democraciaAbierta: Feature

'Havia tudo no meu país, mas havia também a guerra'

Nove mulheres revelam os motivos que as levaram até o Brasil e quais foram suas experiências no país. Nem todas as histórias de migração são iguais.

17 Março 2021, 2.56
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Eu nasci em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo. Eu nasci em uma família grande – eu sou a segunda filha da minha família e tenho uma irmã gêmea. Eu deixei a RDC para se juntar ao meu marido, que veio viver no Brasil. Nós estávamos enfrentando problemas financeiros lá, além da guerra que existe no meu país. Meu marido vive no Brasil já faz seis anos. Eu cheguei tem dois anos.

Infelizmente, a vida não é fácil aqui. Eu não estou trabalhando no momento, mas eu estudei no Congo e sempre trabalhei com a minha família. Eu trabalhei em um supermercado familiar, como caixa. Aqui, no Brasil, é muito difícil para imigrantes conseguirem trabalho, então nós lutamos muito.

Eu me juntei a um grupo chamado “Mulheres do Brasil”. Nesse grupo, nós tivemos a oportunidade de fazer alguns estágios de emprego. Escrevemos alguns currículos e os distribuímos nas empresas, mas a maioria das empresas não te liga de volta. Apenas o Carrefour, o supermercado, nos ofereceu um trabalho. Esse foi o meu primeiro trabalho no Brasil. Eu fiquei muito feliz quando consegui, mas no final, eu trabalhei lá apenas uma semana. No contrato estava escrito que eu deveria trabalhar das 8 horas da manhã até às 17 horas da tarde, e meu salário seria de 700 reais. Eu estava trabalhando registrada, mas infelizmente eles me fizeram trabalhar como uma escrava. Eles não respeitavam o contrato – eu estava trabalhando das 8 horas da manhã até às 23:300 horas da noite. Eu sou uma mulher casada, isso era muito difícil, porque eu tenho a obrigação de cuidar do meu marido. Além disso, era muito perigoso sair naquele horário. Eu chegava em casa por volta de 1 hora da madrugada, e existe muita violência no Brasil; alguma coisa ruim poderia acontecer comigo. Eu decidi que seria melhor deixar o trabalho, porque não era seguro para mim. Depois disso, eu não encontrei outro trabalho.

As empresas não sabem que você é uma pessoa negra quando você envia o seu currículo. Isso te dá a chance deles te chamaram para uma entrevista. Mas, uma vez que eles veem que você é uma pessoa negra, eles não te dão o trabalho. Eles dizem que não tem mais vagas, mas nós sabemos que isso não é verdade. Isso aconteceu comigo em três empresas diferentes. Esta é uma grande dificuldade que eu encontrei aqui no Brasil.

É complicado para conseguir sobreviver e sentir-se livre.

Quando você é negra e africana, no trabalho, todo mundo pergunta de onde você é, se existe supermercado no meu país. Eu tenho que ensina-los. Eu preciso dizer que no meu país existe tudo, mas lá existe guerra e nós enfrentamos problemas financeiros, e que é melhor sair do que ficar, mas que o meu país não é uma floresta como eles pensam. Isso é muito triste porque eu deixei a minha família e eu estou sozinha aqui com o meu marido. A única família que eu tenho aqui são as pessoas brasileiras, mas eles não nos tratam bem. Nós ficamos frustrados e tristes.

Eu não tenho um trabalho de fato faz dois anos. Apenas o meu marido está trabalhando, e é muito difícil para o casamento quando apenas uma pessoa trabalha. Ele é quem paga o aluguel, energia, as compras, então isso é muito complicado para a sobrevivência e para eu poder me sentir livre. A língua é um problema também. É difícil você se sentir livre quando existe a barreira da língua. Eu fiz aulas de português e hoje o meu português é melhor, mas ainda assim, viver em um país onde não dominamos a língua completamente, você vive com várias restrições.

Mas, é importante dizer que muitas mulheres brasileiras são generosas e amigas comigo. Além disso, muitas brasileiras trabalham em escritórios, elas possuem bons trabalhos, enquanto no meu país isso é muito difícil para uma mulher conseguir trabalho – a maioria das mulheres ficam em casa após o casamento, elas têm que ter filhos e depois cuidar da casa. No Brasil, você vê que um monte de mulher grávida trabalhando. No meu país, não é assim. Isso me revolta, quando eu penso sobre o meu país. Eu penso, se elas podem fazer tudo isso aqui, nós também podemos fazer lá. Como mulher, eu também posso trazer algo para a sociedade. Eu sou útil. Essa é a diferença que eu vejo entre as mulheres congolesas e brasileiras, quando você pensa sobre liberdade.

Eu penso em deixar o Brasil, porque eu quero ter filhos e aqui pode ser complicado para nós. Apenas o meu marido está trabalhando, será muito difícil sobreviver assim, porque é ele quem paga o aluguel, tem a escola das crianças, água, o supermercado – tudo isso ficaria pesado para o meu marido. E, eu não quero ter filhos para que eles sofram. Esse é o motivo pelo qual eu penso em sair. Em outros países, quando você tem filho e não tem um trabalho, o governo te ajuda a tomar conta da criança, então você consegue comprar leite, açúcar, arroz, roupas, e os educar.

A. K., dois anos no Brasil

Esta série foi apoiada financeiramente por Humanity United.

What happens when asylum seekers are sent back into danger?


Most countries closed their borders over the pandemic, but for asylum seekers, deportation continued all over the world. More and more often, they are returned to the same life-threatening conditions that they fled.

To mark World Refugee Day on 20 June, and the launch of our multimedia project 'Parallel Journeys', join us as we explore returns without reintegration.

Speakers to be announced soon.

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