democraciaAbierta: Opinion

Lula como reconciliador nacional

O ex-presidente é o único político brasileiro capaz de impor a paz em um país fraturado

Bernardo Gutiérrez
17 Outubro 2022, 12.00
Lula enfrentará o radicalismo de Bolsonaro em 30 de outubro
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Depois de perder três eleições presidenciais (1989, 1994 e 1998), Luiz Inácio Lula da Silva deu importantes passos táticos para sua última tentativa de chegar ao poder. Para a campanha eleitoral de 2002, Lula contratou o publicista Duda Mendonça para reformular seu discurso e comunicação política. Ele queria abandonar sua imagem como sindicalista e oposicionista separatista.

Lula lançou a Carta ao povo brasileiro, uma carta para seduzir aqueles que não se reconheciam como esquerdistas: "O Brasil quer mudar. Mudar para crescer, incluir, pacificar (...) Há em nosso país uma poderosa vontade popular de encerrar o atual ciclo econômico e político". A carta, descrevendo um quadro sombrio de corrupção e crise social, proclamou o fim de uma era: "o atual modelo esgotou-se".

Em meio à atual campanha eleitoral, a Carta ao povo brasileiro é uma espécie de déja invertido, um sinal do passado para reenquadrar o curso da história. "Lideranças populares, intelectuais, artistas e religiosos dos mais variados matizes ideológicos declaram espontaneamente seu apoio a um projeto de mudança do Brasil", declara a carta. Lula descreveu sua candidatura, como faz hoje, como um movimento "em defesa do Brasil". O slogan Lulinha paz e amor, que destacou o lado mais contido do candidato, estava profundamente enraizado.

A escolha de Zé Alencar, um empresário mineiro liberal, como candidato à vice-presidência, completou a estratégia. E Lula, o antigo guerreiro sindicalista que começou a usar gravata, ganhou a presidência brasileira. "Zé Alencar e eu não vamos ser um presidente e um vice. Nós vamos ser parceiros nos bons e nos maus momentos, vamos ser companheiros", disse Lula em seu primeiro discurso como presidente eleito.

A mídia destacou então a "moderação" de Lula. Seu tom conciliatório, ao invés de seu próprio programa claramente de esquerda, foi a chave para seu sucesso. Em 2022, os analistas políticos dizem que Lula hoje se parece mais com o homem que ganhou as eleições em 2002 do que com qualquer outra versão de si mesmo. A "unificação" e a "ordem" dominam seus discursos.

Como em 2002, a atual candidatura de Lula está ligada a um mecanismo profundamente enraizado na política brasileira: a conciliação

Apesar das semelhanças, as diferenças entre Lula 2002 e Lula 2022 são notórias. Em um cenário brutalmente polarizado, o lema "paz e amor" de Lula se baseia em uma mistura de discursos. Diante do presidente, Jair Bolsonaro, Lula adota posições específicas e vigorosas.

Mesmo assim, as semelhanças entre as candidaturas de Lula em 2002 e 2022 são grandes. E tem pouco a ver com a crise política, econômica e social que, então e agora, atingiu o Brasil. Estão relacionadas a um mecanismo que, desde a proclamação da independência até a chegada de Lula ao poder, está profundamente enraizado na política brasileira: a conciliação.

O homem cordial

Em 7 de setembro de 1822, após várias revoltas armadas que levaram à independência da maioria dos países latino-americanos, o Brasil declarou sua separação de Portugal. Embora a independência tenha sido precedida por algumas alterações armadas, a substância e a forma eram diferentes do resto da região: foi o próprio príncipe regente do Brasil, Pedro I, que trouxe a independência.

Dom Pedro, desobedecendo a sua linhagem e Lisboa, tornou-se imperador do Brasil. Em 1847, o imperador Pedro II criou o Ministério da Conciliação, um órgão para aproximar as forças conservadoras e liberais. A abolição tardia da escravidão, em 13 de maio de 1888, também veio à brasileira: sem uma revolta violenta ou derramamento de sangue excessivo.

