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Caren Tepp


Avina democracia Abierta
17 October 2017

Inspirando-se no evento "Cidades sem medo" ("Fearless Cities") deste ano, a Fundación Avina e o Democracia Abierta estabeleceram uma colaboração especial para explorar algumas das experiências políticas mais interessantes que estão emergendo na América Latina.

Concersar com líderes relevantes neste campo, diretamente envolvidos na ação da inovação política a nível local, nos deu a oportunidade de buscar respostas para quatro questões principais que afetam de forma diferente, porém transversal, todos esses projetos: a) Visão de inovação; b) contexto político nacional e limitações do poder local; c) Influência do contexto político internacional e d) A questão da liderança.

Nesta página, Caren Tepp aborda essas questões. Caren é uma cientista política argentina, candidata a deputada nacional da @CiudadFuturaOK e vice-presidente da Câmara Municipal de Rosario.

TEMA 1: VISÃO DA INOVAÇÃO

Nós usamos há alguns anos uma frase de Simon Rodriguez que diz: "Ou inventamos ou erramos". Nós, militantes, tentamos muitas vezes adaptar a realidade à nossa teoria e não fazer o contrário, isto é, construir a teoria da prática e entender e incorporar o que o próprio território estava alocando. Por isso, acredito que, dentro de Ciudad Futura, a característica mais distintiva é essa nova concepção sobre o Estado e a sociedade e, sobretudo, o futuro e o presente.

Como construímos hoje a sociedade que desejamos para amanhã? Como fazemos para não só permanecer simplesmente denunciando ou desafiando o que está ruim, mas como podemos dar mostrar aos cidadãos – pedacinhos da Cidade do Futuro como dizemos – que sociedade é essa que nós queremos desenvolver e isso é possível de ser realizado?

Os vários partidos de esquerda são muito bons em denunciar o sistema capitalista, o neoliberalismo ou o imperialismo a nível internacional. Agora, se não pudermos oferecer uma visão do futuro e traçar um caminho para esse futuro, ninguém acreditará em nós. Ninguém vai ficar entusiasmado com a nossa proposta. E por isso, nós desenvolvemos o que chamamos de Projetos Prefigurativos, projetos que existem aqui e agora, nos territórios, principalmente começamos na periferia da cidade de Rosario. São projetos que não só dizem: "Bom, a educação e o trabalho são importantes", mas eles provam isso.

Temos, por exemplo, duas escolas de gestão social que permitem que jovens e adultos nos bairros de Rosario completem seu ensino secundário. São jovens da periferia que, talvez, não tenham a possibilidade de um futuro; que talvez haviam passado por escolas públicas ou privadas, mas que, de alguma forma, acabaram abandonando, acabaram deixando, porque essas escolas não as continham. E hoje eles têm uma chance. Durante sete anos, esses jovens não só conseguiram terminar seus estudos, mas também construir um espaço de identidade coletiva e criar um projeto para o futuro.

Hoje aqui na Argentina esse modelo é como uma resposta em termos de reformas do sistema educacional. Quando começamos a estudar quais foram as chaves dessas reformas do sistema, percebemos que era igual ao da cidade de Rosario. Que a chave porquê as crianças completam a educação em nossas escolas tem a ver com a maneira como o conteúdo é abordado: através de fenômenos sociais, fenômenos políticos e não apenas através de ensino de matérias como se fazia antes, mas através da construção horizontal da educação.

Quando esses alunos entram na escola de gestão social, o poder, de alguma forma, é distribuído horizontalmente. Existe uma apropriação coletiva. O poder não é mais um poder sobre, mas um poder com. É um poder onde professores e alunos constroem, não só a maneira de abordar os conteúdos pedagógicos, mas também o gerenciamento da própria escola: limpeza, horários de funcionamento... Agora também funciona nesse mesmo espaço um jardim de infância pela manhã para crianças de 4 anos.

Então aí existe uma apropriação do projeto, que é uma das chaves. Conseguir que um projeto político garanta, em dois bairros populares, que mais de 100 jovens por ano completem seus estudos secundários e que comecem a sonhar com um projeto de vida diferente, sem ser Estado, isso é para nós uma chave para a inovação política.

