democraciaAbierta: Interview

‘América Latina deveria abraçar uma ação climática ambiciosa’

Fiona Clouder, embaixadora da COP26 para a América Latina e Caribe, discute a próxima cúpula climática e suas implicações à região

Fermín Koop
29 Outubro 2021, 12.00
Queimada no Brasil para abrir pasto
|
Dylan Garcia Travel Images/Alamy Stock Photo

Mais de 25 mil representantes de governo, imprensa e ativistas se reunirão em Glasgow de 31 de outubro a 14 de novembro para a cúpula da ONU, a COP26, com a expectativa de aumentar a ambição sobre as ações climáticas para garantir o cumprimento do Acordo de Paris.

Como país anfitrião, o Reino Unido detém a presidência da COP26 e nomeou embaixadores regionais do clima para promover discussões antes da conferência. Fiona Clouder, ex-embaixadora do Reino Unido no Chile, é a Embaixadora Regional para a América Latina e o Caribe, e viajou pela região ao longo do ano passado para se reunir com atores relevantes no processo.

Em entrevista ao Diálogo Chino, Clouder discutiu os principais objetivos e desafios para a COP26. Embora a América Latina como um todo não esteja entre os maiores poluidores do mundo, a embaixadora disse como a região deveria abraçar uma ação climática ambiciosa, o que poderia trazer inúmeras oportunidades econômicas.

Diálogo Chino: Quais são as principais metas do Reino Unido para a COP26 como país anfitrião?

Fiona Clouder: Foi muito difícil o adiamento da COP [em 2020], mas pudemos refletir sobre as principais prioridades para a cúpula. Temos quatro objetivos principais, começando com a mitigação. O mundo tem que se unir para garantir uma neutralidade de carbono até meados do século. Para isso, precisamos que cada país aja com ambição e urgência.

Depois há o objetivo de adaptação e resiliência, pois queremos direcionar o equilíbrio das finanças para essa área importante. As mudanças climáticas estão atingindo as comunidades mais vulneráveis — muitas delas na América Latina.

As finanças também são muito importantes, e esse é o nosso terceiro objetivo. O mundo industrializado assumiu o compromisso [em 2009] de mobilizar US$ 100 bilhões por ano em financiamento para o clima até 2020. Estamos agora em 2021 e não chegamos a esse patamar. Há um impulso para se alcançar essa meta — para que  os bancos multilaterais de desenvolvimento alinhem seus portfólios, assim como o setor privado.

Finalmente, o último objetivo é em torno da colaboração internacional. Nenhum país pode fazer isto sozinho. Sejam quais forem as perspectivas políticas e econômicas, todos nós precisamos fazer algo e trabalhar em conjunto num espírito de colaboração.

Você menciona a necessidade de mais financiamento para as ações climáticas e a necessidade de redirecioná-lo à adaptação. Vimos alguns progressos na Assembleia Geral da ONU, com o anúncio dos EUA de duplicar o financiamento para o clima. A COP pode preparar o terreno para que se atinja a meta de US$ 100 bilhões em breve?

Esperamos que o COP faça avançar com isto. O anúncio feito por Biden é muito bem-vindo e mostra a liderança de que precisamos também de outros países. Não se trata apenas de países ricos dando para o mundo em desenvolvimento — faz sentido para todos economicamente. No Caribe, desastres naturais como furacões podem tirar uma porcentagem do PIB anual. Quando o dinheiro é disponibilizado para reinvestir no que foi destruído, outro desastre natural acontece e esse país nunca consegue seguir em frente. Isso não é bom para ninguém. Fazer este investimento agora, pelos países que podem fazê-lo, ajuda a dar atenção às mudanças climáticas e à economia.

Você viajou bastante pela região este ano e se reuniu com funcionários do governo. A região tem dado importância suficiente à crise climática?

Eu viajei pela América Central, depois pelo Equador e finalmente pelo Cone Sul. Diferentes governos com diferentes perspectivas. A região está primeiro tentando lidar com a pandemia, tanto da saúde quanto dos impactos sociais e econômicos. O que a região precisa é de esperança. A COP26 ajuda com isso. Temos que ser realistas sobre os desafios das mudanças climáticas, mas também há grandes oportunidades que podem criar novos empregos e crescimento econômico, e elevar o perfil da região. Tomar medidas para enfrentar as mudanças climáticas pode ajudar a todos, seja um pescador ou um empresário desenvolvendo novos produtos.

