democraciaAbierta: Opinion

Um balanço de 2020: o ano em que vivemos uma pandemia

2020 parecia ser um ano de oportunidades, mas resultou ser o ano das guerras e dos zoombies. 2021 será o ano para repensar tudo.

Viviana Krsticevic
18 Janeiro 2021, 12.00
Moradores da favela Santa Marta, em Botafogo, Rio de Janeiro, se reúnem para limpar a comunidade e combater o avanço do novo coronavírus em 28 de novembro de 2020
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Ellan Lustosa/Zuma Press/PA Images

2020 foi um ano que prometia ser especial com seus números redondos, apesar da persistência de desafios de segurança, desigualdade e democracia que a América Latina carrega há anos, as consequências da emergência climática, as crises migratórias, a violência seletiva dirigida aos defensores dos direitos humanos.

Entretanto, me entusiasmei com o interesse renovado na necessidade de mudar a dinâmica do racismo, da exclusão, do assassinato e da crise climática exibido nas manifestações e debates públicos, assim como a possibilidade de mudança regional prometida pelas eleições americanas. O ano de 2020 começou com energia redobrada para construir uma região mais igualitária, mais segura e mais sustentável. Lembra-se das feministas de Las Tesis, Greta Thunberg e da mobilização de milhões pela emergência climática, pelas marchas indígenas e pela paz?

E ainda assim, 2020 nos surpreendeu com uma emergência global distópica, do tipo série da Netflix, em que uma pandemia destruiu parte da economia, levou milhões de vidas e minou profundamente os direitos e as esperanças de centenas de milhões de outras.

Gerou uma experiência coletiva de dor e confusão que nos uniu na vulnerabilidade mais primária da vida, juntamente com a experiência desigual dos que fomos capazes de enfrentá-la com trabalho, acesso à água, serviços de saúde e espaços que garantem as medidas de distanciamento social.

A pandemia serviu de desculpa e escudo para atos brutais de violência manifesta e silenciosa de norte a sul do continente

Foi um ano em que as desigualdades se aprofundaram e aumentaram diante de um desafio inesperado, de um retrocesso de décadas e consequências palpáveis em que o inimigo invisível se aliou a outros já antigos: discriminação, tortura, corrupção, autoritarismo, roubo e depredação, fome, desigualdade de acesso à internet, furacões, violência, monitoramento e assassinatos seletivos. A pandemia serviu de desculpa e escudo para atos brutais de violência manifesta e silenciosa de norte a sul do continente.

Zoombies

Minha colega Seidy Salas usou o pseudônimo zoombie para nossa festa virtual do CEJIL, uma brincadeira que une o nome do aplicativo de chamada Zoom e a palavra zombies. E seu nome capta a experiência de irrealidade, morte e luto pelo que deixamos para trás, combinado com a adaptação tecnológica com a qual tivemos que conviver.

Eu, como muitos, perdi três pessoas muito próximas a mim. Eu vivo todos os dias como um zoombie, agora que a pandemia me tirou um pedaço do peito e parte da vida. Cada um de nós pode escrever um diário do ano em que vivemos uma pandemia, uma triste história que ainda não terminou, com capítulos de revelação, terror, solidariedade, amor infinito, suspense e esperança.

2021 certamente será o ano do fim da guerra contra este inimigo invisível e seus aliados. E nós sabemos muito sobre isso na América Latina. Das alegrias e das oportunidades únicas que surgem nestes momentos de repensar tudo e contestar os fatores de poder para captar o bem-estar e a democracia; da imaginação e da solidariedade que surgem nestes momentos de crise; dos sonhos despedaçados pela desigualdade.

Precisamos de um pacto renovado e justo, que reforce e reimagine o escopo dos direitos, igualdade, segurança, mobilidade humana, desenvolvimento sustentável e democracia

Assim, neste ano que chega com a devastação de incêndios, furacões, pandemia e injustiça, temos a tarefa de celebrar em meio às lágrimas e de aprender com o passado. O desafio é reconstruir, transformando o que for possível, para trazer para um pouco mais perto as promessas que fizemos a nós mesmos. Precisamos de um pacto renovado e justo, que reforce e reimagine o escopo dos direitos, igualdade, segurança, mobilidade humana, desenvolvimento sustentável e democracia.

E o curioso é que, desta vez, a pandemia e suas consequências nos atingem regional e globalmente. Cada um de nós foi tocado por esta guerra e pela dinâmica que aprofundou seu impacto. Portanto, espera-se que a tarefa de repensar as soluções tenha as mesmas dimensões. Que os esforços individuais, comunitários, nacionais, regionais e internacionais sustentem os valores e objetivos compartilhados.

Para começar, gostaria de citar nossas constituições e tratados: igualdade, prosperidade, democracia, liberdade, justiça, respeito à terra e à dignidade das pessoas, solidariedade e a oportunidade de nos desenvolvermos em nossa comunidade.

Perguntas para o novo ano

Eis minhas perguntas sobre alguns dos desafios para iniciar o debate do novo ano:

Como responder à enorme crise humanitária e de direitos humanos representada pela migração forçada causada pela violência, pobreza, perseguição e desastres naturais?

Como utilizar este momento nacional e regional para limitar a captura do poder estatal e econômico por grupos de poder de facto?

Como assegurar que os esforços de reconstrução, recuperação e resposta não exacerbem a devastação ambiental, a violência e a desigualdade?

Como podemos garantir que as vacinas sejam distribuídas de forma justa e segura na região?

Como assegurar que aqueles que denunciam, reivindicam, defendem os direitos humanos e as promessas das constituições possam fazer seu trabalho em liberdade?

Como assegurar que o mundo digital deixe de ser um privilégio e que o acesso à internet se torne mais democrático?

Como repensar nossas vidas para deixar os zoombies para trás e agarrar-nos aos sonhos que nasceram no meio da pandemia?

Assim, 2021 começa com um abraço, celebrando que estamos vivos, e com muitas perguntas que não podemos resolver sozinhos.

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