Eu sou mãe de cinco crianças e avó de uma neta. Quando penso sobre liberdade, minha questão principal é que – como migrante e mãe – eu tenho que passar por várias dificuldades e barreiras, inclusive financeira. As pessoas vão falar “você só precisa conseguir um emprego formal”, mas quando você tem filhos e não há como cuidar deles, a dificuldade vai além de ter um emprego formal ou não. Meus filhos são muito pequenos e eu tenho adolescentes também. Eu quero cuidar bem deles, mas não vou conseguir se eu sair cedo de manhã e voltar apenas a noite. Não tem ninguém para tomar conta deles. É por isso que eu sempre trabalho como autônoma – assim tenho tempo de cuidar da minha família. Minha vida tem sido bem difícil no Brasil porque não tenho apoio financeiro aqui.
A situação é ainda muito mais crítica e pesada para os africanos. Eu vou ser honesta com você, tem uma diferenciação aqui, na forma como tratam imigrantes. Por exemplo, quando eu vejo famílias venezuelanas ou sírias, percebo que eles recebem muito mais apoio. Alguns podem até dizer que isso acontece porque, historicamente, sírios têm comunidades no Brasil e por isso vão ajudar uns aos outros. Mas não! Eu tenho amigos Sírios e converso com eles. Não é porque eles têm comunidades maiores – eles recebem ajuda de brasileiros que os aceitam, que os “adotam”, falando “eu serei sua madrinha” ou “eu serei seu padrinho”. Eu não estou dizendo que eu quero que as pessoas sejam ou venham a ser padrinhos para os africanos também, mas eu penso que o jeito de tratar as pessoas deve ser o mesmo.
Na minha cultura, eu não devo me expor – dançando profissionalmente, como eu faço. Homens falam, “Ela é uma mulher sem valor”, mas eu tenho que fazer isso. Eu tenho que trazer o pão para casa. Aqueles que não me conhecem vão me criticar, mas é assim que as coisas são. Você precisa fazer de tudo para conseguir criar seus filhos. E, com alguns brasileiros, há muita hipocrisia, falam que estão lutando e trabalhando pelos direitos dos imigrantes, falam que estão lá pelos imigrantes, mas quando se trata de famílias e mulheres africanas, nós não recebemos muito apoio dessas pessoas. Tem uma diferença na forma como nos tratam. Você se vê sozinha, só você e suas crianças e pensa, “meu Deus, eu não acredito”.