democraciaAbierta: Feature

‘Eu estava grávida e sem ter para onde ir’

Nove mulheres revelam os motivos que as levaram até o Brasil e quais foram suas experiências no país. Nem todas as histórias de migração são iguais.

17 Março 2021, 2.44
São Paulo, Brazil
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Minha história é muito longa. Eu não vou saber dizer os nomes de todos os países que eu passei desde que eu deixei a minha casa, mas eu enfrentei muitas dificuldades. Eu deixei o meu país não por causa da guerra em si, mas por causa de conflitos familiares. Minha família não tinha muito dinheiro. Quando o meu pai morreu, ele deixou algumas coisas, mas a sua família tirou tudo da minha mãe e de seus filhos. Nós ficamos desabrigados. Nós não tínhamos lugar para dormir, tínhamos que nos separar. Cada um ia dormir em um lugar diferente, e tentávamos nos juntar durante o dia.

Eu trabalhava vendendo celulares. Eu ganhava pouco, mas eu guardava o quanto eu podia para que um dia eu pudesse sair de lá. Um dia uma amiga disse que não conseguia mais continuar vivendo com as dificuldades de nosso país e que ela estava se preparando para partir. Eu também não aguentava mais minha vida lá. Eu olhava a situação da minha família e via que não estava funcionando. Nós não conseguíamos comprar arroz ou frango para comer. Eu preparei a minha mente para sair, mas sendo mulher e a filha mais nova, eu não podia contar para a minha mãe; ela não deixaria eu partir. No meu país, se você sai e desaparece por alguns dias, sua família vai pensar que algo de errado aconteceu e começar a pensar que você morreu.

Eu tinha 29 quando eu decidi sair. Eu escapei em um navio que estava vindo para o continente americano. Nós descemos no Equador, mas a situação era ruim por lá. Eles não tinham muita ajuda para a gente. Havia dois barcos saindo de lá, um para Cuba e outro para a Colômbia. Minha amiga e eu não tínhamos nenhum dinheiro para pagar a passagem, mas um homem no barco nos colocou no barco para a Colômbia, sem cobrar nada. Foi muito difícil para mim. Eu não sabia na época, mas quando eu deixei o meu país eu estava com quase quatro meses de gravidez. A viagem para a Colômbia durou quase dois meses, eu cheguei lá com seis meses de gestação. Quando eu cheguei na Colômbia, eu fui roubada, roubaram todo o nosso dinheiro e passaportes. Nós ficamos lá por dez dias. Eu dormi na rua, debaixo de uma árvore. Eu não tinha ninguém para ligar para pedir dinheiro.

Havia um homem que trabalhava levando migrantes entre os países. Ele viu que eu estava grávida. Eu disse para ele que estava sozinha, que o pai do meu filho não estava conosco. Ele gostou de mim e disse que iria me ajudar a sair de lá. Eu não paguei e também não tive que fazer nada com ele, Graças a Deus. Ele disse que eu não poderia ficar ali nas ruas por muito mais tempo, porque era muito perigoso para uma mulher grávida – alguém poderiam fazer algo comigo. Ele disse que me compraria uma passagem para o Peru. Ele fez tudo para mim. Ele me colocou num ônibus que me levaria para outro lugar, outro país que eu esqueci o nome, e depois eu chegaria no Peru.

Aquele homem havia me dito que eu deveria ir até São Paulo, no Brasil, e me deu um número de uma pessoa que levava migrantes até lá. Mas quando eu cheguei no Peru eu não tinha um telefone para ligar, então, eu comecei a pedir ajuda para as pessoas na rua. Eu pensei, ‘Como eu vou chegar em São Paulo?’ Eu não tinha nada comigo, nenhum real. Eu comecei a chorar na estação de ônibus. Eu estava grávida e sem ter para onde ir. Uma mulher brasileira, tia Linda, veio até a mim e disse que ela iria me ajudar. Ela disse: “Você cruza para Rio Branco e quando você estiver em Rio Branco eu vou colocar você em um ônibus para São Paulo”. Quando chegamos em Rio Branco, ela me levou até a sua casa. Eu conheci sua filha, Carina, e seu marido, João. Eu fiquei lá por cinco dias. Ela me perguntou se eu queria descansar e que depois ela me compraria uma passagem para São Paulo. Ela perguntou se eu tinha família lá. Eu disse não, mas que eu conhecia alguém que morava lá.

