democraciaAbierta: Opinion

Putin foi moldado pela ganância dos EUA. Sua derrota deve gerar mudança global

Quando o líder russo for derrotado na Ucrânia, o Ocidente deve evitar erros do passado para evitar conflitos desnecessários

Anthony Barnett
Anthony Barnett
1 Março 2022, 12.00
A eventual derrota de Putin trará uma oportunidade de transformar a Rússia em aliado político
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Pavel Bednyakov/Kremlin Pool/Alamy Live News

Eu nunca estive tão errado sobre um grande evento tão claramente advertido. Eu estava convencido de que Vladimir Putin não seria tão imprudente a ponto de lançar uma invasão em grande escala da Ucrânia, mesmo que apenas pela simples razão de que ele perderia. Eu havia presumido que Putin era um ditador astuto que odiava a democracia, era inteligente o suficiente para jogar com a corrupção de um Ocidente apaixonado pelo capitalismo rentista e, portanto, tinha uma medida fria da realidade. Também achei que ele havia se sentido ameaçado pela revolta popular na Bielorrússia em 2020 e 2021. O possível contágio de uma revolução democrática no país vizinho o ameaçaria pessoalmente, e as sanções do Ocidente, embora não o suficiente para minar o regime de Alexander Lukashenko, afetaram o governo. Por isso, achei – talvez eu devesse dizer que esperava – que a enorme mobilização das forças militares russas em torno da Ucrânia era uma simulação, cujo objetivo real era consolidar o controle russo sobre Minsk, não Kiev. Isso, parecia-me, era ruim o suficiente.

É importante manter a incredulidade e as razões para ela. Sempre corremos o risco de reverter a reclamações auto-centradas, especialmente se você é britânico, proferindo que ditadores não devem ser apaziguados. Putin deve – e mais importante, será – derrotado. Agora é hora de guerra, já que ele a escolheu. Será combatida e sofrida pelo povo da Ucrânia, que merece nossa solidariedade e apoio. No espírito de tal solidariedade, isso também significa começar a planejar a paz que se seguirá quando o pretenso conquistador for derrotado e as forças russas se retirarem do país vizinho. O heróico presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, está certo em colocar a neutralidade de seu país na mesa em qualquer negociação, porque se não quisermos voltar ao velho ciclo que levou a esta guerra, temos que reconhecer de onde viemos.

Havia duas razões pelas quais a invasão de Putin era “inacreditável”. Primeiro, a Ucrânia é um grande país com um povo orgulhoso e enormes fronteiras. Não pode ser ocupado com sucesso contra uma determinada resistência patriótica. Mesmo que as forças russas possam subjugar completamente o exército profissional da Ucrânia, o que ainda não está claro, não podem resistir a uma longa insurgência alimentada com as mais recentes armas de infantaria, rifles de visão noturna e tecnologia de drones, apoiada pela vigilância e guerra cibernética dos EUA. A premissa do ataque de Putin, conforme estabelecido em seu discurso historicamente insano, é que o povo da Ucrânia é, na verdade, russo. Como suas tropas aprenderão, isso não é verdade. Mordiscar parte de um oblast é uma coisa – buscar a conquista de um país inteiro e funcional que faz fronteira com a OTAN não faz sentido nenhum.

Em segundo lugar, uma invasão em massa da Ucrânia detona a ordem mundial pós-Guerra Fria. Com um grande ato de frustração armada, Putin encerrou a era considerada "o fim da história", que teria começado quando os EUA saíram vitoriosos da Guerra Fria e a União Soviética entrou em colapso em 1990. Mas ele mesmo é fruto desta ordem. Muitas das figuras ocidentais que a personificam, como Peter Mandelson, Nigel Farage e Boris Johnson, para citar apenas três do meu próprio país, estão enfeitiçados por Putin ou seus oligarcas favoritos. Eles precisam cair com ele.

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A preocupação de Putin com a grandeza russa não deve, portanto, ser vista em termos da Guerra Fria, como uma resposta à ameaça de expansão da OTAN. Ele entendia as fraquezas do Ocidente e que a “ameaça” era puro teatro. Seu medo é a democracia popular, valores liberais como o Estado de Direito, a liberdade de expressão e os direitos humanos. Daí seu apoio a amigos ocidentais, sobretudo Donald Trump, que compartilham seu desprezo pelo devido processo legal e a relação mafiosa com a verdade, mesmo que não assassinassem seus oponentes.

