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Entrada de fundos de investimento mostra que algo se move na Venezuela

Na prática, Maduro está enterrando o socialismo: não há regulação de preços, o dólar circula livremente e há incentivos às exportações.

Víctor Salmerón
2 Junho 2021, 12.00
Cargill em Valencia, Carabobo, na Venezuela
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Juan Carlos Hernandez/ZUMA Wire/Alamy Live News

Fundos de investimento arriscados em busca de lucros rápidos estão mirando a Venezuela, uma economia debilitada mas com potencial de recuperação e barganhas para investir. Por enquanto, as transações envolvendo a Seguros Caracas, Cargill, DirecTV e Corimon se destacam na lista de compras que introduzem novas peças ao setor privado.

O empresário chileno Isidoro Quiroga, que recentemente vendeu sua fazenda de salmão Australis Seafood para o grupo chinês Joyvio, foi o primeiro a apostar quando, no final de 2019, comprou a Seguros Caracas da Liberty Mutual, em parceria com diretores da empresa.

Em novembro de 2020, a Phoenix Global Investment, fundo com presença de capital chinês e do grupo Puig, agitou o tabuleiro do agronegócio com a compra de fábricas da Cargill e suas emblemáticas marcas de alimentos, como Pastas Ronco e Aceite Vatel.

Também no agitado novembro de 2020, a Scale Capital, uma empresa com negócios em Miami, Londres e Chile e investimentos em telecomunicações, assumiu o controle da DirecTV e está em vias de adquirir uma participação significativa na Corimon, uma empresa-chave no mercado de tintas através de suas marcas Montana e Pinco.

Fontes próximas da transação da Corimon explicam que o fundo 3B1 Guacamaya, fundado por Eduardo Cisneros e Rodrigo Bitar, comprou a maioria das ações da empresa, enquanto Carlos Gill, atual presidente da empresa, ficará com a gestão e com participação relevante. .

Eduardo Cisneros é neto de Diego Cisneros e, portanto, membro da família que por anos controlou uma ampla gama de negócios na Venezuela, como telecomunicações, lojas de departamentos e cerveja. Já Rodrigo Bitar é filho do político chileno Sergio Bitar e diretor da Toro Advisors, uma empresa com sede em Nova York especializada em serviços de consultoria de investimentos na América Latina.

Abertura e preços

Urbi Garay, professor de finanças do IESA e membro da Academia de Ciências Econômicas, acredita que o investimento estrangeiro nas empresas venezuelanas continuará a crescer porque, depois do colapso das exportações de petróleo e do declínio da economia, “há uma maior abertura ao investimento privado por parte do governo".

A maior parte das leis aprovadas para amarrar o mercado ainda estão em vigor, mas na prática Nicolás Maduro está enterrando o socialismo do século 21: não há regulação de preços, o dólar circula livremente, há incentivos às exportações e a agenda do governo contempla a privatização de empresas públicas.

“Em segundo lugar, o preço pago pelas empresas em questão tem sido muito baixo quando comparado com o valor histórico que algumas dessas empresas tinham, embora esses valores baixos hoje sejam compreensíveis, dada a situação crítica do país”, afirma Urbi Garay.

Ele acrescenta que “para o investidor estrangeiro, essas aquisições costumam representar uma porcentagem pequena ou muito pequena de seu portfólio. Por isso, podem assumir o risco envolvido, em troca de um retorno esperado, que se apresenta como muito desejável desde que se consuma uma verdadeira abertura da economia. Além disso, apostam que haverá uma negociação política no médio prazo", conclui.

O espelho da Corimon

Como parte da operação para Corimon, a Superintendência Nacional de Valores aprovou uma oferta pública de compra que contempla um preço de US$ 0,20 por ação. Este preço indica que a empresa, de acordo com o total de ações, tem um valor de mercado de apenas US$ 30 milhões.

Embora a economia esteja começando a desemperrar, a Venezuela está longe de começar a atrair o investimento necessário para iniciar um processo sustentado de crescimento

A quantia expõe o barranco pelo qual a Venezuela deslizou. No final de 1993, ano em que a Corimon emitiu ações ordinárias na Bolsa de Valores de Caracas, a avaliação de mercado era de US$ 344 milhões, valor que hoje equivale a US$ 635 milhões.

Embora a queda no valor da bolsa seja influenciada pelo fracassado processo de internacionalização que levou a uma reestruturação no final da década de 1990 na qual Corimon se desfez de subsidiárias no México, Argentina e Estados Unidos, a queda tem um peso preponderante no colapso da economia .

O país está em recessão há sete anos consecutivos, o PIB é um terço do que era em 2013, a hiperinflação pulverizou a moeda e, em média, a indústria está utilizando apenas 20,5% de sua capacidade instalada.

Fontes financeiras explicam que os fundos de investimento estão apostando na continuidade da abertura da economia, em uma negociação política exitosa no médio prazo e na flexibilização das sanções impostas pelos Estados Unidos.

Neste contexto de moderada recuperação econômica, afirmam, a valorização de empresas como a Corimon e o preço de empresas emblemáticas do seu sector como a Seguros Caracas e a Cargill triplicarão ao fim de três ou quatro anos, permitindo a obtenção de lucros.

