democraciaAbierta: Opinion

Bolsonaro, Lula e as guerras virtuais no Brasil

Ainda que a reeleição do presidente seja menos provável no atual momento, não é um cenário que deva ser descartado

Camila Rocha
23 Setembro 2022, 12.00
A aposta do PT em jogar parado durante a campanha tem riscos
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Há dez anos a popularização da internet e das redes sociais no Brasil alterou radicalmente a circulação de ideias na esfera pública. Em pouco tempo, jornalistas, intelectuais e celebridades tradicionais passaram a dividir espaço com mídias alternativas, youtubers e influencers. 

Na disputa pela atenção de um público crescentemente desconfiado da mídia mainstream e saturado por um tsunami de informações, conteúdos diferenciados passaram a ganhar a competição por visualizações e cliques. E a vantagem nessa corrida ficou com quem disparou primeiro: influenciadores direitistas que mobilizam recorrentemente a política do choque.

A política do choque é uma estratégia utilizada por grupos marginalizados no debate público para chamar atenção. Tal estratégia pode ser utilizada à esquerda e à direita. Um exemplo à esquerda foi quando participantes das Marchas das Vadias, dentro e fora do Brasil, procuravam chamar atenção para suas demandas ao exporem seus seios em público. À direita, se tornou comum o uso de uma retórica agressiva, permeada de palavrões e humor ácido, o ‘politicamente incorreto’.

O recurso a tal estratégia se justificaria diante da impossibilidade de obter atenção de outro modo. Afinal, as pautas e demandas de quem usa a política do choque seriam menosprezadas, e até mesmo ridicularizadas, pela mídia e pela política tradicionais. Mas como discursos de direita podem ser considerados marginais em um país conservador como o Brasil?

Ao longo do tempo, o frágil avanço institucional e o debate público de mulheres, negros, LGBTQIA+, bem como a permanência do Partido dos Trabalhadores no poder após acusações de corrupção, desencadearam novos conflitos. Vários grupos passaram a reagir ao perder poder ou sentiram-se marginalizados no debate público, aumentando a demanda por influenciadores e políticos que ecoassem suas visões de mundo, como Jair Bolsonaro, deputado extremista que se tornaria a principal liderança de direita no país. 

A figura de Bolsonaro se popularizou na internet principalmente por conta de páginas e perfis relacionadas ao político no Facebook como “Bolsonaro Zuero” e “Bolsonaro Opressor 2.0”. Permeadas por sátiras ácidas, palavrões e críticas agressivas a adversários políticos e minorias em formato de memes, as páginas também circulavam imagens de Bolsonaro em atividades cotidianas bem como suas falas mais polêmicas, com um tratamento irônico.

Em 2017, um ano antes das eleições presidenciais, Bolsonaro já liderava em números de seguidores e reações no Facebook

Inclusive, o apelido de “mito”, que passou a ser utilizado entre apoiadores de Bolsonaro, é atribuído aos vídeos veiculados na página "Bolsonaro Zuero”, nos quais óculos escuros pousavam no rosto de Bolsonaro quando falava algo polêmico e chocante. Em pouco tempo, os rapazes responsáveis pelos conteúdos passaram a fazer parte da equipe de comunicação do então deputado, que em 2015 lançou sua candidatura à Presidência da República.

Em 2017, um ano antes das eleições presidenciais, Bolsonaro já liderava em números de seguidores e reações no Facebook, quantidade de interações no Twitter, e total de curtidas no Instagram. Para efeito de comparação, na época, Bolsonaro contabilizava 4,7 milhões de seguidores e 3,2 milhões de reações no Facebook, enquanto o segundo colocado, Lula, ex-presidente do Partido dos Trabalhadores que deixou o governo com mais de 80% de aprovação popular, contabilizava 3 milhões de seguidores e 1 milhão.

Em grande medida, isso ocorre porque criadores de conteúdo e influenciadores pró-Bolsonaro se apresentam como marginais e anti-establishment. Em sua visão, o establishment teria passado a ser permeado pelo que consideram ser uma ‘hegemonia esquerdista’ que representaria ameaças iminentes a suas visões de mundo e modos de vida. Daí o aumento da circulação de conteúdos com aparência jornalística, chamadas sensacionalistas e linguagem simples que apontem a necessidade de que é preciso procurar informações fora da imprensa tradicional ‘esquerdista’. Dessa forma, ao mesmo tempo que a demanda por tais conteúdos é renovada permanentemente, crescem as possibilidades de ganhos financeiros para criadores de conteúdo digital por meio de anúncios, envio de dinheiro durante a transmissão de lives e venda de objetos.