Ao invés disso, Putin é fruto da maneira desastrosa como os EUA substituíram a Guerra Fria. Como escrevo em Taking Control!, em 1992, o então presidente George H. W. Bush expressou “a alegria que estava em meu coração” pela forma como os Estados Unidos haviam “vencido a Guerra Fria”. Ele estava emocionado que “um mundo antes dividido em dois agora reconhece um único e preeminente poder, os Estados Unidos da América”. Outros países, continuou ele, “aceitam a proeminência dos EUA sem medo. Pois o mundo nos confia o poder, e o mundo está certo. Eles confiam que seremos justos e comedidos. Eles confiam que estaremos do lado da decência. Eles confiam que faremos o que é certo.”

O medo teria sido a reação mais sábia. Os 30 anos que se seguiram foram de enorme crescimento econômico e inovação. A transformação da China é sem precedentes, e a economia global passou de analógica para digital com o surgimento de plataformas corporativas de natureza e alcance jamais vistos. Mas politicamente estava longe de ser contido e justo. A hegemonia dos EUA foi responsável por um período de injustiça desenfreada. Suas guerras no Afeganistão e no Iraque foram desastres indecentes e seu insaciável sistema financeiro detonou o mundo em 2008.

Nenhum outro lugar foi tratado de forma mais indecente e injusta do que a Rússia. Depois de 1992, os EUA poderiam ter apoiado sua transformação em uma democracia relativamente incorrupta, como seu povo desejava. Em vez de estender um plano Marshall atualizado a um inimigo derrotado, como os EUA haviam feito com tanto sucesso com o Japão e a Alemanha depois de 1945, a Rússia foi devastada pela “terapia de choque” econômica. Putin é o filho adotivo da ganância e da miopia de Washington, determinado a se vingar das forças da família capitalista que também o deixou órfão, mesmo quando ele se viu pessoalmente enriquecido e empoderado por ela.

O que todos devem agora se esforçar para garantir é que a tragédia da loucura de Putin e sua iminente derrota não se transformem em outra tragédia – um retorno a uma polarização latente que garantiria outro conflito futuro. Em outras palavras, a derrota de Putin deve ser transformada em uma vitória para a democracia russa e bielorrussa e um caminho para sua renovação. Só isso pode compensar a orquestração medonha dos EUA nas décadas em que foi o “poder único e preeminente”.

Esta é uma oportunidade para ajudar a Rússia a se tornar um aliado político, não um inimigo, e encerrar genuinamente a era da Guerra Fria

Até agora, a estratégia do presidente dos EUA, Joe Biden, tem sido inteligente e digna. Ele tomou três cursos de ação que o distinguem de Trump. Primeiro, seu governo armou as forças ucranianas com armamento e treinamento defensivos (e presumivelmente conselheiros), bem como inteligência detalhada. Em segundo lugar, revelou sistematicamente o que sabia e arriscou sua coleta de informações confidenciais, de modo a garantir que o mundo tivesse um conhecimento factual do que está acontecendo. Isso restaurou a credibilidade das afirmações dos Estados Unidos após quatro anos de fanfarronice trumpista. Terceiro, construiu uma aliança internacional em vez de proclamar “America First”. Além disso, Biden, sabiamente, não pediu a derrubada de Putin e não procurou provocar um homem consumido por noções malucas da história com armas nucleares à sua disposição.

Desta forma, o governo dos EUA está permitindo que Putin derrote a si mesmo. Mas isso deve ser feito internamente. Desafiado e frustrado nos campos de batalha da Ucrânia, ele só poderá ser substituído pelos próprios russos.

Chama a atenção que grandes manifestações anti-guerra espontâneas tenham ocorrido em toda a Rússia, enquanto não houve manifestações significativas de apoio a uma guerra contra um vizinho supostamente ameaçador. É um desequilíbrio que ecoa o padrão da invasão do Iraque pelos EUA-Reino Unido – também uma guerra “louca” sem justificativa. Embora Washington tenha passado mais de um ano propagando as mentiras do envolvimento de Saddam Hussain no 11 de setembro e a presença de armas de destruição em massa, não conseguiu levar seus apoiadores às ruas.

A derrota para Putin virá muito mais rápido do que para George W. Bush e seu vice-presidente Dick Cheney depois de 2003. A Ucrânia está muito melhor armada e organizada do que o Iraque e posicionada muito mais perto da Rússia, em espírito e geograficamente. Além disso, há a Bielorrússia. Uma dos aspectos surpreendentes sobre os recentes movimentos populares de oposição nas autocracias ex-soviéticas é seu caráter díspar. Os protestos na Rússia foram reprimido após as eleições de 2018, mas foram seguidos pela revolta de 2020 na Bielorrússia contra o roubo eleitoral de Lukashenko. Quando essas manifestações foram reprimidas, a agitação eclodiu no Cazaquistão no início deste ano.