 

TEMA 2: CONTEXTO POLÍTICO NACIONAL E IMITAÇÕES DO PODER LOCAL

A situação na Argentina a partir do resultado eleitoral de 2015 influencia aqueles, como nós, que participamos pela primeira vez de eleições nacionais. Ao pertencer organicamente ao Kirchnerismo, entendemos que um triunfo do Cambiemos significaria um passo atrás, não para um governo particular, mas para a sociedade como um todo, especialmente para projetos de transformação política. Porque o triunfo de Cambiemos não acontece de maneira isolada, mas ocorre também em um contexto regional e internacional.

Nesse sentido, assumindo esse desafio, não só queremos fortalecer processos locais na cidade de Rosario e tentar conquistar e governar nossa cidade em 2019, mas também assumimos o desafio de participar de uma batalha nacional pela primeira vez, com as candidaturas de deputados nacionais. Eu entendo que para enfrentar esse recuo ou essas políticas neoliberais, temos que deixar a polarização ou "a fenda", como dizemos na Argentina, para podermos diversificar as formas de resistência.

Temos o dever e o desafio não só de questionar as medidas e políticas do governo do Mauricio Macri, mas sobretudo oferecer alternativas. Diante das ameaças de fechamento, nós trabalhamos com a possibilidade de recuperar fábricas e empresas, como aconteceu depois de 2001 na Argentina. Não é apenas sobre resistência, mas também sobre avançar no poder de autogestão dos trabalhadores nesses meios de produção.

Nossa cidade e nossa província têm muitos casos de empresas bem-sucedidas, cooperativas, empresas autogeridas, como La Cabaña ou Mil Folhas. Elas encontraram, precisamente nos momentos de crise, a possibilidade de progresso, de melhora das condições. E isso é, eu acredito, uma perspectiva diferente que podemos nós podemos oferecer e hoje inclusive, enquanto visitávamos a província, encontramos muitos desses casos.

No nosso país, com nossa campanha a nível nacional, também queremos colocar a questão dos governos e das cidades locais na agenda. Estamos levando propostas de âmbito nacional para reivindicar os governos locais através da política de proximidade como uma possibilidade de distribuição do poder, que o poder também pode ser construído de baixo para cima.

Estamos convencidos de que uma das principais lições aprendidas nos últimos anos na América Latina, inclusive através de vários governos progressistas com suas características diferentes na região, é que o que é construído desde cima, cai desde cima também e, portanto, devemos pensar em possibilidades de um novo horizonte de inclusão nos próximos anos, onde a prática política interprete o poder de maneira diferente; e que ele pode ser feito de baixo para cima. Durante o nosso recorrido através da província que temos feito durante na campanha, a ideia de Ciudad Futura aparece clara, e essa ideia é aplicável a toda a província.

Queremos mudar a forma de construção política para que cada território se empodere, para que cada território autonomamente e genuinamente, possa se organizar, e que talvez a ferramenta estatal ou nacional é a melhor para fazer frente ao neoliberalismo. A confluência de diferentes experiências de transformação que possuem raiz territorial.

Nós gostamos de uma frase que diz precisamente que não se trata de mudar de um poder para outro, mas construir um poder diferente. E nesse sentido, é importante que cada território se auto governe, que cada um mande no seu próprio território, assim todos e todas mandamos ao mesmo tempo.

A verdade é que isso é algo que está ausente da agenda nacional. Apesar de ter se tornado evidente que cada vez mais territórios têm seus próprios problemas para enfrentar e desafios maiores, ainda falta essa mudança de paradigma de hierarquizar e pensar que a verdadeira política, o verdadeiro poder de transformação, é cada vez mais próxima do território. Nisso, os governos locais e os municípios têm muito a contribuir, mais do que as grandes ferramentas a nível nacional.

