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O ocaso do petismo (Parte 2): as tarefas urgentes da esquerda

O “Vão-se todos embora” e as “Eleições Já”, são coerentes com o que exige a situação no Brasil, mas chocam com a inexistência duma organização popular que o apoie. English Español

José Carlos Freire
7 April 2016
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Manifestaçao de apoio a Lula da Silva e Dilma Roussef em Sao Paulo, Brasil, 2016. Andre Penner /AP/Press Association Images. All rights reserved.

A esquerda tem sempre tarefas permanentes por realizar. Contudo, nalguns contextos, como no caso do Brasil atual, as mesmas emergem de forma mais urgente.

Poderíamos resumi-las em três grandes tarefas. A primeira, a necessidade de esforçar-se por distinguir as coisas de forma crítica. A segunda tarefa consiste em conservar a experiência original do PT de base e ao mesmo tempo superar o mito Lula. A terceira tarefa passa por colocar o acento na formação política, a vinculação a coletivos de luta e a aposta pela juventude.

Esforçar-se por distinguir as coisas de forma crítica

“Buscar a real identidade na aparente diferença e contradição, e procurar a substancial diversidade sob a aparente identidade é a mais delicada, incompreendida e, contudo essencial virtude do crítico das ideias e do historiador do desenvolvimento histórico”

 (Antonio Gramsci)

Na avalanche de coisas que a conjuntura nos lança a cada dia, a cada hora quase, torna-se difícil compreender quem é quem e que jogo é jogado. Esta dificuldade é tanto maior quanto for o isolamento do militante de esquerda. Aponto apenas três elementos que me parecem urgentes para fomentar o debate. Claro que há muitos outros. Primeiramente, parece-me fundamental superar a aparente associação que é feita entre oposição ao governo do PT e negação das conquistas realizadas desde 2002 no plano social. Ser contrário ao governo não é o mesmo que negar o avanço representado pela inclusão de jovens pobres e de negros na Universidade, a expansão do ensino superior público, o debate e ações em torno da diversidade afetivo-sexual, o enfrentamento da violência contra a mulher, a demarcação de terras indígenas e quilombolas, ainda que insuficientes. Estas conquistas, inclusive, não podem ser atribuídas exclusivamente ao governo, mas também à luta histórica de movimentos diversos que por elas batalharam. A saída para esta confusão de ideias parece estar em compreender que a correlação de forças, políticas e econômicas, nacionais e internacionais, permitiu este avanço em um momento, agora não permite mais, mesmo com toda a retórica de luta empreendida por Lula. E não se trata de um agora imediato: a inflexão já se acentua desde o primeiro mandato de Dilma.

Um segundo ponto é a insistência quase religiosa dos setores governistas em opor o programa do PT ao do PSDB como extremos. Ressalvadas as origens dos dois partidos e sua composição, programaticamente situam-se na defesa da mesma ordem burguesa. Deste imbróglio, resultam as propostas capitaneadas, mas não monopolizadas, por atores como a CUT e a UNE: apoio ao governo e cobrança por mudança no modelo econômico para favorecer os trabalhadores, como se fossem ações convergentes e não opostas. O caso do MST é a dor mais doída, não apenas por sua demora em romper com o lulismo que se prolonga demais, mas porque guarda em suas bases uma experiência de formação e organização e um potencial de lutas enormes. A saída dessa confusão parece ser a necessidade de se colocar em primeiro plano o posicionamento de classe e não o posicionamento de poder, da qual decorrerá a constatação de que, substancialmente, PT e PSDB não se diferem mais.

Em terceiro, tomado aqui de modo muito genérico, refiro-me ao conceito de bloco histórico, entendido como o modo pelo qual economia, política e ideologia se articulam no interior de uma sociedade em um período histórico determinado. Corremos o risco, numa leitura apressada, de afirmar que achegada de Lula à presidência inaugurou um novo bloco histórico, este mesmo que a elite brasileira e seus órgãos de imprensa estariam propondo agora o fechamento por meio de um golpe. No entanto, se atentarmos para o fato de que, para chegar ao poder, o PT teve, como nos mostra detalhadamente Mauro Iasi em seus estudos, de negociar seu programa e abrir mão de seu caráter socialista, concluiremos que o breve intervalo petista não alterou o capítulo burguês pós-64. Em outros termos, o bloco histórico pós-golpe militar consolidou, dito aqui sem maiores aprofundamentos, um tipo de capitalismo dependente no Brasil que mesmo a redemocratização e a ascensão do PT ao poder não conseguiram alterar. Aliás, Lula foi um agente, naquele momento, necessário exatamente para combinar desigualdade social interna administrada por benefícios sociais e aumento do crédito – estas mesmas medidas que ele cobra hoje do Governo Dilma – com alta lucratividade do grande capital nacional e, principalmente, internacional.

