democraciaAbierta: Interview

'Nossas exportações agrícolas são fundamentais para garantir a segurança alimentar da China'

Larissa Wachholz, do Ministério da Agricultura, diz que o 14º Plano Quinquenal traz oportunidades ao Brasil e não deve resultar em restrições à carne ou soja

Lívia Machado Costa
19 Julho 2021, 12.00
Campos de cultivo no cerrado goiano, no centro-oeste brasileiro
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Viana Photography/Alamy Stock Photo

As commodities brasileiras continuarão a ter grande apetite na China apesar dos desafios de garantir a sustentabilidade das cadeias produtivas da carne e da soja. É o que defende Larissa Wachholz, chefe do Núcleo China do Ministério da Agricultura, que argumenta que a “prioridade absoluta” do país asiático é garantir sua segurança alimentar. 

Em trechos de entrevista ao Diálogo Chino, Wachholz diz que a China é exigente em termos sanitários, mas que não deve impor cláusulas de sustentabilidade, como a de rastreabilidade da carne produzida na Amazônia, uma vez que elas dificultariam o acesso do país a itens “absolutamente necessários” à sua população.

A China impulsionou recordes do agronegócio brasileiro em 2020, e, para Wachholz, o lançamento do 14º Plano Quinquenal da China traz novas oportunidades de cooperação.

Diálogo Chino (DC): O 14º Plano Quinquenal (14 FYP, na sigla em inglês) da China é o primeiro desde que o presidente Xi Jinping anunciou a ambiciosa meta de neutralizar as emissões de carbono da China até 2060. Que conversas o 14 FYP iniciou dentro do Ministério da Agricultura para que o Brasil aproveite novas oportunidades?

Larissa Wachholz (LW): Do documento que nós vimos, há três pontos que são bem interessantes para a agropecuária brasileira. Primeiro, é muito interessante ver que, no 14º Plano Quinquenal da China, houve uma ênfase enorme ao combate à pobreza e revitalização rural. Nos deparamos com essa mesma questão e trabalhamos para avançar nesse ponto também. No Brasil, fica notória a capacidade de geração de emprego e incremento de renda em cidades que se desenvolveram a partir do crescimento econômico do agronegócio. Inclusive, vemos a melhora dos índices de crescimento humano (IDH) a partir do agronegócio em determinadas regiões do país. 

Segundo, vale a pena pensar em uma das premissas do nosso plano de agricultura de baixo carbono, o Plano ABC. O Brasil tem a oportunidade de mostrar a sustentabilidade da sua agricultura. Temos a capacidade de produzir e aumentar a produção de produtos neutros em carbono. A Embrapa já entregou um protocolo de carne e carbono neutro, que já está em uso pelo setor privado. Hoje, consumidores em algumas cidades brasileiras já têm a oportunidade de ir ao supermercado comprar carne carbono neutro. O grande desafio dessa produção neutra em carbono é conseguir escala. E talvez tenhamos uma oportunidade de colaboração entre a China e o Brasil na ampliação dos programas que nos permitam elevar essa produção. 

Eu não vejo a China impondo cláusulas que dificultariam o seu próprio acesso a itens que são absolutamente necessários para assegurar a sua segurança alimentar

Somos líderes no uso de biocombustíveis e na produção de biodiesel, ou seja, temos a agricultura contribuindo para a redução de emissões até de outros setores. Com isso, não estou dizendo que não temos grandes desafios pela frente. Temos. Sobretudo o combate ao desmatamento ilegal. E temos um grande trabalho de implementação plena do Código Florestal.

Por último, a segurança alimentar e o estímulo ao consumo interno da China são dois aspectos que já estiveram presentes em outros planos e que também ajudam a contar a história da relação do Brasil e da China no agronegócio. Nossas exportações agrícolas são fundamentais para garantir a segurança alimentar da China, que é um objetivo absolutamente estratégico para a sociedade chinesa. E mesmo durante esse período mais recente de pandemia, as exportações do Brasil, não apenas para a China, mas para o mundo, se mantiveram. Nossos contratos foram todos cumpridos.

DC: Como os produtores e os fornecedores de soja e gado do Brasil estão preparados em termos tecnológicos e financeiros para adaptar seus sistemas produtivos caso a China implemente cláusulas de sustentabilidade mais duras?

LW: A gente já viu isso se refletir aqui no Brasil, no caso das compras de soja da Cofco International. Do meu ponto de vista, esse movimento de fato tende a se fortalecer, mas eu tomaria muito cuidado em relação ao timing

A prioridade absoluta para a China continua sendo a segurança alimentar. Eu não vejo a China impondo cláusulas que dificultariam o seu próprio acesso a itens que são absolutamente necessários para assegurar a sua segurança alimentar. O que eu acho que pode acontecer, e acho que é uma grande oportunidade para o Brasil, é, a partir dessa maior discussão sobre questões ambientais na China, mostrar aos chineses nossa capacidade de também entregar produtos que sejam carbono neutro. 

