democraciaAbierta: Opinion

Como Bolsonaro mudou o papel do Brasil no mundo

O status do líder de extrema-direita como um pária internacional mascara alguns pontos importantes de continuidade

David Sogge
14 Janeiro 2022, 12.00
Para muitos forasteiros, Bolsonaro e seus companheiros agitadores da Bíblia apareceram sem aviso
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Vuk Valcic/Alamy Stock Photo

Ele pode ser bem-vindo nos domínios dos xeques do Golfo, onde a fé religiosa, a venda de armamentos, alimentos e até clubes de futebol como o Palmeiras são temas de discussão. Mas em outras partes do mundo, Jair Bolsonaro é indesejado. O presidente dos Estados Unidos o evita publicamente. As celebridades de Hollywood o rejeitam. Os principais políticos da Europa não apenas o esnobam, mas estendem o tapete vermelho para Lula, seu inimigo político. Nas arenas diplomáticas, o ex-capitão é radioativo.

Mas o que levou a esse equivalente político de um acidente nuclear? Fora do Brasil, essa questão raramente está posta. O acúmulo dessa ruptura desenvolveu-se, no entanto, ao longo de muitos anos. “Ontem” diz muito sobre o “hoje”. Mas vamos primeiro anotar algumas interpretações do exterior nos últimos anos.

Para muitos forasteiros, Bolsonaro e seus companheiros agitadores da Bíblia apareceram sem aviso. Parecem “não convidados” em uma democracia que estava a fazer o que podia para lidar com os problemas internos e desempenhar seus papéis no exterior de maneira inofensiva. Para a “comunidade internacional”, Bolsonaro é odioso. Fulmina rotineiramente conclaves de elites globais e burocratas cosmopolitas com seus arranjos multilaterais (portanto, criptossocialistas) para governar o mundo. Ameaçou retirar o Brasil da Organização Mundial da Saúde e dos Acordos Climáticos de Paris. Concretamente, retirou o País do Pacto Global para a Migração, endossado pela ONU.

Mais alarmantes são as posições domésticas com impactos no exterior, notadamente sua horrível indiferença ao sofrimento e morte de brasileiros por Covid-19 e apoio (nem tão) velado à queima da Floresta Amazônica, “os pulmões da terra”. Com menos atenção no exterior, há ainda a intimidação de oponentes domésticos. Os principais alvos são os movimentos sociais emancipatórios, muitos deles em rede com simpatizantes na Europa e na América do Norte. Seus policiais e capangas martelaram os defensores de pequenos fazendeiros, sem-terra e ativistas ambientais. Rotineiramente vilipendiados são os trabalhadores organizados, ativistas pela justiça de gênero, grupos minoritários e requerentes de asilo. Acadêmicos, think tanks e profissionais do direito também enfrentaram ataques.

As respostas no exterior têm sido distintas. Os leitores de análises oficiais do governo dos Estados Unidos sobre as práticas de direitos humanos no Brasil encontrarão pouco sobre essas e outras agressões aos direitos constitucionais e à própria Constituição. Os leitores da mídia internacional podem, no entanto, ficar com algumas dúvidas: a sociedade do Brasil está em apuros. Como integrante pleno de uma comunidade de nações, o Brasil pode ser levado a sério?

Por quê?

Esse terremoto político surpreendeu muitos estrangeiros, inclusive eu. Mas tensões e fissuras subterrâneas foram detectadas há muito tempo. Em retrospecto, Bolsonaro foi um acidente à espera de acontecer. Vários ativistas, jornalistas e acadêmicos no Brasil há muito tempo estavam cientes dos riscos, mas com exceções, entre elas Perry Anderson, os observadores estrangeiros os ignoravam em grande parte. Como os riscos foram criados? Na minha opinião, os processos decisivos ganharam seu ritmo e direção sob influências transnacionais.

O terremoto político causado por Bolsonaro surpreendeu muitos estrangeiros, mas tensões e fissuras subterrâneas foram detectadas há muito tempo

Começaram com Fernando Collor de Mello em 1990 e ganharam força a partir de então. Atores corporativos importantes, aliados a classes e grupos de interesse locais, lutaram e alcançaram muitos de seus objetivos de política neoliberal. Seu projeto teve sucesso com o apoio de setores de capital externos, em Wall Street, no FMI. As principais políticas econômicas podem parecer amplamente “caseiras” e às vezes incluem medidas moderadamente redistributivas (salário mínimo, transferências de renda etc.) para estabilidade social e vantagem eleitoral. Mas, por três décadas, as políticas não se desviaram das ortodoxias estipuladas em níveis globais. Isso reforçou a orientação extrativista do Brasil. As exportações de minerais e do agronegócio dispararam, impulsionadas pela demanda da China. Privatizações e incentivos fiscais atraíram capital estrangeiro. Bem-vindos são os negociantes de rodas em capital improdutivo. Eles compram, despojam e revendem ativos, como serviços públicos privatizados, como água ou saúde. O que antes era direito do cidadão torna-se mercadoria pelas quais se deve pagar – se o consumidor tiver dinheiro. Bolsonaro não introduziu essas medidas, mas seu governo pretende dar-lhes impulso.

