No último domingo, dia 6 de fevereiro, Raimundo Serrão e mais um grupo de cerca de 60 quilombolas decidiram não se deter diante das ameaças que impediam sua circulação, e cruzaram o rio Acará, no Município de Acará, no nordeste do Estado do Pará, para retomar parte do território que reivindicam. Os quilombolas dizem ter sido dali expropriados ao longo da década de 1980, e que suas antigas comunidades se encontram hoje sobrepostas às fazendas e áreas de preservação ambiental da empresa Agropalma S.A. A situação ficou tensa quando, no dia 7, funcionários da empresa e seguranças armados e encapuzados contratados pela Agropalma encurralaram os quilombolas.
Seu Raimundo Serrão afirma que o território onde vivia com sua família até ser expulso é hoje parcialmente ocupado pela fazenda Roda de Fogo e pela fazenda Castanheira, pertencentes à Agropalma, empresa que fornece Óleo de Palma para a Nestlé, conforme indicam documentos tornados públicos pela própria multinacional suíça. Os quilombolas afirmam que estas fazendas ocupam partes do território onde estavam as comunidades quilombolas Nossa Senhora da Batalha e Comunidade Santo Antônio e onde também viviam os indígenas Tembé – todos expulsos.
Como prova, os quilombolas apontam para os quatro cemitérios ancestrais que ali se encontram, e onde estão enterrados muitos de seus entes queridos já falecidos – são pelo menos três cemitérios quilombolas e um cemitério Tembé. Junto com telhas e elementos que compunham a estrutura de sustentação das casas, esses cemitérios atestam a existência de um território multiétnico destroçado pelo monocultivo de dendê na região do alto rio Acará.