democraciaAbierta: Analysis

A cidade como palco para construir o futuro

Quatro em cada cinco latino-americanos vivem em cidades, fazendo da América Latina a região mais urbana do mundo

Matías Bianchi
23 Novembro 2021, 12.01
Santiago de Chile
|
Alamy Stock Photos

As cidades sempre foram um lugar de transformação para a humanidade. Com seu surgimento há 5 mil anos, os horizontes das pessoas foram ampliados, permitindo maior circulação de ideias e o desenvolvimento de grandes avanços na ciência, nas artes e na produção.

Hoje, as cidades são também palco dos principais desafios que enfrentamos como sociedade: a desigualdade e as mudanças climáticas. Na América Latina, a região mais urbana do mundo, esses desafios são amplificados.

Já sabemos que a América Latina é a região mais desigual do mundo, com países como Brasil, Colômbia, Guatemala, México e Panamá atingindo coeficientes de Gini acima de 0,50. Mas é nas cidades que essa desigualdade se objetiva na forma de segregação espacial, exclusão social e informalidade econômica. A falta de capacidades, recursos e poder dos governos para responder à hipertrofia das grandes cidades fez com que o crescimento fosse dominado pelo mercado.

A consequência é uma segregação voluntária dos setores mais ricos, enclausurados e privatizados; e o involuntário dos setores populares em assentamentos precários e informais e em zonas de risco.

É nas cidades que essa desigualdade se objetiva na forma de segregação espacial, exclusão social e informalidade econômica

No meio disso, uma classe média frágil e isolada resiste. Hoje a informalidade do trabalho na região ultrapassa 50% dos trabalhadores, com maior percentual de mulheres. Da mesma forma, os quase 100 milhões de indígenas e negros que vivem nas cidades são 30% mais pobres que a média da população e têm cerca de quatro anos a menos de escolaridade, enfrentando piores situações de superlotação, despejos e violência. A cidade é dividida.

Ao mesmo tempo, o principal impacto da região nas mudanças climáticas globais vem das cidades. Tanto a concentração populacional quanto o desenvolvimento urbano não planejado das cidades trouxeram consequências dramáticas. Uma das causas é o consumo excessivo de recursos naturais – água em particular, com a sobreexploração de aquíferos, costas, entre outros. Outro é o uso do transporte, principal emissor de CO2 para a atmosfera, que na região é agravado pelas longas distâncias a percorrer e pela falta de transporte público de qualidade e o consequente uso excessivo de carros. O terceiro é a destruição do solo devido à invasão excessiva de florestas, pântanos e perda de biodiversidade. A cidade não é sustentável.

Ambos os desafios, é claro, estão completamente interligados. Para responder à crescente emissão de gases do efeito estufa, à degradação dos ecossistemas e à poluição do ar e do solo, é também necessário responder à crescente divisão social: os sectores mais vulneráveis ​​da população vivem cada vez mais afastados dos centros urbanos onde enfrentam más condições de moradia, falta de infraestrutura e um ambiente insalubre.

Precisamos desenvolver a infraestrutura política que possam construir acordos sociopolíticos abrangentes, de longo prazo e socialmente participativos

Por isso, temos que pensar em soluções socioecológicas integrais que incluam a redução do consumo de energia, a sustentabilidade, a redução das desigualdades sociais, o desenvolvimento de espaços adequados de moradia e a justiça ambiental.

Essas medidas devem necessariamente surgir de um processo democrático de construção de acordos sociais e institucionais de longo prazo. Como observou a planejadora urbana Jane Jacobs, "as cidades têm a capacidade de fornecer algo para todos, mas apenas porque, e somente quando, são criadas por todos".

Em outras palavras, o terceiro grande desafio que enfrentamos, e talvez o mais importante, é construir uma nova governança democrática. Precisamos desenvolver a infraestrutura política e os mecanismos operacionais que possam construir acordos sociopolíticos abrangentes, de longo prazo e socialmente participativos. A chave está em modelos de governança de base territorial, com participação cidadã efetiva, institucionalizando espaços de inteligência coletiva apoiados em redes de organizações, universidades e coletivos. Só assim poderemos construir consensos para uma urbanização equitativa, produtiva, ordenada e sustentável que melhore a qualidade de vida, a ordem espacial e a sustentabilidade ambiental do nosso planeta.

A transformação é possível e as cidades são o palco. Assim como as cidades nos permitiram emergir da era neolítica, hoje podem ser o espaço onde construímos a saída de um modelo de cidade exclusivo e determinado pelo mercado. É nas cidades que se concentram a riqueza, o poder de decisão e o conhecimento dos desafios e soluções que temos pela frente.

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