Tudo isso estava acontecendo e minha família ainda não sabia onde eu estava.

Quando eu cheguei em São Paulo, eu fiquei em um abrigo para migrantes. Eu estava exausta, ainda grávida. Uma africana no abrigo me disse que ela não poderia ficar no abrigo mais e que estava indo viver em uma ocupação. Eu não sabia o que era uma ocupação, mas ela me explicou. Eu disse: “Me leva com você, eu não posso ficar aqui”. Eu estava com oito meses de gestação.

A mulher que organiza a ocupação nos deu um quarto para viver. As coisas começaram a melhorar. A organizadora da ocupação me ajudou muito. Depois que meu filho nasceu, ela me deu um trabalho na cozinha da ocupação – ela disse que iria me pagar e eu poderia ficar perto do meu filho. Ela também me deixou ficar na ocupação sem precisar contribuir com dinheiro no início, assim eu conseguiria poupar um pouco de dinheiro. Tudo isso estava acontecendo e minha família ainda não sabia onde eu estava.

Quando eu comecei a ganhar um pouco de dinheiro, eu pensei, “agora eu vou começar a ajudar a minha família a ter uma casa”. Eu liguei para o meu irmão e perguntei se tudo estava bem. Ele começou a chorar no telefone. Ele pensou que eu havia morrido. Eu disse que estava no Brasil. Ele perguntou onde ficava o Brasil. Eu disse, na América Latina. Ele perguntou como eu havia chegado aqui. Eu disse que havia passado por muitas coisas, mas que estava viva, Graças a Deus.

Minha mãe pegou o telefone e começou a chorar. Todo mundo pensou que eu havia morrido. Na nossa cultura, quando alguém morre, eles chamam todo mundo para comer juntos, fazem café e lidam com a dor da perda. Eles haviam feito esse ritual em minha homenagem já. Eu perguntei onde a minha mãe estava vivendo. Ela disse: “Eu estou vivendo em uma igreja faz seis meses. Nós – a família – estamos espalhados, dormindo em igrejas”.

Eu disse: “Mãe, procure uma casa com quarto, banheiro e cozinha por cento e cinquenta dólares”. Naquela época cento e cinquenta dólares dava entorno de quinhentos reais. Eu pegava a minha contribuição na ocupação, que era de mil reais, e o restante eu podia mandar para eles pagarem o aluguel.

Eu mandei o dinheiro para a minha mãe, 300 dólares, fiz o depósito por dois meses. Eu nunca vou esquecer. Eu, a filha mais nova, pude ajudar a minha família. Eu pensava que as minhas irmãs mais velhas que iriam me ajudar na vida. Quando eu mandei esse dinheiro, minha mãe e todo mundo chorou. Eu consegui erguer a minha família.

N. M., sete anos no Brasil

Is it time to pay reparations?

The Black Lives Matter movement has renewed demands from activists in the US and around the world seeking compensation for the legacies of slavery and colonialism. But what would a reparative economic agenda practically entail and what models exist around the world?

Join us for this free live discussion at 5pm UK time (12pm EDT), Thursday 17 June.

Hear from:

  • Keeanga-Yamahtta Taylor: Author of Race for Profit: How Banks and the Real Estate Industry Undermined Black Homeownership
  • Esther Stanford-Xosei: Jurisconsult, Pan-Afrikan Reparations Coalition in Europe (PARCOE).
  • Ronnie Galvin: Managing Director for Community Investment, Greater Washington Community Foundation and Senior Fellow, The Democracy Collaborative.
  • Chair, Aaron White: North American economics editor, openDemocracy

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