democraciaAbierta: Feature

'A polícia invadiu a nossa casa'

Nove mulheres revelam os motivos que as levaram até o Brasil e quais foram suas experiências no país. Nem todas as histórias de migração são iguais.

17 Março 2021, 2.51
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No Congo eu nunca tive um trabalho de fato. Eu procurei por trabalho depois que eu terminei o ensino médio, mas mesmo recebendo ajuda do meu pai para encontrar trabalho, no Congo é muito difícil conseguir algo. Minha mãe havia ido embora para a Angola quando eu era mais nova, eu fiquei vivendo com o meu pai. Quando meu pai faleceu, eu decidi seguir os passos da minha mãe até Angola.

Encontrei a minha mãe quando cheguei em Angola, ela tinha outro marido. Meu padrasto era motorista de taxi e havia uma disputa entre o governo e os motoristas, naquele momento. Meu padrasto era um dos organizadores dos grupos de taxistas contra o governo.

A polícia invadia a nossa casa. Havia tiros para todos os lados. Meu padrasto fugiu. Minha mãe fugiu. Mais tarde, eles capturaram o meu padrasto, mas eu fiquei sem saber onde a minha mãe estava; nunca mais tive notícias dela. Eu fugi para Benguela e fiquei lá por um tempo até poder voltar para a casa. Depois, eu consegui vir para o Brasil.

Eu também nunca tive um trabalho apropriado no Brasil. Eu tenho procurado por trabalho desde que eu cheguei aqui. Às vezes eu tenho uma entrevista, mas eles nunca me ligam de volta. Eu vivi em um abrigo para migrantes quando cheguei, mas você só pode ficar lá por um determinado tempo e depois tem que sair. Eu não tinha dinheiro para comer, eu comecei a vender coisas na rua e comprar o que eu conseguia com o pouco que ganhava. Mas, antes da pandemia começar, eu estava vendendo na rua quando a polícia veio e levou toda a minha mercadoria, porque eu não tinha permissão para vender. Perdi tudo e hoje não tenho mais nada para vender.

Você sempre escuta pessoas dizendo que “africanos vieram para sujar o nosso país”.

Racismo! Pessoas e a polícia me dizem o tempo todo que o Brasil não é o meu país, e que eu deveria voltar para o meu país. Às vezes a polícia bate na gente. Eu tenho um vídeo onde um policial brasileiro dá um soco em uma congolesa. Ela desmaiou. No meu país, não existe racismo, mas eu morei em Angola por cinco anos antes de vir para o Brasil, lá existe. É demais, é pior que aqui. Em Angola, os congoleses não têm o direito de trabalhar. Não tem direito de viver. Todo dia a polícia entra nas casas e nos hospitais para pegar os congoleses. Se você não tem os documentos, eles te mandam de volta.

No Brasil, quando você procura um trabalho em um escritório ou em um bar, eles dizem: “Nós preferimos brasileiros, nós não gostamos de africanos”. Ou quando você está no metrô, muitos brasileiros te encaram e tentam te intimidar. Você sempre escuta pessoas dizendo que “africanos vieram para sujar o nosso país”. Às vezes você está andando e alguém na rua diz algo ofensivo, do nada, para você. É chocante!

Outra coisa importante em relação a restrição da nossa liberdade é a violência de gênero. No meu país, existe muita violência contra a mulher. Um homem pode bater em uma mulher no meio da rua – em quem ele quiser, até na sua mãe. Às vezes ele nem te conhece e te agride. A polícia não protege a mulher contra esse tipo de violência. Eles protegem, sim, as pessoas de foram que vão para nosso país trabalhar nas ONGs. Se você ataca essas pessoas que vem de fora, você será punido. Nós somos as pessoas que sofrem e não recebem proteção da polícia. Pessoas com proteção são aquelas que tem dinheiro. Quem tem dinheiro, tem poder, certo?

Não existe discussão sobre gênero e sexualidade. No Congo as pessoas se chamam o tempo todo de “veado” ou “puta”. Crianças crescem com essas palavras na boca. Em Angola, é mais comum você ver pessoas do mesmo sexo se relacionando, mas no Congo, se você é lesbica ou gay você tem que fazer isso em segredo. Se você “sai do armário”, todos vão estar contra você. Se você usa roupas curtas, eles vão mexer com você na rua.

G. L., cinco anos no Brasil

Esta série foi apoiada financeiramente por Humanity United.

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