Ocorre que dentro de um bloco histórico, pode haver pequenos intervalos que não invalidam a lógica dominante. Quando um intervalo termina (“já é amanhã, meus senhores”), não significa que há um novo bloco, apenas a continuidade do que já estava afirmado.  A suposta ruptura que o PT teria representado na sociedade brasileira – propagandeada pelo ideário do novo-desenvolvimentismo e conceitos similares – nada mais foi que uma variação no modo e na intensidade como a burguesia brasileira administra o país desde 1964, ali sim, o início de um bloco histórico que não está nem de longe ameaçado de ruir. Só ruirá quando houver real enfrentamento da dominação burguesa pela organização popular e discussão efetiva de nossos problemas estruturais. Fora isso, se é Lula, se é Dilma, se é Temer ou se é Aécio, trata-se apenas de escalação diferente para o mesmo time. Lula, outrora atacante e artilheiro, caiu para zagueiro, gandula e, por fim, é convidado a se retirar do campo e do estádio. O jogo continuará. Agora, é melhor sem ele. Mas o mercado da bola transforma vilões em heróis. Nas curvas nebulosas da política brasileira, poderá ele ser ainda contratado? Desconfio que não. Ele parece apostar que sim. De qualquer modo, ironicamente, os torcedores deste grande espetáculo futebolístico vestem a camisa da ilibada e altamente respeitada CBF. O povo brasileiro, bem, este permanecerá de fora, recolhendo latas amassadas.

Conservar a experiência original do PT de base e superar o mito Lula

Aufheben era o verbo que Hegel preferia, entre todos os verbos do idioma alemão. Aufheben significa, ao mesmo tempo, conservar e anular; e assim presta homenagem à história humana, que morrendo nasce e rompendo cria”  

(Eduardo Galeano)

A superação de Lula como mito messiânico que resolverá todos os problemas precisa ser enfrentada com coragem e seriedade pela esquerda. Mito se supera com leitura histórica concreta. Ainda que se safe no tribunal da Lava Jato, naquele que é mais importante para nós, o tribunal da luta concreta dos trabalhadores, neste, Lula perdeu em todas as instâncias, ainda que tenha entrado com muitos recursos que precisem ser analisados. Será o processo difícil de superação de um mito. Mas nem mesmo mil discursos inflamados de Lula podem abalar a convicção daqueles que com seriedade, sem demagogia e sem pragmatismo político empreendem uma busca efetiva por transformação social no Brasil. Ouvir Lula, é certo, é sempre um risco. Alquimista da política, ele enfeitiça.

No entanto, Lula não esgota tudo o que foi o PT. Nesse sentido, a experiência original de base do partido é algo que precisamos revisitar, de modo crítico. Ainda que se considere que desde o início a cúpula sindical sempre se pautou pelo modelo de conciliação, verdade é que nas comunidades, nos núcleos de base a experiência do partido como construção popular foi rica e representa um dos momentos mais significativos da nossa história. E isto não se deu apenas nas regiões industriais, entre a parcela proletarizada dos trabalhadores brasileiros. Deu-se também em iniciativas pelo interior do Brasil de luta pela terra, organização de sindicatos rurais, entidades de formação de quadro que ainda hoje resistem apesar da cúpula do PT. O partido abarcou forçar sociais variadas, movimentos, grupos de igreja etc. Antes de se tornar um partido “do capital”, em situações reais, não apenas no discurso do Lula, ele foi “dos trabalhadores”. Esta experiência deve ser conservada e recriada sob novos referenciais.

Formação política, vinculação a coletivos de luta e aposta na juventude

“É preciso reconhecer que a história é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro é problemático e não inexorável”.

(Paulo Freire)

A militância de esquerda sempre exigiu um esforço sobre-humano: além das lutas, além do trabalho, além da sobrevivência, ainda é preciso estudar, formar-se. O momento exige, de modo especial, capacidade de entendermos de onde viemos e como chegamos a este ponto. Sem isso, dificilmente traçaremos propostas factíveis de futuro.

Os tempos que se avizinham não serão fáceis, exigirão de nós muita convicção pessoal e o necessário engajamento em coletivos de luta ou fortalecimento daqueles que já o fizeram. Dos mais variados, não pesa tanto agora qual partido ou movimento, desde que se pautem por um caminho de ruptura – ainda que leve muito tempo – e não de conciliação. Também teremos de nos adaptar, no conjunto da esquerda, com o que passou aquela sua parcela que se manteve ao longo desses anos em oposição ao governo: sem financiamento, sem auxílio do governo, sem ônibus ou passagem para viagens, sem a mínima estrutura para organização de eventos. Voltaremos a condições gerais de luta muito difíceis. Na provável quadra história de direita, não só no Brasil, mas na América Latina, teremos de nos fortalecer teoricamente e com ações práticas dentro das possibilidades e determinações de cada movimento, região ou situação.