Tal dinâmica de produção e consumo de conteúdo teve continuidade após Bolsonaro ter sido alçado à Presidência do país. A diferença é que, agora, ações coordenadas em maior ou menor grau entre membros do governo e influenciadores possibilitaram a construção de narrativas homogêneas sobre diversas pautas, inclusive no que diz respeito a ataques explícitos a instituições democráticas. No entanto, apenas bolsonaristas menos poderosos foram punidos por tais ataques. Isso ocorreu por terem cruzado a tênue fronteira que divide a aceitação da política do choque como parte do exercício democrático de ataques diretos ao estado de direito.

Casos exemplares nesse sentido foram os de Roberto Alvim, ex-secretário da Cultura, do deputado bolsonarista Daniel Silveira e de diversos influenciadores bolsonaristas investigados no inquérito das fake news. Alvim foi exonerado ao fazer um discurso com referências nazistas. Já Silveira foi condenado à prisão ao divulgar um vídeo no YouTube em que xingava a Supremo Tribunal Federal, ameaçava os juízes com violência e elogiava medidas da ditadura militar. Os influenciadores bolsonaristas investigados no inquérito das fake news, por sua vez, foram obrigados a apagar vídeos em seus canais de YouTube.

De acordo com levantamento da Novelo Data, desde janeiro de 2022, mais de 10 mil vídeos foram removidos dos 450 maiores canais pró-Bolsonaro temendo prejuízos judiciais ou econômicos. Em alguns casos, os valores angariados ultrapassavam centenas de milhares de reais. Entre janeiro de 2019 e agosto de 2021, onze canais de YouTube pró-Bolsonaro que divulgavam informações falsas sobre urnas eletrônicas arrecadaram mais de dez milhões de reais. Os canais que mais lucraram antes de serem bloqueados judicialmente foram o Folha Política, com 2,5 milhões de reais, e o youtuber Allan dos Santos, com 1,7 milhões de reais.

Contudo, o impacto disso na circulação de ideias antidemocráticas ou informações falsas, ou mesmo no número de influenciadores e produtores de conteúdo que os circulam de forma implícita ou explícita é questionável.

Em primeiro lugar, a verificação dos conteúdos, seja judicial ou realizada pelas próprias plataformas, é demorada pois ainda dependem de interpretação humana e análise de contexto. Ou seja, até um conteúdo ser apagado, este já foi compartilhado milhares de vezes. E os próprios influenciadores, ao saberem das regras, já modulam seus discursos ou apagam suas produções originais sabendo que, ao atingir milhares de pessoas ao mesmo tempo, tais conteúdos também podem ser salvos e/ou replicados de diferentes formas posteriormente.

Grupos subterrâneos fechados se alinham a influenciadores em plataformas abertas ou mesmo na mídia tradicional

Em primeiro lugar, a verificação dos conteúdos, seja judicial ou realizada pelas próprias plataformas, é demorada pois ainda dependem de interpretação humana e análise de contexto. Ou seja, até um conteúdo ser apagado, este já foi compartilhado milhares de vezes. E os próprios influenciadores, ao saberem das regras, já modulam seus discursos ou apagam suas produções originais sabendo que, ao atingir milhares de pessoas ao mesmo tempo, tais conteúdos também podem ser salvos e/ou replicados de diferentes formas posteriormente.

Em segundo lugar, existe um alinhamento entre diferentes espaços de circulação de conteúdos. Como aponta a antropóloga Letícia Cesarino, no Brasil ocorre uma dinâmica que também pode ser encontrada em países como a Alemanha, em que grupos subterrâneos fechados se alinham a influenciadores em plataformas abertas ou mesmo na mídia tradicional. Isso possibilita a criação de uma rede que amplifica a distribuição de conteúdos que estão baseados nas mesmas fontes e referências. Ou seja, médicos negacionistas que condenam o uso de vacinas contra Covid-19 e são citados em grupos fechados também podem ser entrevistados por jornalistas ou mídias tradicionais alinhadas ao governo, ou ainda figurarem em produções profissionais cujos conteúdos são acessados mediante assinaturas.

Em terceiro lugar, a criação de uma narrativa bolsonarista homogênea facilita a circulação de determinadas ideias de forma implícita entre influenciadores ligados a nichos específicos. Cristãos conservadores, grupos antifeministas, setores ligados ao Exército e às polícias, trabalhadores e empresários do agrobusiness, artistas sertanejos, gamers, defensores de criptomoedas e profissionais de classe média e alta ligados ao mercado financeiro são exemplares nesse sentido.