A América Latina não é um grande poluidor em comparação a outras partes do mundo, mas é uma das regiões mais afetadas pelos impactos das mudanças climáticas. Qual deveria ser seu papel em meio à crise climática?

Esta região contribuiu com uma pequena parte das emissões, mas isso não significa que possa ignorar suas próprias emissões. Cada pequena contribuição é importante. Tudo o que os governos fazem, como a transição para as energias renováveis, ajuda com as metas de emissões. Esta é uma das regiões mais vulneráveis, com governos que dizem não ter criado o problema [climático]. Mas temos de passar dessa afirmação. Trata-se de entender que a América Latina é afetada pelas mudanças climáticas, mas também é um lugar com muitas oportunidades de investimento e perspectivas de crescimento. Elevar o perfil da região, de sua vulnerabilidade e seus preciosos ativos é muito importante.

Houve grande apelo para uma recuperação verde em meio à pandemia, mas a região tem seguido em grande parte um modelo de negócios como o habitual, com investimentos em combustíveis fósseis. Como os governos podem mudar isto?

Muito mais pode ser feito. A pandemia é uma tragédia, é um momento em que todos nós sofremos. Mas as mudanças climáticas são uma questão permanente, não apenas um momento no tempo como a pandemia. Vão dominar nossas vidas no futuro. Concentrar-se agora nas ações que podem ser tomadas para ajudar a resolver esse problema pode proporcionar um enorme impulso econômico. Não é apenas uma política para este ano. Há uma compreensão na América Latina sobre os problemas trazidos pelas mudanças climáticas. Isso agora tem que ser transformado em ação. Não é fácil, a América Latina precisa de financiamento e também de habilidades e capacitação.

As economias da América Latina dependem fortemente do capital natural da região, que se encontra altamente ameaçado. Como a região pode cuidar melhor de sua biodiversidade e, ao mesmo tempo, alcançar uma recuperação verde?

Temos trabalhado na região no Diálogo FACT, que se traduz em silvicultura, agricultura e comércio de commodities. Isto é parte da campanha da COP, mas também esperamos que isso leve a um trabalho a longo prazo. Não se trata de uma política definida, mas de troca de ideias e informações. Muitas florestas da região foram convertidas para a agricultura, o que é extremamente importante para o ciclo econômico de muitos países. Temos discutido isso em termos de rastreabilidade e medidas políticas maiores. Começamos uma conversa que esperamos continuar. Isso ajuda a elevar o perfil da região para a construção de novas parcerias e iniciativas.

A América Latina tem um grande potencial em relação às energias renováveis, mas os combustíveis fósseis ainda são muito relevantes para muitos países. Como a transição energética pode ser ampliada?

É do interesse dos países reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis e usar mais energias renováveis. Há um grande debate político. Por exemplo, quando estive na Argentina, perguntei por que não havia mais carros elétricos nas estradas e me explicaram que isso se deve a barreiras tributárias. Talvez haja maneiras de permitir o crescimento desse setor.

O mundo ainda está longe de cumprir as metas do Acordo de Paris, com compromissos climáticos não suficientemente ambiciosos, inclusive na América Latina. A COP26 pode dar impulso para compromissos mais ambiciosos?

Esperamos que sim. Estamos pressionando todos os países a reverem suas Contribuição Nacionalmente Determinada (CNDs) com mais ambição e a COP26 vai se basear nisso. Não basta apenas publicar a CND, também é preciso desenvolver a estratégia de longo prazo e convertê-la em ação no mundo real. O recente evento de alto nível dos líderes da Argentina foi uma iniciativa importante e útil.


Esta entrevista foi originalmente publicada pelo Diálogo Chino. Leia o original aqui.

Assine nossa newsletter Acesse análises de qualidade sobre democracia, direitos humanos e inovação política na América Latina através do nosso boletim semanal Inscreva-me na newsletter

Comentários

Aceitamos comentários, por favor consulte ás orientações para comentários de openDemocracy
Audio available Bookmark Check Language Close Comments Download Facebook Link Email Newsletter Newsletter Play Print Share Twitter Youtube Search Instagram WhatsApp yourData