Temos técnicas, temos tecnologia, sabemos como fazer, mas para ter escala, ele vai precisar de mais recursos. Então acho que há sim uma área de colaboração possível entre Brasil e China, que é dar escala a iniciativas que a gente já tem aqui no Brasil. E acho que especialmente para carne carbono neutro, isso é uma grande oportunidade.

Não vejo a China impondo cláusulas que não possam ser cumpridas, não vejo a China criando dificuldades para que ela mesma tenha acesso a produtos que são essenciais à segurança alimentar dela. O que acho possível é que a China busque mecanismos de incentivo ao aumento de eventuais critérios para produtos que ela compre. 

Temos pela frente, nesse momento pós-pandemia, que aumentar nossa presença física na China

DC: O que falta para o Brasil atrair mais investimentos verdes para o setor da agricultura e da pecuária? 

LW: Não acho que falte ao Brasil essa possibilidade [de atrair investimentos verdes]. No caso do Plano ABC, por exemplo, nós já trabalhamos com outros países que, justamente, nos ajudam a colocar esses planos de pé. Então não acho que haja carência, que temos dificuldades de receber esses capitais. A gente está se estruturando, mas uma das pautas que a ministra [da Agricultura, Tereza Cristina] tem alavancado dentro do ministério são as opções de financiamento do setor privado. 

DC: Que tipos de mudanças o ministério prevê na demanda chinesa nas próximas décadas em um cenário pós-pandemia? 

LW: As principais tendências de mudança são duas: uma em termos de produto e outra em termos de acesso a esses produtos. A primeira tem relação com produtos agrícolas de maior valor agregado, como carnes, lácteos, castanhas e frutas — esse segmento de produtos que são da agropecuária, mas que têm maior valor agregado frente a commodities tradicionais, como soja, por exemplo. Nossas carnes são bastante demandadas pela China, tanto a bovina quanto a de frango e suína. É claro que isso ocorreu dentro de um contexto muito peculiar na China, que foi a peste suína africana e as questões comerciais entre os Estados Unidos e a China.

Temos pela frente, nesse momento pós-pandemia, que aumentar nossa presença física na China, mas isso depende muito mais do setor produtivo do que do ministério. Nosso papel é abrir mercado, mas o setor produtivo tem que estar lá. Eu queria ressaltar a forma como esses alimentos são consumidos ou comprados pelo consumidor, que já era uma tendência pré-pandemia, mas se fortaleceu enormemente: o mercado eletrônico. Há estimativas de que, daqui a dez anos, cerca de 30% a 35% do comércio internacional da China virá do comércio eletrônico, o que é uma mudança radical. 

O consumidor chinês é um dos mais preocupados do mundo com a sanidade do alimento

O ministério tem acompanhado essas tendências, temos discutido isso internamente, a Apex-Brasil [Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos] tem iniciativas super interessantes de capacitação de empresas brasileiras para exportação de seus produtos por meio do comércio eletrônico, com produtos como frutas brasileiras, mel, própolis, o que acaba abrindo uma janela de oportunidades para pequenas e médias empresas do agronegócio, e isso é muito interessante. 

DC: Em relação à rastreabilidade da carne, vemos que o mercado chinês é menos exigente do que o mercado europeu. Você enxerga alguma mudança de tendência?

LW: Eu acho que essa fase da pandemia ressaltou um aspecto que já é muito importante para o consumidor chinês de forma geral, que é a questão da qualidade do alimento, da qualidade sanitária. O consumidor chinês é um dos mais preocupados do mundo com a sanidade do alimento. E nesse ponto, o Brasil mais do que provou suas capacidades de entregar um alimento de muita qualidade, um alimento adequado do ponto de vista sanitário, e os chineses sabem disso. 

Não vemos hoje o consumidor chinês pronto para fazer o mesmo nível de demanda de rastreabilidade da carne que fazem consumidores europeus, por exemplo. A gente vê o consumidor chinês muito mais preocupado com essa questão da sanidade. Quando ele tem uma preocupação ambiental com o produto que está consumindo, tem mais a ver com uma experiência pessoal na China de poluição intensa em determinadas regiões e que, portanto, leva o consumidor chinês a associar a ideia de ausência de poluição a um produto adequado do ponto de vista sanitário. Isso é muito importante para o consumidor chinês, e essa é a imagem que ele tem do Brasil. 

Não vemos ainda que o consumidor chinês esteja pronto para fazer essas demandas de rastreabilidade no curto prazo, talvez nem no médio prazo. Precisamos pensar se ele vai estar pronto para pagar por um produto que dê essas garantias, porque é um produto mais caro. A China é um país em desenvolvimento que tem uma classe média emergente, que quer consumir mais carne, mas que precisa que essa carne esteja a um preço razoável. 


Este artigo foi originalmente publicado no Diálogo Chino. Leia o original aqui.

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