ourEconomy: Opinion

A Covid-19 tornou os super-ricos mais ricos. Precisamos taxar riquezas bilionárias

Bilionários americanos acumularam riqueza e poder que distorcem a democracia – enquanto milhões foram lançados na pobreza.

Chuck Collins
5 Abril 2021, 12.00
Elon Musk’s wealth has grown by nearly $157bn since the start of the pandemic
|
Britta Pedersen/DPA/PA Images

O que as sociedades decentes devem fazer quando uns poucos ricos colhem grandes lucros financeiros durante uma pandemia global?

Enquanto milhões perderam suas vidas, meios de subsistência, saúde e riqueza, os bilionários e super-ricos do mundo prosperaram. De acordo com a pesquisa do Americans for TaxFairness e do Institute for Policy Studies, entre 18 de março de 2020 e 19 de fevereiro de 2021, a riqueza combinada dos bilionários dos Estados Unidos aumentou US$ 1,3 trilhão, um aumento de 44,6% no espaço de apenas 48 semanas.

A concentração de riqueza é impressionante. Existem hoje 661 bilionários nos Estados Unidos que, em 19 de fevereiro de 2021, somavam uma riqueza de US$ 4,26 trilhões. Menos de um ano anos, em 18 de março de 2020, esse total era de US$ 2,9 trilhões. Para dar uma perspectiva, a riqueza combinada da metade inferior de todas as famílias americanas, 165 milhões de pessoas, é de US$ 2,4 trilhões, de acordo com o Federal Reserve.

A riqueza de Elon Musk cresceu espantosos US$157 bilhões, de US$ 24,6 bilhões em 18 de março de 2020 para US$ 182 bilhões em 19 de fevereiro de 2021, um aumento de quase sete vezes, impulsionado pelo rápido aumento no valor das ações da Tesla.

A riqueza de Jeff Bezos aumentou de US$ 113 bilhões para US$ 189 bilhões no mesmo período, um aumento de quase 60%.

A riqueza de Mark Zuckerberg aumentou de US$ 54,7 bilhões para US$ 95,7 bilhões, alimentada pelo Facebook, da qual é dono.

Dan Gilbert, presidente da Quicken Loans, viu sua riqueza disparar 559%, de US$ 6,5 bilhões em março de 2020 para US$ 42,8 bilhões em 19 de fevereiro de 2021.

Billionaire_chart.width-800.png
A riqueza combinada dos bilionários dos EUA aumentou 44,6% entre março de 2020 e fevereiro de 2021 | Dados do Institute of Policy Studies

Esses são níveis de riqueza e poder concentrados que distorcem a democracia. E muitos desses bilionários controlam empresas poderosas com a capacidade, especialmente durante a pandemia, de consolidar sua participação no mercado e poder de monopólio sobre grandes setores da economia global e dos Estados Unidos. Amazon, Walmart e Target se beneficiaram por terem sua competição de rua efetivamente eliminada sob as condições econômicas artificiais da pandemia.

Os ricos nem sempre se beneficiam durante as adversidades econômicas. No rescaldo da recessão de 2008, os bilionários americanos viram sua fortuna cair junto com a dos demais. No entanto, quatro anos depois, em setembro de 2012, a riqueza total dos Forbes 400 já superava os níveis anteriores à recessão de 2008.

Enquanto alguns aumentos nos ativos bilionários refletem o aumento geral nos mercados de ações, os maiores ganhos refletem suas participações em empresas poderosas que se aproveitaram do monopólio temporário e das condições de isolamento criadas pela pandemia.

Compras online, restaurantes e aplicativos de entrega de comida, telemedicina, a indústria farmacêutica e videoconferência colheram frutos inesperados da economia pandêmica. Dos cerca de 56 novos bilionários que surgiram ao longo de 2020, muitos estão associados a ofertas públicas iniciais em empresas como Doordash, AirBnB e Snowflake.

A Argentina e a Bolívia estão considerando impostos sobre a riqueza para ajudar a pagar pela recuperação econômica

Essas desigualdades injustas oferecem o contexto para um debate sobre quem deve pagar por pacotes de recuperação de Covid-19 de trilhões de dólares. Embora políticos de todas as tendências tenham evitado falar sobre como pagar pelos trilhões em gastos de 2020, o momento chegou.

