democraciaAbierta: Feature

'Eu tiro meu chapéu para a mulher brasileira'

Nove mulheres revelam os motivos que as levaram até o Brasil e quais foram suas experiências no país. Nem todas as histórias de migração são iguais.

17 Março 2021, 2.54
São Paulo, Brazil
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Sanofi Pasteur/Flickr. Creative Commons (by-nc-nd)

Eu não escolhi o Brasil para viver e eu não pensava em viver fora do meu país. Eu saí por perseguição política. Eu fazia parte de um coletivo de advogados que protestava em relação a mudanças nas leis constitucionais no que diz respeito à organização das eleições no meu país, em 2014. Por causa disso, fui forçada a deixar meu país, hoje eu me encontro aqui, no Brasil.

Meu país é um país com muitas memórias tristes. O tráfico de pessoas escravizadas, colonização e impérios, guerras pela independência, e depois da independência nós tivemos ditadura e mais guerra. Os assassinatos dos congoleses é um genocídio que continua a acontecer até hoje.

Há um genocídio em curso no Congo por mais de 20 anos. Nós temos problemas políticos, um ditador que tenta manter o poder para si. Nós tivemos um presidente que foi assassinado. Ele tinha conseguido derrubar os ditadores, em 1997, 32 anos depois de chegarem no poder, em 1960, mas alguns anos depois eles o assassinaram e tomaram o poder novamente. Eles estabeleceram um período de transição de cinco anos até conseguirem organizar novamente eleições democráticas. O homem que estava no poder durante o período de transição ganhou a eleição e permaneceu como presidente. Ele organizou eleições duas vezes, e a constituição limita um presidente a dois mandatos de cinco anos. Ele governou o país por cinco anos durante a transição, cinco anos após as eleições de 2006 e cinco anos após as eleições de 2011. Esta deveria ter sido sua última eleição. Mas em 2016, quando seu mandato estava terminando, ele começou as manobras políticas. Ele tinha uma maioria parlamentar e queria mudar as leis constitucionais que limitavam os mandatos do presidente.

O Congo tem mais de 80 milhões de habitantes e não é possível entender porque um grupo pequeno de pessoas, uma classe dominante, possa mudar as leis constitucionais votadas em um referendo. Uma lei que foi votada por mais de 80 milhões de pessoas estava prestes a ser alterada por um pequeno número de pessoas que seguiam seus interesses pessoais. Isso não é democrático. Assim, diante de tantas lutas e dificuldades, nós nos levantamos, como advogados, como pessoas que entendiam essa parte da lei. Saímos às ruas como advogados, vestidos de advogados, para representar o povo, para que ninguém interferisse nas leis constitucionais. Exigimos respeito pela nossa constituição. Foi a partir daí que a minha busca pela liberdade se tornou mais difícil.

Como podemos falar sobre independência da mulher congolesa, quando o ideal para a mulher na sociedade é o casamento?

Tenho lutado pela liberdade desde jovem, porque fui criada em uma sociedade muito violenta. Enfrentei a violência em todas as áreas – social, econômica, de gênero. Eu fui criada naquele ambiente, e minha luta pela liberdade começou quando eu era jovem, dentro de minha casa. Quando falo de violência de gênero, estou falando de algo que está dentro da família. Eu sempre digo: “O sexismo africano tira sua força da cultura africana”. Essas leis sexistas tradicionais estão dentro da família. Você pode ver a discriminação contra as mulheres dentro da sua casa.

A mulher congolesa ainda não se posiciona contra a sua família. Ela ainda não grita, ou levanta-se para falar sobre os seus direitos. Ela ainda está nessa situação. Mas eu tiro meu chapéu para a mulher brasileira. Vejo o quanto elas lutam aqui. Diante de toda discriminação e sofrimento que ainda enfrentam, elas estão lá, lutando. Mesmo as mulheres negras, que sofrem muito aqui. O ativismo das mulheres brasileiras pela igualdade de gênero e direitos está muito avançado. Não há quase nada comparável para as mulheres no Congo. Há muitos fatores que causam isso. Primeiro, há uma barreira para as mulheres em nossa cultura, a qual foi construída há muito tempo. Esta barreira reproduz-se no interior das nossas casas – faz parte do cotidiano das famílias congolesas. É verdade que temos leis que protegem as mulheres no Congo, mas a desigualdade ainda está acontecendo dentro de casa.

Como nós podemos falar sobre a independência da mulher congolesa onde o ideal de ser mulher na sociedade é através do casamento? A mulher congolesa precisa começar a lutar para quebrar essa ideia. Eu não estou dizendo aqui que a cultura congolesa é ruim. Pelo contrário, eu sou muito orgulhosa da minha cultura. Eu respeito muito os meu hábitos e costumes. Mas, quando eu digo que precisamos quebrar alguns costumes, a cultura a respeito do gênero, isso é para que possamos ter igualdade. Digo isto em relação aos costumes que foram estabelecidos pelos nossos antepassados e afetam as mulheres diretamente. Essas leis, que são costumes, foram constituídas pelo ambiente particular de nossos antepassados, e os homens criaram esses costumes na medida em que eles precisavam deles.

Mas eu acho que hoje o mundo evoluiu. Existem muitas coisas que existiram e que não existem mais. Por exemplo, no passado vivíamos de caça e pesca, mas não hoje. Hoje há escritórios e as pessoas vão à escola. A tecnologia e a globalização fizeram muitas coisas mudarem. As coisas também têm de mudar para as mulheres.

Precisamos sair dessas velhas leis e costumes que foram criadas para governar uma sociedade antiga (masculina). Como era no passado, o papel principal das mulheres é se casar, ter filhos e cuidar da casa. Para ter liberdade, precisamos mudar isso.

H. M., cinco anos no Brasil

Esta série foi apoiada financeiramente por Humanity United.

Is it time to pay reparations?

The Black Lives Matter movement has renewed demands from activists in the US and around the world seeking compensation for the legacies of slavery and colonialism. But what would a reparative economic agenda practically entail and what models exist around the world?

Join us for this free live discussion at 5pm UK time (12pm EDT), Thursday 17 June.

Hear from:

  • Keeanga-Yamahtta Taylor: Author of Race for Profit: How Banks and the Real Estate Industry Undermined Black Homeownership
  • Esther Stanford-Xosei: Jurisconsult, Pan-Afrikan Reparations Coalition in Europe (PARCOE).
  • Ronnie Galvin: Managing Director for Community Investment, Greater Washington Community Foundation and Senior Fellow, The Democracy Collaborative.
  • Chair, Aaron White: North American economics editor, openDemocracy

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