democraciaAbierta: Analysis

Migrantes guatemaltecos massacrados no México: por quê?

O recente assassinato de 19 migrantes em Tamaulipas mostra que as rotas migratórias para os EUA podem ser armadilhas mortais.

Max Radwin
2 Março 2021, 12.00
Comemoração do 10º aniversário do massacre de 72 migrantes em Tamaulipas, México, em 22 de agosto de 2020
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Jair Cabrera/NurPhoto/PA Images

A descoberta de 19 corpos baleados e incinerados em um estado fronteiriço do México perto do Texas é um lembrete macabro de que os migrantes levados ilegalmente para os Estados Unidos são alvos da violência de cartéis.

As vítimas – posteriormente identificadas como guatemaltecas – foram descobertas em Tamaulipas, um estado de fronteira onde o trânsito de migrantes é comum. O estado também é território do Cartel do Golfo e do Cartel do Nordeste, dissidentes do outrora poderoso Los Zetas.

Autoridades descobriram a cena horripilante após receberem, em 22 de janeiro, denúncia de um veículo em chamas no município de Camargo. Um segundo veículo incendiado também foi encontrado no local. Os corpos estavam tanto na cabine como amontoados na caçamba da camionete, informaram agentes de segurança mexicanos em um comunicado de imprensa. Antes de serem queimadas, as vítimas foram baleadas.

Como não encontraram cartuchos no local, as autoridades acreditam que as vítimas foram mortas em outro lugar e posteriormente transferidas.

Embora não tenha havido confirmação oficial de que os corpos fossem os 19 migrantes que viajavam da Guatemala, seus familiares declararam que o coiote encarregado da viagem confirmou que eram eles. Alguns familiares estão alegadamente enviando amostras de DNA para verificação.

O fato motivou comparações com massacres anteriores, que se tornaram comuns na região de Tamaulipas na última década. O mais notável deles foi o Massacre de San Fernando em 2010, no qual 72 pessoas, muitas delas migrantes da América Central e do Sul, foram baleadas na cabeça e abandonadas em um armazém de propriedade do Cartel Los Zetas. Um ano depois, houve um “segundo” massacre de San Fernando, no qual 193 pessoas foram retiradas dos ônibus em que viajavam, mortas e enterradas em valas comuns.

Desde então, outros massacres ocorreram no estado, incluindo o de 21 integrantes de um cartel em 2019 que foram fuzilados e incinerados no município de Miguel Alemán.

Neste caso, chama a atenção que o coiote tenha ficado livre e que pudesse até mesmo alertar as famílias na Guatemala sobre o assassinato de seus entes queridos

O presidente Andrés Manuel López Obrador prometeu reduzir drasticamente esse tipo de violência no país através de “recursos ilimitados” para a busca de valas comuns.

“Não é um San Fernando”, disse a secretária do Interior Olga Sánchez Cordero sobre os 19 migrantes assassinados, “porque estamos avançando na investigação de forma contundente. Não haverá impunidade”.

Análise

Embora ainda haja muita incerteza sobre o motivo da matança, os migrantes estavam em uma rota perigosa controlada por poderosos grupos criminosos do México.

Os coiotes geralmente precisam pagar cartéis para passar por seu território. Dívidas não pagas resultaram em muitos massacres anteriores em Tamaulipas. Mas, neste caso, chama a atenção que o coiote tenha ficado livre e que pudesse até mesmo alertar as famílias na Guatemala sobre o assassinato de seus entes queridos.

É possível que o coiote estivesse trabalhando com um dos cartéis, entregando os migrantes para trabalhos forçados e matando-os quando se recusaram. Os migrantes são presas fáceis para esse tipo de operação de tráfico de pessoas, uma vez que não têm família no México, não estão familiarizados com o terreno e raramente vão às autoridades para denunciar crimes.

Os cartéis também podem usar os migrantes para saldar dívidas com os rivais, deixando corpos em espaços públicos como um sinal de seu poder. Um defensor dos direitos humanos em Tamaulipas, que falou sob a condição de anonimato por motivos de segurança, disse que o envolvimento da polícia no incidente também precisa ser considerado.

Os massacres em Tamaulipas provavelmente continuarão a ocorrer enquanto as autoridades continuarem a não processar os responsáveis

Embora a alegação permaneça infundada neste caso, existem precedentes no México que indicam que é possível. Durante o segundo Massacre de San Fernando, por exemplo, provas mostram que a polícia auxiliou nas tarefas de vigilância e no sequestro de algumas vítimas.

Outro fator que contribui para a violência pode ser a ação das autoridades contra os migrantes que passam pelo território mexicano.

Em vez de direcionar patrulhas apenas para os pontos de fronteira, o governo de López Obrador instalou postos de controle adicionais e enviou tropas de soldados para regiões em que os migrantes costumam viajar em ônibus ou em caravanas. Isso cria "pontos de passagem forçada", onde as autoridades esperam para prender as pessoas, o que força os migrantes a buscar novas rotas.

"É um dilema que o atual governo enfrenta", disse Ariel Ruiz, do Migration Policy Institute. “O governo de López Obrador busca priorizar os direitos humanos dos migrantes na implementação de sua agenda, mas o uso da Guarda Nacional nas operações de controle migratório mudou as decisões dos migrantes, o que dá origem a rotas e condições mais arriscadas”.

Os massacres em Tamaulipas provavelmente continuarão a ocorrer enquanto as autoridades continuarem a não processar os responsáveis, devido à incapacidade ou omissão. Raramente os massacres levam a prisões, muito menos a condenações. E obter informações do governo pode levar anos, como explica Ana Lorena Delgadillo, diretora da Fundação para a Justiça e o Estado Democrático de Direito, com sede no México.

“Não existe uma estratégia real para investigar e desmantelar essas redes criminosas”, disse Delgadillo.


Este artigo foi publicado anteriormente em InSight Crime e traduzido ao português pelo openDemocracy/democraciaAbierta. Leia o original em espanhol aqui e em inglês aqui.

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