 

TEMA 3: O CONTEXTO INTERNACIONAL

Os contextos tanto nacionais quanto internacionais influenciam e tornam a tarefa mais difícil porque o vento vem de frente. E acredito que também existe uma ruptura com talvez as tradições da esquerda, a velha teoria de que, quanto pior as condições, melhor a oportunidade de realizar a revolução ou os processos de transformação. Se existe algo que aprendemos há muitos anos é que essa teoria é absolutamente desastrosa, porque para que isso seja verdade, é necessário que uma alta porcentagem da sociedade que tem que sofrer muito, e sofrer muito hoje.

Diante disso, devemos melhorar as condições aqui e agora, entre todos. Não vale se isolar. A experiência de Ciudades Sin Miedo (Cidades Sem Medo) em Barcelona está criando algo muito interessante que tem a ver com esse trabalho de rede colaborativa. Propostas horizontais de experiências e links entre cidades de transformações genuínas, que são verdadeiras.

A experiência de vive-las nos permite ver algo diferente, algo que não é um acordo feito em uma pequena mesa por pessoas que talvez estejam trabalhando em uma estratégia particular, mas é algo que tem a ver, inclusive, com o conceito de feminização da política, algo que também foi discutido nesse encontro, e que é essa nova forma de construção política.

Temos um enorme desafio à frente para, como já disse antes, quando o vento volte a soprar na nossa direção, sejamos nós os que construímos desde baixo o poder, com essa ideia de poder local, poder com os outros e com as outras, e que sejamos nós os protagonistas dos tempos favoráveis. Em Ciudad Futura, sempre dizemos que o conteúdo das nossas propostas políticas, das bandeiras que defendemos, é a maneira através da qual realizamos essa construção política.

É por isso que é necessário ver que essa força política (e da política) é aquela ação coletiva que nos permite expandir o horizonte do que é possível, tornando-o realmente coletivo, realmente horizontal, democrático e, acima de tudo, transparente. A questão da transparência, eu acredito, é importante para todos os municípios de transformação, ou para todos nós que estamos trabalhando nesta ideia.

Essa ideia tem a ver com a forma como as pessoas comuns cuidam dos assuntos que pertencem a todos, e para isso nada melhor do que a política local e de proximidade que podem dar conta das transformações reais que podem ser levadas adiante.

 

TEMA 4: A QUESTÃO DA LIDERANÇA

Todos nós que estamos hoje no Ciudad Futura desenvolvendo alguma tarefa dentro da função pública, deixamos claro que não queremos nenhum tipo de carreira a nível pessoal ou individual. Nós estamos orgulhosamente expressando um coletivo, um projeto político coletivo, e entendemos que, circunstancialmente, é a nossa vez de gerenciar esse lugar.

É por isso que também devemos ter em mente a importância de tomar decisões dentro das organizações que respondem por isso e que dão sustentabilidade ao tempo. Nós que somos hoje vereadores pelo Ciudad Futura doamos desde o primeiro minuto 70% do nosso salário; vivemos com os mesmos salários que tínhamos antes de serem vereadores, e cobramos o mesmo que todos os assessores que fazem parte da nossa equipe.

Tentamos não gerar privilégios, não fazer parte da casta, nem da corporação política; tentamos não mentir para nós mesmos. Estamos tentando garantir que tudo o que damos vai fortalecer a organização, fortalecer os projetos que realizamos fora do Estado e deixar bem claro que o estilo de vida – quando a militância é um estilo de vida – não se pode aceitar nenhum tipo de privilégios.

Acredito que os líderes do século XXI incorporam os movimentos que partem mais das cidades (e para mim, pessoalmente, Ada Colau expressa isso perfeitamente). Você vê Ada e vê todo o movimento dos Indignados, vê também toda a luta contra os despejos, vê os companheiros e companheiras de Barcelona em comum, e vê uma mulher forte, firme em suas ideias, mas que tem empatia e paixão por tudo o que faz.

Eu acredito que esta é uma maneira crucial de penetrar as instituições do Estado, que são regidas por uma lógica absolutamente patriarcal, onde a agressividade ou essa ideia de poder como dominação é a essência e é uma parte crucial do que temos de transformar.

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