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‘Os homens podem até falar ‘ela é uma mulher sem valor’, mas eu tenho que fazer isso’

Nove mulheres revelam os motivos que as levaram até o Brasil e quais foram suas experiências no país. Nem todas as histórias de migração são iguais.

17 Março 2021, 2.58
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Eu sou mãe de cinco crianças e avó de uma neta. Quando penso sobre liberdade, minha questão principal é que – como migrante e mãe – eu tenho que passar por várias dificuldades e barreiras, inclusive financeira. As pessoas vão falar “você só precisa conseguir um emprego formal”, mas quando você tem filhos e não há como cuidar deles, a dificuldade vai além de ter um emprego formal ou não. Meus filhos são muito pequenos e eu tenho adolescentes também. Eu quero cuidar bem deles, mas não vou conseguir se eu sair cedo de manhã e voltar apenas a noite. Não tem ninguém para tomar conta deles. É por isso que eu sempre trabalho como autônoma – assim tenho tempo de cuidar da minha família. Minha vida tem sido bem difícil no Brasil porque não tenho apoio financeiro aqui.

A situação é ainda muito mais crítica e pesada para os africanos. Eu vou ser honesta com você, tem uma diferenciação aqui, na forma como tratam imigrantes. Por exemplo, quando eu vejo famílias venezuelanas ou sírias, percebo que eles recebem muito mais apoio. Alguns podem até dizer que isso acontece porque, historicamente, sírios têm comunidades no Brasil e por isso vão ajudar uns aos outros. Mas não! Eu tenho amigos Sírios e converso com eles. Não é porque eles têm comunidades maiores – eles recebem ajuda de brasileiros que os aceitam, que os “adotam”, falando “eu serei sua madrinha” ou “eu serei seu padrinho”. Eu não estou dizendo que eu quero que as pessoas sejam ou venham a ser padrinhos para os africanos também, mas eu penso que o jeito de tratar as pessoas deve ser o mesmo.

Na minha cultura, eu não devo me expor – dançando profissionalmente, como eu faço. Homens falam, “Ela é uma mulher sem valor”, mas eu tenho que fazer isso. Eu tenho que trazer o pão para casa. Aqueles que não me conhecem vão me criticar, mas é assim que as coisas são. Você precisa fazer de tudo para conseguir criar seus filhos. E, com alguns brasileiros, há muita hipocrisia, falam que estão lutando e trabalhando pelos direitos dos imigrantes, falam que estão lá pelos imigrantes, mas quando se trata de famílias e mulheres africanas, nós não recebemos muito apoio dessas pessoas. Tem uma diferença na forma como nos tratam. Você se vê sozinha, só você e suas crianças e pensa, “meu Deus, eu não acredito”.

Aqueles que não me conhecem vão me criticar.

Eu estou conseguindo dar conta, pagar minhas contas, mas é difícil. Eu estou trabalhando com uma ONG, mas o contrato com eles terminou agora em dezembro. Eu estou fazendo vídeos falando sobre racismo, sobre violência sexual. Com o que eles me pagam, eu uso no aluguel. Há momentos que consigo um pouco de dinheiro, mas ele acaba rapidamente. Eu não estou falando que as pessoas têm que me pegar para serem minhas madrinhas, mas precisam me dar oportunidades, precisam apoiar uma mãe de família. Porque, às vezes, preciso me dividir em 10 pedaços para ter acesso ao básico. Até na Bíblia fala que quem pede deve receber. Eu preciso de oportunidades. Preciso que as pessoas respeitem meu trabalho. Faço muito trabalho pelos quais as pessoas pagam muito pouco no final.

Eu vivo numa bagunça. Eu fico devendo aqui para pagar uma dívida ali. Depois, eu pago a dívida lá e fico devendo em outro lugar. Eu vivo numa bagunça, mas consigo ficar de pé. Eu não posso mandar dinheiro para minha família, na minha terra. Eu consegui fazer isso apenas algumas vezes, quando eu mando dinheiro para o meu pai porque ele está muito, muito doente, meu irmão me liga e fala, “Papai está na cama, ele não está se levantando, por que você não está enviando dinheiro? Nós vemos seus vídeos nas redes sociais”. Eles não sabem, eles não acreditam que não tenho dinheiro. É difícil porque minha imagem é de uma pessoa exibida. Mas, financeiramente, não é assim. Agora, por exemplo, eu preciso enviar dinheiro para o meu pai poder comprar comida, mas não tenho nem o suficiente para comprar comida para os meus filhos. Como vou comprar comida para o meu pai? Minha tia também me enviou mensagens recentemente. Ela tem me ligado bastante nesses dias. Ela se preocupa comigo e pergunta o porquê de eu não estar respondendo, no fim ela também acaba pedindo dinheiro; isso me machuca.

Eu estou pensando em trazer minha mãe para o Brasil, assim posso ir trabalhar sem depender de outras pessoas para cuidar das minhas crianças. Assim, poderia ir trabalhar o dia inteiro sabendo que há um adulto em casa. Minha filha tem 18 anos, ela cuida dos irmãos menores por mim, mas há dias em que ela quer ir embora e sair. E, quando ela sai, a irmã de 12 anos que fica encarregada em cuidar dos outros. O que as pessoas falariam se vissem isso? Que eu sou uma mãe que sai e abandona seus filhos. Eu já vi na mídia que alguns migrantes têm recebido ajuda para trazer seus parentes para o Brasil. Esses migrantes, que vivem sozinhos, receberam ajuda e conseguiram trazer suas famílias. Eu quero ter esse tipo de ajuda também. Eu preciso desse apoio porque minha situação está bem difícil. Eu não tenho liberdade aqui.

Eu enviei dinheiro para uma ONG no Congo, eles me ajudaram a fazer o passaporte da minha mãe. A ONG me ajudou a conseguir o passaporte dela, mas me falaram que o Consulado Brasileiro estava complicando as coisas para pessoas que estava pedindo um visto de reunião familiar. O visto dela foi recusado. A pessoa lá nem olhou para a cara dela, apenas recusaram. Eu estou muito triste. Todo mundo com quem você fala aqui diz que o Consulado do Brasil no Congo está com problemas internos – eles não sabem o que é, mas não estão aprovando vistos. Eu quero saber. Por que é tão difícil para as pessoas congolesas conseguirem algo que é de seu direito, como um visto para se renuir com sua família?

O que o mundo quer? Eles querem que você vá na televisão e faça um vídeo falando “eu estou com problemas”. Depois chegam com 10 câmeras para mostrar o quanto você está sofrendo – como você está dormindo mal, no chão da sua casinha pequena. Eu não quero ter que fazer isso para receber ajuda. Eu tenho minhas dificuldades, mas eu não quero ter que passar por essa humilhação na TV, onde vão falar “ela estava morando aqui, nesse lugar horrível e agora nós a ajudamos...”.

Não! Eu quero mostrar que sou um ser humano como todo mundo. Todo mundo tem suas dificuldades e todo mundo deveria receber apoio. Eu não quero ter que sair batendo nas portas da mídia para mostrar para o mundo que estou passando por dificuldades para que me ajudem.

P. K., doze anos no Brasil

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