O que não podemos, neste contexto, é confundir dificuldade com impossibilidade. O que deve mover um militante de esquerda nos tempos que se iniciam é a convicção expressa por Vandré em uma de suas canções: “Eu canto o canto, eu brigo a briga, porque sou forte e tenho razão”. Força e razão que serão maiores na medida em que conseguirmos romper o isolamento e a dificuldade de diálogo no interior da esquerda, por vezes, tão presa a discussões escolásticas e definições linguísticas.  

Por mais longa que possa ser a caminhada, ela exige convicção dos mais experientes e aposta nos mais jovens. Os espaços precisam ser criados ou fortalecidos. O que não pode faltar é esperança. A esperança crítica de que falava Paulo Freire. Que não implica em um imobilismo acomodado, mas na imersão radical em um processo mesmo sabendo que os resultados podem não ser imediatos. Nas palavras de Pedro Casaldáliga, “saber esperar, sabendo, ao mesmo tempo, forçar as horas daquela urgência que não permite esperar”.

De imediato: e agora?

“Pode ser que ainda não seja a hora de uma nova esquerda socialista de

 massas, mas nunca será se ficarmos aprisionados nas velhas âncoras

que podem nos levar juntos ao fundo mar”.

(Fábio Nassif)

Estas breves ponderações não resolvem a questão central que nos inquieta: o que fazer nos dias que correm com ações cada vez mais ofensivas da direita para tirar o PT de cena, com um braço jurídico e outro midiático, a velha combinação de força e consenso que Maquiavel já nos havia ensinado há tempos. É claro que, em contraponto aos protestos contra Dilma e contra o reingresso formal de Lula no governo, haverá manifestações nos próximos dias pelo país de apoio. A história não permite que tenhamos a compreensão total das coisas, para só depois nos posicionarmos. Ela vai acontecendo, sem nos esperar.

É muito difícil que em uma manifestação contra a mídia e as ações arbitrárias da Polícia Federal, resumidas na ideia do “contra o golpe”, não haja uma decorrência espontânea para o apoio ao governo e, diretamente, a Lula. Será possível pautar estas reais ameaças ao Estado de Direito e ao mesmo tempo colocar-se contra o governo que empreende um acirramento da ofensiva neoliberal?  É algo que as bases organizadas de cada manifestação devem debater. Seria descabido apontar uma resposta válida para todos os casos.

As duas propostas ventilidadas em setores mais combativos da esquerda, o “Fora todos!” e “Eleições gerais já!, em tese são coerentes com o que o momento pede, mas esbarram na falta de organização popular que as respalde. O cenário, embora mude toda hora, parece apontar para a opção da direita pelo impedimento de Dilma, o que coloca o poder nas mãos do PMDB e, certamente, freará a força das investigações. Tirando o PT, dificilmente a Lava Jato manterá seu vigor. O bloco histórico se acomoda e voltamos à normalidade. Isso indica que a ideia de novas eleições vai esbarrar não só na falta de organização da base mas também na resistência da direita.

Sem bola de cristal, sem passe de mágica, resta-nos a paciência e o diálogo como forma de reagir à intolerância, o encontro face a face com companheiros de luta para resistir ao isolamento e a construção coletiva como forma de traçar caminhos coerentes com um projeto popular, democrático e socialista. Não será fácil. O que não significa que é impossível.

Stop the secrecy: Publish the NHS COVID data deals


To: Matt Hancock, Secretary of State for Health and Social Care

We’re calling on you to immediately release details of the secret NHS data deals struck with private companies, to deliver the NHS COVID-19 datastore.

We, the public, deserve to know exactly how our personal information has been traded in this ‘unprecedented’ deal with US tech giants like Google, and firms linked to Donald Trump (Palantir) and Vote Leave (Faculty AI).

The COVID-19 datastore will hold private, personal information about every single one of us who relies on the NHS. We don’t want our personal data falling into the wrong hands.

And we don’t want private companies – many with poor reputations for protecting privacy – using it for their own commercial purposes, or to undermine the NHS.

The datastore could be an important tool in tackling the pandemic. But for it to be a success, the public has to be able to trust it.

Today, we urgently call on you to publish all the data-sharing agreements, data-impact assessments, and details of how the private companies stand to profit from their involvement.

The NHS is a precious public institution. Any involvement from private companies should be open to public scrutiny and debate. We need more transparency during this pandemic – not less.


By adding my name to this campaign, I authorise openDemocracy and Foxglove to keep me updated about their important work.

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