democraciaAbierta: Analysis

Por que os militares estão perdendo a guerra pela Amazônia

Brasil, Colômbia e Peru enviaram tropas à floresta para coibir atividades ilegais – mas sem sucesso.

InSight Crime
10 Maio 2021, 3.52
Caminhões carregados com troncos de árvores são queimados durante operação de combate à mineração e extração ilegal de madeira no município de Novo Progresso, no Pará, em abril de 2016
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Ueslei Marcelino/REUTERS/Alamy Stock Photo

Décadas de inação e ineficiência no combate a crimes ambientais na Amazônia levaram o Brasil, Colômbia e Peru a tomar medidas cada vez mais drásticas: enviar tropas militares para a selva a fim de frear o tráfico de madeira, a mineração ilegal e outras economias predatórias.

No entanto, a Amazônia continua a ser devastada a taxas alarmantes.

As operações militares mais recentes nesses países mal fizeram uma diferença significativa.

A Colômbia, que em 2019 anunciou o uso de militares para conter o desmatamento, registrou vastas extensões de floresta destruída, apesar do envio de soldados durante a Operação Artemisa. No Peru, as tropas militares enviadas para expulsar mineiros em Madre de Dios ficaram aquém da destruição de 10 mil hectares de selva em 2019. E a Operação Brasil Verde, liderada pelo presidente brasileiro Jair Bolsonaro, lançada em agosto de 2019 – após os incêndios na Amazônia que captaram atenção mundial – não teve os efeitos esperados em sua segunda fase.

Em realidade, o envolvimento militar pode ter piorado a situação em alguns casos. Na Colômbia, os conflitos entre o exército e alguns grupos armados ilegais fazem de reféns dezenas de comunidades rurais e indígenas. No Brasil, a falta de treinamento especializado torna virtualmente impossível para os soldados impedir a extração ilegal de madeira.

A seguir, a InSight Crime apresenta uma análise detalhada das causas das tentativas malsucedidas de evitar o desmatamento na Amazônia por meio do uso de tropas militares.

A floresta como campo de batalha: falta de treinamento especializado

Apesar de Bolsonaro colocar os militares na vanguarda das intervenções para combater o crime ambiental na Amazônia brasileira, os resultados não corresponderam às expectativas, de acordo com uma reportagem da Reuters publicada em março.

O problema de ter militares liderando a luta contra o crime ambiental e o desmatamento é que não é uma função distinta de uma força de combate

Pilhas de castanheira-do-Brasil, uma espécie ameaçada, foram passadas como jequitibá, uma árvore que pode ser cortada legalmente e é amplamente utilizada para fazer móveis. Embora as autoridades ambientais sejam capazes de fazer essas distinções, os militares muitas vezes não são, como um funcionário do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (IBAMA) disse à Reuters.

Órgãos como o IBAMA vem enfrentando cortes orçamentários significativos. Bolsonaro até autorizou o exército a operar em nome do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Quando questionado sobre a capacidade do exército de combater uma variedade de crimes ambientais, um porta-voz do Ministério da Defesa disse ao InSight Crime por e-mail que as autuações e apreensões feitas durante Operação Brasil Verde 2 foram colocadas sob a "jurisdição exclusiva" dos agentes dos órgãos de proteção ambiental que acompanham as tropas nas missões.

O problema de ter militares liderando a luta contra o crime ambiental e o desmatamento é que não é uma função distinta de uma força de combate.

Na Colômbia, por exemplo, o exército já tem a tarefa de desmantelar as organizações do narcotráfico e de combater os grupos armados não estatais. O fardo adicional de proteger as áreas de floresta do país gerou descontentamento entre suas próprias fileiras, de acordo com La Silla Vacía.

Um soldado aposentado disse que os soldados acham que a Operação Artemisa deveria ser responsabilidade da Polícia Nacional. E um alto funcionário do governo do setor de defesa revelou que alguns comandantes do exército relutaram em combater crimes ambientais em vez de atacar estruturas armadas ilícitas.

Tiro no escuro: sem inimigos visíveis

As forças militares são frequentemente treinadas para identificar e perseguir inimigos específicos. No combate aos crimes ambientais, nem sempre está claro quem é o adversário. Muitas vezes, as tropas chegam quando o dano está feito e o rastro dos perpetradores é praticamente inexistente.

As tentativas militaristas de proteger o meio ambiente apresentavam o risco de que os soldados considerassem a população local como “invasora” e a transformassem em alvos militares

Alguns agentes do IBAMA disseram à Reuters que depois de viajar quatro horas para interceptar madeireiros ilegais perto do Rio Novo, soldados e membros do IBAMA chegaram a um local desmatado e abandonado.

A Reuters também revelou a grande variedade de atores envolvidos na destruição das florestas tropicais.

Primeiro, os madeireiros ilegais cortam e tiram a madeira mais valiosa, depois os camponeses ocupam a terra, destruindo o que resta. Também são forjados títulos de terra e escrituras para facilitar a ocupação das propriedades, afirma a reportagem.

Embora possa parecer que por trás disso existe uma complexa rede de crime organizado, nem todos os atores têm a mesma responsabilidade. Os camponeses mais vulneráveis ​​ocuparam a Amazônia como forma de subsistência.

Enquanto isso, os ilegais empregam a população rural para limpar vastas áreas de cultivo de coca e construir pistas clandestinas para aviões de tráfico. Grupos criminosos ordenaram às comunidades locais que cortassem e queimassem árvores em áreas de reserva da região amazônica para abrir caminho para campos de coca.

Isso pode criar confusão sobre quem exatamente deve ser o alvo central das intervenções militares, e os residentes correm o risco de serem pegos no fogo cruzado. Habitantes do departamento de Meta, na Colômbia, disseram à BBC Mundo que a Operação Artemisa deixou camponeses presos no meio da “guerra”, com parte de seus rebanhos perdidos e famílias inteiras despejadas de suas casas.

Um relatório de 2020 da Fundación Ideas para la Paz (FIP) alertou que as tentativas militaristas de proteger o meio ambiente apresentavam o risco de que os soldados considerassem a população local como “invasora” e a transformassem em alvos militares. Tudo isso aconteceu enquanto 98 mil hectares de selva na floresta amazônica foram derrubados no decorrer de 2019.

Visando os elos mais fracos da cadeia

No início de março, a Mongabay relatou a captura de 68 pessoas no âmbito da Operação Artemis, em dezembro de 2020, citando dados do Comando Geral das Forças Militares da Colômbia. Mas uma fonte anônima do Gabinete do Procurador-Geral disse à mídia que nenhum dos capturados era um "grande financiador" do desmatamento.

Esse padrão se repete em toda a Amazônia. Na região de Madre de Dios, no Peru, pequenos mineiros informais foram alvo da Operação Mercurio. No entanto, os empreendedores que lavam ouro obtido ilegalmente por meio de empresas de papel são muito mais difíceis de capturar do que aqueles que o extraem.

Por outro lado, embora o exército brasileiro tenha assumido um papel mais proeminente na proteção das florestas amazônicas, o Ibama não conseguiu processar os principais responsáveis das redes dedicadas à extração ilegal de madeira e mineração, segundo autoridades locais falaram à Associated Press no ano passado. Os delegados também revelaram como os vendedores de carne que compram gado de áreas desmatadas operam livremente na região.


Este artigo foi originalmente publicado pela InSight Crime. Leia o original aqui.

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