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Butantan, 'Bum Bum Tam Tam' e a vez que o funk salvou o Brasil

Em quatro versos, MC Fioti dialoga melhor com os brasileiros do que seu governo em um ano de luta contra o coronavírus

Marilia Heloisa Fraga Arantes
Marilia Arantes
10 Feb 2021 - 2:48pm
Nesta foto, uma seringa médica é vista com o logotipo do Instituto Butantan em uma tela ao fundo. A Sinovac e o Instituto Butantan estão testando a vacina no Brasil
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Rafael Henrique/SOPA Images/SIPA USA/PA Images

Por quase três décadas o funk sofre no Brasil perseguição de grupos conservadores e da mídia reacionária. Apesar disso, o funk agora se posiciona em defesa da população brasileira, em uma tentativa de resgatar o país de seu atual caos político-sanitário.

O Instituto Butantan, em São Paulo, é o órgão responsável pela pesquisa e manufatura de insumos para o sistema de saúde público brasileiro e é o maior produtor de imunobiológicos e biofarmacêuticos da América Latina. Uma palavra de origem Tupi-Guarani, Butantan significa solo amassado. Em pronúncia e em escrita, essa palavra se assemelha a “Bum Bum Tam Tam”, o título de um funk lançado em 2017 pelo MC Fioti.

Em meio ao caos político-sanitário da pandemia no Brasil, a vacina contra a Covid-19 produzida pelo Instituto Butantan, em parceria com a gigante farmacêutica chinesa Sinovac, sofre ataques de grupos que questionam sua eficácia, alguns partindo do próprio presidente Jair Bolsonaro. Em defesa do Instituto Butantan e movido pela enxurrada de memes associando o título de sua música à palavra Tupi-Guarani, MC Fioti lançou, em 21 de janeiro, o remake de “Bum Bum Tam Tam”.

Esse funk agora é aclamado como o hino da vacina brasileira: gravado no Instituto Butantan, mostra funcionários da instituição dançando ao som de “Bum Bum Tam Tam”. Dentro de um laboratório, MC Fioti canta:

“É a vacina envolvente que mexe com a mente

De quem tá presente

A vacina é saliente

Vai curar nóis do virus e salvar muita gente”.

Em apenas quatro versos, “Bum Bum Tam Tam” se comunica melhor com a população brasileira do que seu próprio governo em quase um ano de luta contra o coronavírus.

Em luto pela perda de mais de 230 mil vidas, o Brasil não combate apenas ao vírus, mas à desinformação. No momento, o tratamento oficial prescrito pelo Ministério da Saúde, nomeadamente “tratamento precoce”, já foi comprovado como cientificamente ineficiente, enquanto Bolsonaro contesta publicamente a eficácia da vacina, chegando a insinuar que esta transformaria os vacinados em jacaré.

Com 8 milhões de visualizações em sete dias, a versão vacina de “Bum Bum Tam Tam” dissemina informação correta e contradiz fake news: a vacina do Instituto Butantan é segura, e deveria ser priorizada em relação a soluções sem respaldo científico.

Por quase três décadas, o funk no Brasil incomoda a classe média e elites reacionárias, por seu “barulho” e “conteúdo imoral”. Mas principalmente, o funk incomoda por sua capacidade de comunicar-se com a ampla parcela pobre da população brasileira. Hoje, grupos reacionários que previamente tentaram criminalizar o funk – mas que se opõe ao tratamento do governo brasileiro à pandemia – deveriam reconhecer como esse ritmo pode estar na linha de frente ao combate da epidemia de desinformação.

O funk incomoda as elites brasileiras por sua capacidade de ocupar de forma barulhenta espaços excludentes, mas sobretudo por sua capacidade de pôr contradições sociais em evidência. Em 1995, os MCs Cidinho e Doca cravaram a função social do funk ao tomar as rádios brasileiras com a letra:

“Eu só quero é ser feliz

Andar tranquilamente

Na favela onde eu nasci

E poder me orgulhar

E ter a consciência

Que o pobre tem seu lugar”.

O funk escancara problemas estruturais da sociedade brasileira como o machismo, questões de raça, classe, e a violência do Estado nas favelas brasileiras. O funk reflete sobre as necessidades e desejos da população brasileira marginalizada e sobre as experiências cotidianas da vida na periferia.

Ao invés de tentar criminalizar o funk, devemos reconhecer, repensar e defender sua função social

Como um ritmo heterogêneo, diferentes estilos de funk prevaleceram ao longo dos últimos anos, orientando o contexto social brasileiro. Por exemplo em sua versão ostentação, MC’s usando jóias, roupas de grife e carros de luxo expõe e dialoga com os desejos da população brasileira de baixa renda, jovens de uma sociedade que exacerba o consumo. Esse estilo prevaleceu após os governos de Lula e o boom das commodities, momento de aumento no poder de consumo das classes baixas no Brasil.

Alternativamente, no funk gospel o ritmo é pano de fundo para letras religiosas. Um estilo em ascensão, o funk gospel dialoga com a grande parcela evangélica da população brasileira vivendo nas periferias brasileiras.

Em 2021, o funk consciente nunca foi tão necessário, como muito bem elaborado em “Bum Bum Tam Tam”. Na mesma direção, outros exemplos de funk consciente são 'Nunca foi Sorte’, e ‘Diga Não às Drogas’ que retratam lutas como o vício, racismo e a violência policial.

A grande mídia, o preconceito cultural e o racismo estrutural da sociedade brasileira são amplamente responsáveis pelas tentativas de ‘criminalizar’ o funk. O poder legislativo brasileiro tem sucessivamente tentado censurar ou proibir esse ritmo. Por exemplo em 2017, ao considerar o funk uma “falsa manifestação cultural” e um “problema de saúde pública”, e em 2019 ao tentar restringir letras que contivessem ódio ao Estado e à política.

Certamente, não podemos abraçar uma postura meramente acrítica ao funk. Muitas letras contém uma linguagem violenta sobre mulheres, objetificando corpos femininos e em casos extremos trazendo apologias ao estupro. Igualmente, durante a pandemia foram registrados diversos episódios de Bailes Funk lotados, apesar das medidas de distanciamento social.

Mas junto com o criticismo, devemos reconhecer o poder do funk de disseminar uma mensagem fácil e coerente no combate ao coronavírus. Ao invés de tentar criminalizar o funk, devemos reconhecer, repensar e defender sua função social.

Hoje, o Brasil está em luto pelo caos público causado pela Covid-19, mas piorado por decisões do governo, negligência e desinformação. Não é necessário ainda relembrar que a população pobre e periférica foi a mais afetada pela crise. Nesse contexto, “Bum Bum Tam Tam” sai na frente para elucidar um urgente problema social de desinformação acerca da vacina contra a Covid-19. Em 2021, quando a verdade se tornou um bem escasso, o funk talvez possa salvar o Brasil.

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