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Os herdeiros do sofrimento colonial na Guatemala

79% dos indígenas na Guatemala vivem na pobreza – uma situação agravada pela pandemia. Realmente deixamos para trás aquele aparato estatal da Colônia que subjugou os povos indígenas?

Jovem indígena com uma criança em área rural da Guatemala
Jovem indígena com uma criança em área rural da Guatemala
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"Com perfeito direito os espanhóis imperam sobre esses bárbaros do Novo Mundo e ilhas adjacentes, os quais em prudência, inteligência, virtude e humanidade são tão inferiores aos espanhóis como as crianças são inferiores aos adultos e as mulheres aos varões, havendo entre eles tantas diferenças como a que existe entre as pessoas cruéis e inumanas e aquelas piedosas, entre aquelas extremamente intempestivas e as contidas e moderadas e, enfim, entre os macacos em relação aos homens." É assim que Frei Juan Ginés de Sepúlveda, famoso cronista do século 16, escreveu em seu “Tratado sobre as causas justas da guerra contra os índios”.

O mundo descrito no tratado já se foi. Quase 500 anos se passaram desde a conquista das Américas. No entanto, as palavras do Frei Ginés perduraram, marcando profundamente a história da Guatemala. Nos séculos seguintes, as elites promoveram a ideia de uma raça superior. Já no século 19 surgiu uma frase que é comum ainda hoje: "Melhorar a raça" – uma celebração da ancestralidade europeia que ao mesmo tempo deixa uma mensagem clara: quanto menos "indígena", melhor.

O Estado guatemalteco levou essa frase muito a sério. Durante o restante daquele século e a primeira metade do seguinte, uma distribuição extremamente desigual de riqueza, trabalho forçado e violência patrocinada pelo Estado fizeram parte da vida diária dos povos indígenas. A opressão fez explodir a Guerra Civil da Guatemala, um dos conflitos mais longevos de toda a América Latina, que resultou no genocídio de 200 mil maias e em 1,5 milhão de deslocados internos.