Além de tintas, a Corimon possui franquias de lojas Montana, que fabrica embalagens flexíveis, embalagens plásticas, resinas, além de artigos como pincéis e rolos, junto com empresas do Paraguai e da República Dominicana.

"Os fundos de investimento compram a preços ridiculamente baixos participações em empresas que, se as mudanças no ambiente se aprofundarem, vão se revalorizar rapidamente. Pelo lado das empresas, como é o caso da Corimon, elas têm dinheiro entrando em seu fluxo de caixa", diz um banqueiro com conhecimento da transação.

Em gestação

Sinais positivos estão surgindo para quem está apostando que a economia voltará a respirar, que as empresas serão revalorizadas e que a crise política perderá intensidade através de uma negociação entre as partes.

Entidades financeiras como a Credit Suisse indicam que a economia deve crescer 4%. “O retorno da procura interna, que já vemos há algum tempo, começa a ficar evidente nos números. A Venezuela é um país com grandes crises em muitas frentes e com algumas das condições de vida mais desafiadoras da América Latina. No entanto, o PIB mostra números, não emoções ", diz o relatório.

Na frente política, Maduro disse publicamente, assim como os líderes da oposição, que está disposto a negociar. O país tem um novo Conselho Eleitoral Nacional e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU começará a prestar assistência humanitária.

Grupos locais também procuram aproveitar a situação para criar fundos de investimento para investir em empresas no país

Em seu último relatório, a empresa Eurasia Group observa que “a contínua flexibilidade de Nicolás Maduro em relação à assistência humanitária e na frente política provavelmente levará a um alívio marginal das sanções americanas. A proibição dos intercâmbios de diesel será provavelmente a primeira a desaparecer".

Investimento local

Grupos locais também procuram aproveitar a situação para criar fundos de investimento para investir em empresas no país, seja através da compra de uma participação acionária ou da criação de mecanismos de financiamento

A fim de evitar empréstimos para a compra de dólares que pressionam a taxa de câmbio, o Banco Central obriga as instituições financeiras a imobilizar 85% do dinheiro que administram, criando uma seca de crédito que abre oportunidades no mercado de capitais

A Fivenca já possui um fundo de capital privado estruturado com o fim de se tornar um veículo de investimento. José Gregorio Tineo, diretor da Fivenca, explica que o fundo vai listar suas ações na Bolsa de Caracas e assim atrair investidores.

Com o dinheiro dos investidores, o fundo investirá em empresas ou lhes oferecerá financiamento. “Os setores nos quais planejamos nos concentrar são as pequenas e médias empresas, o setor agroindustrial e os serviços primários da economia,”, afirma Tineo.

Ele acrescenta que “inicialmente prevemos que o fundo atraia investidores locais, mas também será uma boa ferramenta para investidores estrangeiros. Estamos em um novo país onde as coisas estão acontecendo e há setores que estão tendo sucesso. Há crescimento em várias áreas do agronegócio, fazendas de camarão que estão exportando. Claro que não é o mesmo país de 40 anos atrás, mas há oportunidades”, diz Tineo.

A fim de levantar fundos para oferecer opções de financiamento ao setor do agronegócio, um grupo de investidores criou a Impulsa Agronegocios com a ideia de que "neste momento o setor bancário se vê afetado pela baixa liquidez, o que gera uma oportunidade interessante para novos atores e fontes de financiamento".

Como a Fivenca, a Impulsa Agronegocios listará suas ações na Bolsa de Valores de Caracas.

Uma montanha a ser escalada

Embora a economia esteja começando a desemperrar, a Venezuela está longe de começar a atrair o investimento necessário para iniciar um processo sustentado de crescimento.

Urbi Garay destaca que “a economia venezuelana continua em situação crítica, assim como a situação política e social, com níveis recordes de pobreza. Não foi aplicado um programa econômico abrangente para acabar com a hiperinflação e lançar as bases para o crescimento econômico sustentado. Essa realidade, somada às sanções, dificulta a atração de investimentos estrangeiros nos valores exigidos pelo país”, afirma.

Garay se aprofunda nessa questão e explica que “ao lado do que acontece no setor privado está a venda de empresas estatais, ou parte delas, ou a entrega de concessões a investidores estrangeiros. É um processo sobre o qual ainda se sabe pouco e que pode atrair alguns investimentos, mas em valores bem aquém do necessário.”

“Algo que preocupa, além da questão da transparência desse processo, é que as possíveis quantias que poderiam entrar no país estão muito longe dos US$ 20 ou US$ 30 bilhões anuais durante dez anos que, segundo os especialistas, são necessários para elevar a produção de petróleo para 2,5 ou 3 milhões de barris por dia”, diz.

De acordo com o último relatório da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), a produção da Venezuela em abril foi de 445 mil barris por dia. Um prospecto de investimento que a PDVSA distribuiu aos investidores visa levantar US$ 58 bilhões para aumentar a produção de petróleo.

Por enquanto, o objetivo parece longe.


Este artigo foi originalmente publicado pela RunRun.es e traduzido ao português pelo openDemocracy/democraciaAbierta. Leia o original aqui.

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