O método de conciliação continuou durante todo o século 20. E germinou como um dos mitos fundadores do país. Em 1936, Sérgio Buarque de Holanda, em seu ensaio Raízes do Brasil, definiu a “raça brasileira” como “homem cordial”. Embora o conceito problematizava, entre outras coisas, a confusão entre o público e o privado, a cordialidade surgiu como uma forma de lidar com os problemas. Não dizer "não" diretamente, contornando o conflito, assegurando a dissensão a fim de chegar a um consenso sobre as decisões.

Foi precisamente na década de 1930 que nasceu o chamado Estado de Compromisso. Getúlio Vargas, o maior líder político brasileiro do século 20, iniciou assim uma espécie de ideal político brasileiro, independente de ideologias e partidos políticos. Algo semelhante ao que é conhecido hoje como governabilidade. A conciliação também é um mecanismo para evitar rupturas e fortes mudanças na estrutura econômica. Poupar distâncias, o "mudar tudo para não mudar nada".

A ascensão de Lula ao poder em 2002 não pode ser entendida sem uma ancoragem no mecanismo histórico de conciliação. Lulinha paz e amor — lema, verso, projeto — conectado com o subconsciente coletivo de todo um país. Invocava um profundo anseio de paz social, tão eternamente inacabado quanto inspirador.

A campanha de 2022, entre outras coisas, apresenta a oportunidade para que o Brasil retorne ao caminho da conciliação. Lula, ao colocar o conservador Geraldo Alckmin como seu candidato a vice-presidente, está voltando à sua fórmula mágica. Ele está confiante de que um candidato como Bolsonaro, que vai contra a ideologia política brasileira por excelência, a conciliação, não conseguirá vencer novamente.

Reconciliação

No final do segundo mandato de Lula, o artista Raul Mourão lançou uma série de bonecos de pelúcia retratando o então presidente. Seu trabalho explorou o fenômeno Lula — as emoções que ele provocou. O então presidente, que desfrutou de um índice de aprovação muito alto, desencadeou fúria, amor e idolatria em todo o país. O que aconteceria se saíssemos para distribuir bonecos de pelúcia do Lula nas ruas, perguntei ao artista. Que emoções ele suscitaria? "Carinho, seguramente; ele é mais um membro da família", respondeu ele.

Lula conseguiu retratar a disputa como uma luta entre a democracia e o autoritarismo

Após a perseguição judicial que levou Lula a passar 580 dias na prisão, sua imagem foi danificada. Apesar das paixões que ele desperta, Lula não é mais o político que deixou a presidência com uma taxa de aprovação de 87%. A polarização com Bolsonaro, para a qual o PT também contribuiu, diluiu subitamente a imagem de Lulinha paz e amor.

Por alguns anos, o Lula da oposição, de discursos duros e identidade vermelha, retornou ao cenário. E Bolsonaro atacou o Lula do passado que não venceu as eleições. Em tempos de fake news e de emoções viscerais, a rejeição a Lula está crescendo. Bolsonaro continua a ser repudiado por mais de 50% dos brasileiros. Mas Lula, uma vez amado pela grande maioria, já excede 40% de rejeição na maioria das pesquisas.

O redesenho de Lula da campanha eleitoral de 2022 é estratégico. A criação de uma frente democrática, mais narrativa do que factual, desconfigura a batalha dos extremos que o bolsonarismo alimenta. Lula conseguiu retratar a disputa como uma luta entre a democracia e o autoritarismo. O movimento tático, estratégico e narrativo, por enquanto, está funcionando. Entretanto, a chave pode estar na sutil nuance semântica que diferencia a reconciliação da conciliação.

Lula, com discursos apelando para a paz, a tranquilidade e a reconciliação familiar, está tocando um acorde. A virulência dos últimos anos no Brasil não apenas amolgou seu tecido institucional, mas deixou feridas abertas na maioria das famílias do país. Lula, falando em reconciliação, está abrindo o caminho para que o país cure suas feridas.

Após a reconciliação, um processo que pode levar anos, uma nova era começará para o Brasil.

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