Países em todo o mundo estão considerando implementar impostos sobre a riqueza dos crescentes ativos bilionários como forma de levantar o dinheiro necessário. A Argentina e a Bolívia, por exemplo, estão considerando impostos sobre a riqueza para ajudar a pagar pela recuperação econômica.

Tempos de guerra e crise nos Estados Unidos historicamente levaram à instituição de sistemas tributários mais progressivos, incluindo o "recrutamento de riquezas" para pagar as contas. Em 1862, os Estados Unidos estabeleceram um imposto sobre herança para ajudar a pagar a Guerra Civil. As arrecadações sobre heranças e propriedades apareceram durante a Guerra Hispano-Americana e a Primeira Guerra Mundial, finalmente sendo implementadas em 1916 com impostos federais permanentes de renda e herança.

Em julho de 2020, vários senadores dos EUA introduziram o Make Billionaires Pay Act para promover um imposto de riqueza pandêmico único de 60% sobre ganhos bilionários em 2020. Segundo uma estimativa, o esforço arrecadaria US$ 420 bilhões para uma provisão de saúde. Vários estados, incluindo os estados da Califórnia e de Washington, têm legislação pendente para instituir um imposto sobre a riqueza e tornar os impostos estaduais sobre a propriedade mais progressivos, com alíquotas mais altas para os bilionários.

A senadora Elizabeth Warren fala vestindo um blazer roxo.
A senadora Elizabeth Warren recentemente apresentou legislação de imposto sobre a fortuna | Nash Greg/Pool/ABACA/ABACA/PA Images

Recentemente, a senadora Elizabeth Warren apresentou uma versão atualizada de sua proposta de imposto sobre a fortuna. A proposta inicial de Warren era um imposto anual sobre a riqueza das famílias com renda superior a US$ 50 milhões, as cerca de 100 mil famílias mais ricas dos EUA. O imposto anual de 2% aumentaria para 6% sobre cada dólar de patrimônio líquido acima de US$ 1 bilhão. A proposta levantaria quase US$ 4 trilhões nos próximos dez anos.

Um imposto que isenta 99,9% dos contribuintes e, ao mesmo tempo, gera receitas substanciais de bilionários é uma boa ideia e boa política. Embora membros do Congresso possam estar divididos em relação a taxar fortunas, pesquisas dos últimos dois anos indicam amplo apoio popular à tributação dos ricos.

Um imposto anual sobre o patrimônio exigirá um novo conjunto de regras de implementação. Nesse ínterim, o Congresso pode agir rapidamente para restaurar a progressividade do código tributário dos EUA, um sistema que viu as taxas de impostos pagas por bilionários despencarem ao longo do último meio século.

Uma proposta é instituir uma sobretaxa – uma taxa adicional de 10% sobre rendas acima de US$ 3 milhões, seja de capital ou de salários. Isso levantaria US$ 660 bilhões na próxima década inteiramente das famílias pertencentes ao 0,1% – e nos aproximaria de um sistema mais justo que elimina o tratamento fiscal preferencial da renda do capital em relação à renda do salário e trabalho.

Nenhuma dessas propostas terá sucesso a menos que os EUA acabem com as brechas fiscais, os paraísos fiscais offshore e as chamadas "dynasty trusts" que permitem aos ultra-ricos esconder sua riqueza.

Tributar a riqueza para pagar as iniciativas de auxílio e recuperação econômica da Covid-19 é no mínimo justo durante uma pandemia em que pessoas de baixa renda e minorias raciais foram as mais afetadas. Mas um imposto sobre a riqueza também ajudaria a proteger a democracia da “tirania de uma plutocracia” que preocupava o presidente Theodore Roosevelt no início do século passado.

As concentrações massivas de riqueza e poder de hoje são prejudiciais às instituições democráticas, à coesão social e à estabilidade econômica para todos. Chegou a hora de impor impostos sobre a riqueza bilionária.

Economics journalism that puts people and planet first. Get the ourEconomy newsletter Join the conversation: subscribe below

Comentários

Aceitamos comentários, por favor consulte ás orientações para comentários de openDemocracy
Audio available Bookmark Check Language Close Comments Download Facebook Link Email Newsletter Newsletter Play Print Share Twitter Youtube Search Instagram WhatsApp yourData