50.50: Investigation

Deixe de fazer sexo, diz psicóloga a jovem LGBTQ da Guatemala

Uma terapeuta do grupo católico americano Courage International prescreve 'castidade' em uma sessão com jovem lésbica

Lina Gómez
14 Dezembro 2021, 12.00
Ilustração: Inge Snip

Uma psicóloga e um padre católico apoiados por um grupo conservador dos Estados Unidos estão coordenando sessões de "terapia de conversão" para jovens LGBTQ na Guatemala, aconselhando-os a renunciar ao sexo.

Tomei conhecimento de suas atividades enquanto trabalhava em uma investigação para o openDemocracy sobre as ações dos grupos conservadores americanos contra as pessoas LGBTQ na América Central. Me fazendo passar por lésbica católica em um relacionamento de um ano com outra mulher, fui até a Cidade da Guatemala para me encontrar com membros da organização católica norte-americana Courage International.

Tanto a psicóloga quanto o padre me disseram que não havia "cura" para minha "condição", exceto uma vida de "castidade".

O psicólogo, que é voluntário da Courage International, me fez muitas perguntas pessoais e familiares, e sugeriu que eu havia procurado o amor de uma mulher "porque minha mãe não era carinhosa".

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A entrevista foi realizada ao ar livre devido à pandemia de Covid-19, no jardim comunitário do bloco habitacional onde a psicóloga disse que morava. Não havia privacidade e os vizinhos passavam constantemente.

Fora isso, foi como uma sessão de terapia convencional; mas ela definiu "pecado" como uma doença, para argumentar que eu deveria viver meu suposto lesbianismo em abstinência.

Após a sessão, a psicóloga me enviou um vídeo no qual o ativista conservador católico americano Evan Lemoine diz: "Qualquer ato sexual que não se destina à reprodução é prostituição".

Apenas alguns países proíbem a "terapia de conversão" e a Guatemala não está entre eles. Além disso, não existem leis neste país para proteger as pessoas LGBTQ contra discriminação ou violência.

Mas o código de ética do Colégio de Psicólogos de Guatemala – o órgão que credencia as licenças profissionais nesta disciplina – adverte contra a disseminação de juízos morais e religiosos na terapia.

O código exige, por exemplo, "respeito pela diversidade dos povos e das pessoas e pela dignidade humana", e acrescenta: "É importante evitar juízos de valor ou a imposição de crenças pessoais".

Viver uma 'vida casta'

Conheci a psicóloga depois de uma conversa inicial com o padre, que sugeriu que eu me juntasse a um grupo de mulheres com "atração por pessoas do mesmo sexo" que tinham decidido "viver uma vida casta". Mas para ser admitida no grupo, tive que me comprometer a não me envolver em "atos homossexuais" e a ser entrevistada pela terapeuta.

Evan Lemoine: "Qualquer ato sexual que não se destina à reprodução é prostituição"

O padre me disse que Courage International não procura "converter" pessoas homossexuais. No entanto, a descrição de "terapia de conversão" em um relatório da ONU afirma que essas intervenções são baseadas na ideia de que a orientação sexual ou identidade de gênero de uma pessoa pode e deve ser mudada ou reprimida, e têm a intenção de transformar pessoas LGBTQ em heterossexuais ou cisgênero.

Sentamo-nos em uma sala grande e escura dentro de uma igreja em um bairro residencial da Cidade da Guatemala. O padre leu para mim, num tom calmo e paternal, os cinco objetivos da Courage International: castidade; oração e dedicação; companheirismo; apoio; e "viver vidas que possam servir de bom exemplo para os outros".

"Você tem tem tido relações íntimas com outras mulheres?", perguntou. "Você vivenciou alguma situação prejudicial, como toque, em sua infância?" Sua intenção, disse ele, era investigar minha história pessoal para encontrar alguma experiência traumática que pudesse explicar minha homossexualidade. Ele também perguntou: "Você se sente culpada?".

"Os atos homossexuais são imorais", disse o padre. "A atração pelo mesmo sexo não é uma doença", acrescentou ele. "Algumas pessoas dizem que é uma disfunção [...]. É apenas uma condição [...]. Não é um pecado. Mas se eu me entregar a essa atração, posso estar cometendo pecado".

Courage International

A Courage International foi fundada em 1980 nos EUA para persuadir as pessoas católicas gays e lésbicas a seguir uma "vida casta". O grupo foi acusado de promover "terapia de conversão" na Escócia e na Irlanda.

"Terapia de conversão" é, segundo a ONU, um termo amplo para descrever "intervenções de vários tipos que se baseiam na crença de que a orientação sexual e a identidade de gênero das pessoas, incluindo a expressão de gênero, podem e devem ser alteradas ou suprimidas [...] Essas práticas têm sempre como objetivo converter pessoas não heterossexuais em heterossexuais e transgêneros ou pessoas com diversidade de gênero em pessoas cisgênero".

