Na aldeia Aiha, do povo Kalapalo, localizada no Território Indigena do Xingu, os finais de tarde são marcados pela reunião de homens que se encontram no centro da aldeia para conversar. A aldeia é formada por um grande círculo feito de trinta casas comunais, construídas em formato ovalado e cobertas por sapé. No centro fica a “casa das flautas”, local em que, depois de um longo dia de pescaria ou de trabalho na roça de mandioca, acontecem essas reuniões diárias para jogar conversa fora, dar risada ou mesmo para debates e tomada de decisões comunitárias.
Foi nesta dinâmica, em meio a esse anoitecer no Xingu, em fevereiro de 2020, que as primeiras notícias de que o novo coronavírus (Sars-Cov-2) já se encontrava no Brasil chegaram às aldeias da região, localizadas no nordeste do Mato Grosso. Os primeiros casos de Covid-19 estavam distantes, concentrados em São Paulo, a mais de 1.600 km dali. Mas o receio com a possível devastação que o vírus poderia causar já estava disseminado.
As conversas no centro da aldeia Aiha adquiriram tom sério, de preocupação, e a comunidade Kalapalo tomou uma decisão: isolar-se do mundo não indígena para se proteger. Para tanto, era preciso fechar a estrada que liga a aldeia à cidade de Querência. No dia 20 de março de 2020, Theue Kohozinho Kalapalo, um dos professores da aldeia, junto com outros Kalapalo, pegaram suas motos e dirigiram até um ponto da estrada onde derrubaram quatro grandes árvores. “Eu mesmo bloqueei a estrada, para impedir a saída da comunidade para a cidade e a entrada também”, conta Theue.