
People shout slogans during a protest against the fare hike on public transportation in Sao Paulo, Brazil, Tuesday, Jan. 12, 2016. (AP Photo/Nelson Antoine) Não é difícil perceber que o Brasil, perto de consumar um impeachment presidencial, passa por um momento político difícil. Simultaneamente, a relação da sociedade civil brasileira com a democracia e a política institucional também passa por uma fase turbulenta, marcada por tensões e conflitos, mas que abre espaço para valiosas experimentações na busca por saídas para a crise.
Três décadas após a redemocratização do país, a lógica do governo de coalizão baseado na troca de favores entre partidos e políticos que compõem os poderes executivo e legislativo chegou a seu limite. Os compromissos assumidos por atores da classe política com seus pares, e com as empresas que financiam legalmente e ilegalmente suas atividades, atingiram um nível de profundidade e complexidade que torna praticamente impossível governar a favor do povo. Para chegar ao poder e se manter nele, é preciso governar a favor dos interesses da própria classe política e daqueles que nela investem milhões.
Não por coincidência, isso ocorre no mesmo período em que também esbarra em limites a possibilidade de melhorar as condições de vida dos mais pobres sem afetar diretamente os interesses dos mais ricos. Vimos o êxito de importantes, mas limitadas, políticas econômicas e sociais que reduziram pobreza e desigualdade sem mexer muito com as elites – como o Bolsa Família e a universalização do sistema público de saúde. Agora, chegou a vez de medidas como cotas e reformas na injusta estrutura tributária que cobra mais impostos de quem tem menor renda. E daí emergem disputas – e frustrações – mais duras na sociedade e na vida política.