"Com perfeito direito os espanhóis imperam sobre esses bárbaros do Novo Mundo e ilhas adjacentes, os quais em prudência, inteligência, virtude e humanidade são tão inferiores aos espanhóis como as crianças são inferiores aos adultos e as mulheres aos varões, havendo entre eles tantas diferenças como a que existe entre as pessoas cruéis e inumanas e aquelas piedosas, entre aquelas extremamente intempestivas e as contidas e moderadas e, enfim, entre os macacos em relação aos homens." É assim que Frei Juan Ginés de Sepúlveda, famoso cronista do século 16, escreveu em seu “Tratado sobre as causas justas da guerra contra os índios”.
O mundo descrito no tratado já se foi. Quase 500 anos se passaram desde a conquista das Américas. No entanto, as palavras do Frei Ginés perduraram, marcando profundamente a história da Guatemala. Nos séculos seguintes, as elites promoveram a ideia de uma raça superior. Já no século 19 surgiu uma frase que é comum ainda hoje: "Melhorar a raça" – uma celebração da ancestralidade europeia que ao mesmo tempo deixa uma mensagem clara: quanto menos "indígena", melhor.
O Estado guatemalteco levou essa frase muito a sério. Durante o restante daquele século e a primeira metade do seguinte, uma distribuição extremamente desigual de riqueza, trabalho forçado e violência patrocinada pelo Estado fizeram parte da vida diária dos povos indígenas. A opressão fez explodir a Guerra Civil da Guatemala, um dos conflitos mais longevos de toda a América Latina, que resultou no genocídio de 200 mil maias e em 1,5 milhão de deslocados internos.