Teorias da conspiração e conteúdos que provocam emoções como raiva e medo são incentivados por algoritmos

Por fim, a própria dinâmica de compartilhamento de conteúdos nas plataformas incentiva a produção de determinados conteúdos em formatos específicos. Afinal, teorias da conspiração e conteúdos que provocam emoções como raiva e medo são incentivados por seus algoritmos, o que faz com que o público de tais influenciadores seja mais amplo do que a parcelas da população brasileira que de fato apoiam Jair Bolsonaro.

Apesar da vantagem que o bolsonarismo tira das redes sociais, desde o início do ano muitos já deram por certa a vitória folgada de Lula na disputa presidencial. O diagnóstico vinha da certeza de que o candidato petista manteria sua ampla vantagem sobre Jair Bolsonaro e de uma terceira via tida como natimorta.

Para além do uso rotineiro de pesquisas para criação de fatos políticos, esse tipo de análise tende a desconsiderar que a maioria da população simplesmente não está pensando em política meses antes das eleições.

Por conta disso, parte do que é lido como intenção de voto é, na verdade, resultado de recall. Ou seja, simplesmente indica a marca mais lembrada. Além disso, até o dia do pleito, as pessoas podem sempre mudar de opinião, ou passar a ter uma, a depender da oferta de candidaturas, de fatores sociais e econômicos conjunturais e da própria dinâmica das campanhas.

No que diz respeito à oferta das candidaturas, ainda que, como bem qualificou o ministro-candidato Tarcísio de Freitas, a disputa entre Lula e Bolsonaro remeta a um duelo de titãs, a maioria dos eleitores, inicialmente, queria fugir do embate. 

Cansados das brigas em família e das mitadas e lacradas em redes sociais, os chamados “nem-nem”, que somavam cerca de 40% nos primeiros meses do ano, esperavam ansiosamente por um terceiro nome que pudesse desviar seu voto de opções tidas como indigestas, mostram dados da pesquisa Exame/Ideia.

Como bem resumiu um entrevistado, era difícil optar pelo “ladrão” ou pelo “idiota”.

O fracasso da terceira via, muito provavelmente, é mais demérito de seus articuladores do que mérito da força política de Lula ou Bolsonaro. Mas o fato é que a ausência de uma alternativa palatável para os “nem-nem” certamente favoreceu o atual presidente.

Michelle Bolsonaro simboliza um empoderamento feminino conservador que contrasta com a percepção de falta de protagonismo de mulheres no campo da oposição

No que diz respeito às questões sociais, um dos grandes obstáculos de Bolsonaro, sua conduta desumana frente à pandemia, vem perdendo força no imaginário do eleitorado com o arrefecimento da crise sanitária, e sua campanha vem fazendo o trabalho de casa para humanizar o candidato. 

Exemplar nesse sentido é a atuação da primeira-dama, que pode vir a aumentar a intenção de voto no marido entre eleitoras, maioria entre os “nem-nem”. Ao aludir à referências bíblicas e valorizar a mulher como cuidadora da família, Michelle Bolsonaro simboliza um empoderamento feminino conservador que contrasta com a percepção de falta de protagonismo de mulheres no campo da oposição, como bem apontaram Ana Carolina Evangelista, Jacqueline Teixeira e Livia Reis.

De acordo com as pesquisadoras, deixar de valorizar a dimensão familiar é um erro, que afeta não apenas o voto feminino evangélico, em especial, mas as mulheres como um todo e mesmo o eleitorado em geral. Afinal, como salientou a professora e socióloga Esther Solano em um evento acadêmico na Unicamp, promessas econômicas não respondem questões existenciais.

Nesse sentido, como argumenta Ana Carolina Evangelista, a aposta bolsonarista no simbolismo do capitão reformado, como um enviado de Deus que sobreviveu a uma tentativa de homicídio, se mostra certeira. Seguindo tal linha de raciocínio, Solano aponta que, enquanto o atual presidente conta com a militância pentecostal orgânica e com o apoio de pastores que reúnem cerca de 50 milhões de seguidores, que logo serão mobilizados em grandes cultos com a presença do candidato à reeleição, a campanha do PT prescinde de representatividade nesse sentido – “onde estão os evangélicos e pastores ao lado de Lula?” – e de um discurso sobre a importância da união da família brasileira.

Além disso, a socióloga ressalta como Janja, esposa de Lula, vem contribuindo para, inadvertidamente, fortalecer a narrativa bolsonarista. Nos últimos anos, os ataques a praticantes e locais de culto de religiões de matriz africana cresceram a olhos vistos por conta de sua associação a “coisas do demônio”, sobretudo entre cristãos pentecostais, fomentando a intolerância religiosa.

