar do Rio que foi estabelecida há um mês já trazia um cenário preocupante, contudo agora, quando algo desta magnitude acontece, ela se torna altamente alarmante.

O decreto presidencial que colocou os militares no comando no Rio foi justificado pela necessidade de "securitização", pela necessidade de melhorar a segurança e aumentar a proteção dos cidadãos. Espera. Melhoria nas condições de segurança?! Segurança para quem?

Aurea Carolina de Freitas e Silva, vereadora mais votada da cidade de Belo Horizonte também pelo PSOL, mesmo partido de Marielle, que também se identifica como mulher, negra e ativista social, falou comigo à luz dos eventos recentes e por ocasião deste artigo, enfatizando a nota sincera divulgada por seu gabinete e expressando sua profunda dor e preocupação com o que está reservado para políticos e ativistas que lutam por minorias, como ela mesma.

“Nós compartilhávamos o sonho de um país melhor. Hoje, esse sonho se despedaça um pouco, enquanto o corpo de mais uma mulher negra cai.”

Ela descreveu Marielle como: Companheira, defensora incansável dos Direitos Humanos, mulher, negra, lésbica, favelada, inspiração, irmã. Você estará, para sempre, presente! Você será, sempre presente! Aurea Carolina reafirmou o sentimento de desesperança que a morte de Marielle ocasiona: Nós compartilhávamos o sonho de um país melhor. Hoje, esse sonho se despedaça um pouco, enquanto o corpo de mais uma mulher negra cai.

Em todo o Brasil, marchas foram organizadas por movimentos políticos e organizações da sociedade civil e a palavra foi difundida através das redes sociais, com a esperança de reunir o maior número possível de pessoas para protestar contra a crescente violência e militarização no país.

Este trágico acontecimento imediatamente nos remete a períodos obscuros na história do Brasil, quando ativistas e defensores de mudança e dos direitos humanos foram sequestrados, torturados e mortos durante uma ditadura militar altamente opressiva (1964-1985).

Ante a uma eleição presidencial preocupante que ocorrerá no final deste ano, e em meio a tantos processos políticos e julgamentos de corrupção contra grande parcela da classe política, as últimas nomeações do presidente Temer de militares para cargos executivos de segurança, incluindo o primeiro não-civil a ser o chefe da Ministério da Defesa desde o final dos anos 90, provoca grande medo referente a um possível retorno do governo militar.

“As últimas nomeações do presidente Temer de militares para cargos executivos de segurança, provoca grande medo referente a um possível retorno do governo militar.”

Neste momento, vem à minha cabeça a letra do saudoso roqueiro dos anos 80 Cazuza: "Vejo o futuro repetindo o passado ...". Então, se é aqui que estamos e este e o caminho para o qual nos dirigimos, as consequências podem ser verdadeiramente desastrosas.

Hoje, uma linha vermelha foi cruzada em nosso país. É um dia muito triste para os defensores das minorias e dos direitos humanos, e também para todos nós que, há apenas alguns dias, cantamos e marchamos pelas ruas de nossas cidades com esperança em um futuro sem violência, sem abuso.

About the author

Eduarda Fontes is a doctoral researcher at the Department of Politics and International Relations of the University of Westminster.

Eduarda Fontes es investigadora doctoral en el Departamento de Política y Relaciones Internacionales de la Universidad de Westminster. 


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