Quais os resultados para o cidadão comum? Os impactos são complexos e continuam a se acumular. Incluem desindustrialização e gastos públicos quase inexistentes em infraestrutura, saúde, educação e redução da insegurança social. Repetidamente, desde 1990, os líderes se recusaram ou foram incapazes de buscar esses tipos de medidas positivas, mesmo quando forasteiros influentes, a começar por economistas do FMI, admitiram que tais medidas podem criar uma economia mais justa e, portanto, mais dinâmica. Tal conselho não abala a equipe econômica de Bolsonaro, que adere a antigas ortodoxias importadas, esperando a salvação pelo investimento estrangeiro.

Entre os muitos resultados perniciosos estão, para os estratos médios, rendas estagnadas e perspectivas em declínio, e para os trabalhadores semiproletários, lutas ainda mais desesperadas para subsistir. Em ambos os estratos, os brasileiros ficaram ansiosos e com raiva. Politicamente, estão “em jogo” para a esquerda, mas especialmente para a direita.

Continuidade… até quando?

Em outras esferas das relações exteriores, os “ontem” do Brasil também persistem no “hoje”. O apoio brasileiro à América Latina e África continua, embora não nos níveis alcançados nos anos do “globalismo” de Lula. Como muitos outros doadores, o Brasil usou a maior parte dos recursos para alavancar suas corporações. Em Angola e Moçambique, a Odebrecht e a Vale tornaram-se grandes empresas, graças à enérgica diplomacia Sul-Sul de Lula e ao uso do BNDES como veículo de fomento externo.

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Bolsonaro reclamou. Mas, como dizem os holandeses, a sopa nunca é comida tão quente como quando é servida. De fato, seu governo mostra entusiasmo crescente por órgãos multilaterais importantes. Trabalha para obter a admissão do Brasil no conclave da velha elite, a OCDE. Recentemente, em Washington, o ministro da Economia, Paulo Guedes, instou o FMI a intervir de forma mais vigorosa nos assuntos dos destinatários de empréstimos. Para Bolsonaro, a OMC deve ser fortalecida e a cooperação entre os BRICS intensificada. Ele pode denunciar as Nações Unidas, mas seu governo intensifica a participação em várias agências da ONU. Será que a ansiedade em relação ao repúdio ao multilateralismo pode ser um pouco exagerada? (Para ser claro, acho que muitos organismos multilaterais têm desempenho fraco ou causam danos diretos. Eles deveriam ser revisados, mas não pelos preceitos do bolsonarismo.)

As relações do Brasil com o Pentágono e os produtores norte-americanos de armas nunca estiveram seriamente ameaçadas. Com Lula, os laços militares foram formalizados e ampliados. Hoje, as relações estão melhores do que nunca. Em 2019, Trump concedeu ao Brasil o status formal de “‘Major’ Não Aliado da Otan”, permitindo-lhe comprar material dos EUA e licitar em alguns contratos de defesa daquele país. As empresas brasileiras continuam a exportar armas, às vezes em violação a um tratado internacional que, contra as objeções do então deputado Bolsonaro, o Brasil ratificou em 2018.

Por outro lado, no que diz respeito à China, Bolsonaro colocou à prova as relações com Washington. Ao se tornar presidente, ele abandonou seu discurso anti-China anterior. Para atender ao agronegócio e a outros interesses corporativos, assumiu os laços comerciais e de investimento com os chineses como questões prioritárias. Hoje, como ontem, o Itamaraty deve buscar o equilíbrio entre os interesses da elite brasileira (às vezes juntamente com os de seus vizinhos) e aqueles das elites poderosas que orientam as políticas de Washington. Diante da busca por autonomia e da exaltação das ligações Sul-Sul, alguns diplomatas ocidentais ridicularizaram as posições brasileiras como “em cima do muro” e falta de firmeza. Questões importantes para as potências ocidentais estão em jogo. À medida que as batidas dos tambores norte-americanos em direção à China se intensificam, o Brasil, com ou sem Bolsonaro, enfrentará pressões para entrar na linha.

Aqui na Europa, em parte graças a uma vibrante diáspora brasileira, muitos se aglomeram para ouvir choros e samba e comer feijoada. O Brasil exibe, no entanto, outro tipo de soft power. Articuladas por personalidades como Paulo Freire e João Pedro Stedile, do MST, são ideias e práticas para promover o poder “a partir de baixo”. Os movimentos brasileiros, organizações ativistas e líderes municipais têm mostrado por décadas uma enorme criatividade e coragem em testá-los e produzi-los. Práticas brasileiras como “orçamento participativo” podem não funcionar perfeitamente, mas me parecem (e eu as observei em Angola) tão mais benéficas quanto as exportações de soja, armas, madeira e petróleo.


Este artigo foi originalmente publicado sob outro título por CartaCapital e republicado com permissão. Leia o original aqui.

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