Assim, ao postar em suas redes sociais conteúdos ligados a religiões de matriz africana, lidas como “diabólicas”, Janja acaba servindo como contraponto ideal à disputa entre bem e mal promovida pela campanha de Jair e Michelle, que conecta a degeneração espiritual da nação à presença do PT no poder e à possibilidade de limpeza espiritual com a reeleição do presidente. Lembrando que a cura espiritual prescinde da materialidade de promessas econômicas.

Ao mesmo tempo, a economia não ficou em segundo plano na campanha de Bolsonaro. 

Após a monstruosa injeção de recursos realizada pelo governo, espera-se que a sensação de bem-estar acometa os mais pobres e se generalize para outros segmentos da população em poucas semanas. É sempre bom lembrar que, para eleitores que estão em dúvida entre economia e valores, a sensação de alívio financeiro pode ser decisiva.

Finalmente, no que diz respeito às dinâmicas de mobilização e comunicação relacionadas à campanha em si, para além de apostar no contágio da mobilização de massas do Sete de Setembro, Bolsonaro, que vinha se esquivando de convites para debates, também decidiu enfrentar o Jornal Nacional.

Na entrevista, o media training funcionou para evitar algum potencial escorregão. Mas Bolsonaro se saiu melhor nos momentos em que foi mais agressivo, ou, como dizem seus apoiadores, foi “ele mesmo”. Como por exemplo ao dizer que governar sem o Centrão seria atuar como um ditador. Seu público cativo saiu satisfeito. Bolsonaro teria “jantado a Globo”.

Porém, as intervenções de Bolsonaro em favor de seu governo, se não o prejudicaram, também não foram de grande ajuda para eleitores indecisos. Hoje, o que Bolsonaro anuncia como feitos não tem, por enquanto, o mesmo impacto das políticas feitas por Lula.

Segundo eleitores de Bolsonaro, seu plano econômico não foi aplicado por conta da pandemia

Ao mesmo tempo, as pessoas querem “propostas concretas” para os próximos quatros anos, e, nesse sentido, há uma grande diferença entre Lula e Bolsonaro. 

Praticamente qualquer pessoa é capaz de resumir o programa do último: defesa da família tradicional, “armas para todos” e “Brasil sem comunismo”. Lembrando que comunismo, no imaginário popular, remete à catástrofe humanitária venezuelana, ou, simplesmente, ao binômio “ditadura + fome”.

Tudo isso embalado no programa econômico que, segundo eleitores de Bolsonaro, não foi aplicado em sua total potência nos últimos anos por conta da pandemia. Motivo pelo qual Bolsonaro mereceria uma segunda chance, argumento bastante palatável para indecisos e por quem pode vir a mudar de opinião. 

Ainda que tais propostas possam soar pouco concretas para especialistas em políticas públicas, o fato é que são suficientes para os milhares de apoiadores engajados e dispostos a ir às ruas pelo mito.

Enquanto isso, boa parte dos eleitores de Lula faz uma opção resignada e nada empolgada pelo petista. E a antipatia a Bolsonaro explica, para um grupo expressivo de eleitores, a opção, por vezes vacilante, em um candidato percebido como corrupto. O que demonstra que o lulismo, ao menos fora do Nordeste, continua fraco.

Em resumo, a aposta do PT em jogar parado durante a campanha tem riscos, e não são desprezíveis.

Para além do Sete de Setembro, da aposta em Deus frente à demonização da oposição, no aquecimento na economia, e de entoar à exaustão o mantra da corrupção associada ao PT, ainda há tempo para uma mudança de estratégia de imagem do candidato à reeleição. 

Segundo pesquisas qualitativas recentes, uma versão “paz e amor” à direita, como argumentam os marqueteiros tradicionais do presidente, certamente aceleraria a reconquista de eleitores decepcionados. Sobretudo quem recebe acima de dois salários mínimos, mora no Sudeste e não se sente exatamente contemplado pelo o que o PT tem a oferecer. Michelle Bolsonaro já vem fazendo sua parte nesse sentido e mostrou que a estratégia dá resultados.

Ainda que a vitória de Bolsonaro seja menos provável no atual momento, não é um cenário que deva ser descartado. Do contrário, corre-se o risco de repetir FHC em 1985, que resolveu sentar na cadeira de prefeito antes da contagem dos votos. Mas, dessa vez, há muito mais em jogo.


Este artigo foi originalmente publicado por Nueva Sociedad, com base em dois textos prévios da autora. O primeiro foi publicado pela Fundação Heinrich Böll e o segundo pela revista piauí.

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