As chamadas terapias foram desacreditadas por organizações médicas como a Academia Americana de Psiquiatria Infantil e Adolescente, que diz que tais intervenções "carecem de credibilidade científica e utilidade clínica" e são potencialmente prejudiciais.

Em resposta a nossas descobertas, a Courage International disse: "Nem a Igreja Católica nem a Courage esperam que alguém passe por aconselhamento ou tratamento para 'reparar', 'converter', 'curar' ou de outra forma 'corrigir' sua orientação sexual".

Em relação à psicóloga voluntária, o grupo disse: "Embora psicólogos e outros profissionais possam ocasionalmente ser convidados a participar [de nossas] reuniões, eles não são considerados funcionários permanentes ou membros do apostolado".

A declaração acrescentou: "Está ficando cada vez mais claro no mundo moderno que o que está incluído sob o título 'terapia de conversão', na mente de indivíduos e organizações, na verdade inclui qualquer conversa honesta sobre moralidade sexual e identidade sexual a partir de uma perspectiva de fé".

‘Pensamentos suicidas’

Ao ouvir o padre e a psicóloga, pensei no sofrimento vivido pelas pessoas que se submetem à "terapia de conversão" em todo o mundo. Tentativas de 'curar' ou suprimir a orientação sexual ou identidade de gênero das pessoas LGBTQ ocorrem tanto na Guatemala como nos EUA.

Um sobrevivente dessas tentativas é o psicólogo guatemalteco Alejandro Villafuerte, uma das poucas vozes que denunciam publicamente tais atividades no país.

"Ver-se como mau, doente, pecaminoso, nojento, é o pior sentimento possível", disse ele. "O resultado foram pensamentos suicidas. Se eu tivesse continuado a participar [dessas sessões], eu teria tentado o suicídio".

Uma pesquisa de 2018 nos EUA descobriu que jovens LGBTQ que passaram por qualquer uma dessas práticas tinham duas vezes mais probabilidade de relatar tentativas de suicídio.

Pesquisas realizadas pelo openDemocracy no Quênia, Tanzânia e Uganda no início deste ano também revelaram impactos negativos sobre a saúde mental, as relações familiares e o bem-estar das pessoas LGBTQ.

Agora, nossa investigação expõe grupos americanos promovendo "tratamento" ou castidade para pessoas LGBTQ na Guatemala, Costa Rica e nos EUA.

Aldo Dávila, o primeiro político abertamente gay da Guatemala e defensor dos direitos LGBTQ, me disse: "Antes tínhamos alguns sinais de alerta sobre esta ['terapia de conversão' na Guatemala], mas agora que está confirmada [...] estamos percebendo que é mais grave do que se pensava anteriormente".

Estas práticas "violam completamente os direitos mais fundamentais dos seres humanos", disse ele. "Quantas pessoas estão sendo humilhadas neste momento, enquanto ninguém está fazendo nada a respeito?

Os serviços de saúde não podem incluir julgamentos morais

Villafuerte, como psicólogo, acredita que há motivos suficientes para o Colégio de Psicólogos da Guatemala investigar a terapeuta que conheci.

"Os serviços de saúde não podem incluir julgamentos morais", explicou ele. As pessoas que passam por estas sessões "podem estar ser adultos que consentiram, mas continua sendo um esquema e negligência médica".

O Colégio Guatemalteco de Psicólogos nunca emitiu uma declaração sobre "terapia de conversão". Também não respondeu às perguntas do openDemocracy sobre como trataria uma reclamação contra o psicólogo da Courage International.

Henry España, um defensor dos direitos da diversidade sexual do Gabinete da Ouvidoria dos Direitos Humanos da Guatemala, me disse que o escritório poderia abrir uma investigação se uma vítima apresentasse uma queixa.

"Uma investigação deve ser aberta, mesmo que seja sobre serviços privados, [dirigida] à instituição pública com poderes de supervisão, neste caso, o Ministério da Saúde ou o Ministério do Interior em casos de igrejas [envolvidas]", disse ele.

Em 2012, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos instou a Guatemala a adotar políticas públicas específicas para lidar com a discriminação sexual e de gênero.

Mas, de acordo com Dávila, longe de proteger as pessoas da discriminação, os líderes políticos estão pressionando propostas para aumentar os ataques às comunidades LGBTQ.

Um projeto de lei de 2018, ainda pendente, procurou legalizar a homofobia. Agora, um novo projeto de lei visa diretamente crianças e jovens LGBTQ sob o pretexto de "proteger crianças e adolescentes de distúrbios de identidade de gênero".

*Traduzido por Lourenço Melo

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