Uma das incontáveis mudanças que a pandemia de Covid-19 (SRA-Cov-2) trará ao mundo será na forma como medimos a saúde econômica das nações. Será cada vez mais evidente, especialmente no mundo emergente, que o PIB mede o tamanho da economia, mas não reflete necessariamente a prosperidade ou o progresso de um país. Além disso, a ênfase excessiva em focar apenas no PIB e nos ganhos econômicos para medir o desenvolvimento leva a ignorar os efeitos negativos do PIB sobre a sociedade. Isto produz distorções profundas na concepção de políticas públicas destinadas a aliviar as necessidades sociais básicas, especialmente no caso de economias emergentes.
Contraprodutividade: uma nova categoria essencial para a análise
Devemos a Ivan Illich o uso de uma das categorias mais importantes de análise do nosso tempo: o conceito de contraprodutividade. A contraprodutividade descreve um fenômeno característico dos mercados desregulamentados e da pós-industrialização tardia. Refere-se ao fato de que, uma vez ultrapassados determinados limiares, o funcionamento de instituições, instrumentos ou mesmo atividades econômicas acaba gerando fins prejudiciais e contrários aos originalmente esperados através de tais instituições, instrumentos ou atividades.
Como exemplo de contraprodutividade, Illich referiu-se ao caso do transporte. Originalmente concebido para melhorar nossa mobilidade, uma vez ultrapassado um certo limite, o transporte motorizado não só não reduz, como aumenta o tempo dedicado à mobilidade. A invenção do automóvel também deu origem a um certo desenho urbano que eliminou o ato autônomo de trânsito baseado no uso das pernas dos pedestres. Se o objetivo dos automóveis era aumentar nossa autonomia móvel, a verdade é que seu efeito acabou sendo exatamente o oposto.