A guerra está agora gerando oposição na Bielorrússia e na Rússia. Uma invasão planejada por Putin para consolidar seu domínio no espaço ex-soviético está levando a demandas coordenadas por democracias distintas em Minsk e Moscou, ameaçando ambos os autocratas.

Em quatro artigos notáveis ​​para o openDemocracy, Greg Yudin, professor de Moscou, acompanhou a frustração da oposição a Putin. Ao mesmo tempo, ele argumenta que Putin sentiu seu poder diminuir e escolheu a guerra para salvar a si mesmo, não seu país. O líder que por duas décadas encarnou o restabelecimento frio e implacável do status geopolítico da Rússia – e manteve o apoio popular por causa disso, apesar da corrupção que ele permitiu – de repente se tornou um idiota. Yudin temia que a oposição à guerra dificilmente ganharia força popular. No entanto, pouco antes do ataque ser lançado, ele concluiu:

A guerra com a Ucrânia será a mais insensata de todas as guerras da nossa história. Porque não podemos lutar contra os ucranianos. Embora os russos possam pensar que as escolhas dos ucranianos estão erradas, possam pensar que são ingratos e cruéis e seus governantes irresponsáveis, não podemos combatê-los, mesmo que eles sejam, em nossa opinião, os culpados de tudo. Porque eles são ucranianos – se não formos capazes de encontrar uma linguagem comum com eles, então não poderemos ser amigos de ninguém. Estaremos sozinhos contra o mundo inteiro, e nossa derrota será dura.

Precisamos garantir que a derrota seja rápida, decisiva e que recaia sobre Putin. Mas seu fardo deve ser aliviado para o povo russo. Esta é uma oportunidade para ajudar a Rússia a se tornar um aliado político, não um inimigo, e encerrar genuinamente a era da Guerra Fria e suas consequências desastrosas.

O apoio militar à resistência ucraniana é essencial: seu objetivo é alterar todo o paradigma da polarização. Anatol Lieven, um dos mais sábios comentaristas sobre a Rússia e a Ucrânia, previu e procurou evitar o desastre atual. Pode parecer tolice discordar de sua experiência. Mas ele argumenta contra uma estratégia de apoio à guerrilha porque “instrumentalizaria os ucranianos como uma arma para enfraquecer a Rússia e relembrar algumas das piores ações dos EUA na Guerra Fria”. Em vez disso, ele quer sanções destinadas a “ajudar o povo ucraniano”. Mas o povo ucraniano precisa é ser ajudado em sua resistência. Como os vietnamitas podem dizer, você pode ser apoiado por motivos maiores e, ao mesmo tempo, fazer sua própria história com o apoio que recebe. Basta ler esta carta de Kiev para a Esquerda Ocidental.

As pessoas que precisam ser ajudadas são os russos. À medida que a resistência expõe a imprudência de Putin, uma crise política envolverá o Kremlin. A Rússia de Putin não é um Estado de partido único eficiente nem uma cleptocracia retrógrada. Ela tem uma sociedade civil, redes científicas e artísticas e uma população que, embora intimidada, acredita em si mesma e é capaz de resistir. Agora tem a oportunidade de exigir democracia.

O princípio maior, conforme expressado pela acadêmica britânica Mary Kaldor, é passar de um mundo baseado na força e alianças polarizadoras para um mundo baseado nos direitos humanos e na segurança humana. Inevitavelmente e com razão, isso diminuirá a supremacia do Ocidente. Significa buscar uma Rússia democrática que não seja mais tratada como oponente.

As consequências serão profundas. Quando a União Soviética entrou em colapso, encerrando a Guerra Fria, os EUA procuraram evitar a ascensão de uma futura Rússia. Tratá-la como um inimigo em potencial cultivou sua inimizade. A verdadeira maneira de acabar com o putinismo é acabar com a inimizade entre a Rússia e a Europa e os EUA. Que a guerra na Ucrânia realmente acabe com a Guerra Fria e qualquer reconstrução das rivalidades que servem ao complexo militar-corporativo. Precisamos que a Rússia, a Ucrânia e a Bielorrússia se tornem uma trindade democrática e aliadas na criação de um mundo sustentável.

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