democraciaAbierta: Opinion

O desafio do Chile: Por que estou otimista

A vitória de Gabriel Boric, um presidente de esquerda, tem consequências além das fronteiras do país

Ariel Dorfman
7 Janeiro 2022, 12.00
Gabriel Boric ganhou as eleições presidenciais de dezembro com 56% dos votos – uma margem histórica
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EFE News Agency/Alamy Stock Photo

Há muitas razões pelas quais a vitória retumbante de Gabriel Boric, um parlamentar millennial de esquerda, nas eleições presidenciais do Chile, ecoará muito além das fronteiras da nação andina.

Em tempos que viram o aumento alarmante do autoritarismo em todo o mundo, devemos celebrar que os chilenos rejeitaram não apenas o adversário de Boric, o ultraconservador e falso populista José Antonio Kast, admirador ferrenho do ditador Augusto Pinochet, mas também suas promessas de política anti-imigração, anti-aborto, de medo e intolerância.

Igualmente significativo é que meus compatriotas escolheram através de Boric, que aos 35 anos será o presidente mais jovem da história do Chile, alguém que incorpora o surgimento de uma nova geração em nosso conturbado planeta. As causas que promove são as mesmas pelas quais jovens em todos o mundo vêm lutando: igualdade de gênero, o empoderamento de mulheres e povos indígenas, o fim da brutalidade policial e políticas econômicas neoliberais, um aprofundamento da democracia e dos direitos civis e, acima de tudo, ação urgente sobre as mudanças climáticas.

Mas, como militantes em outros lugares, Boric também enfrenta obstáculos enormes para promulgar as mudanças cruciais que, no caso do Chile, são necessárias para garantir justiça e dignidade para a maioria negligenciada do país. Apesar da ampla margem da vitória de Boric com 56% dos votos – o maior da história do país –, o trajeto não será fácil. Afinal, 44% do eleitorado votou em alguém como Kast, que, como autocratas em outras nações, marginalizou e engoliu ​​os elementos potencialmente democráticos dos partidos tradicionais de direita. Além de enfrentar essa elite retrógrada, Boric terá de negociar suas principais reformas com um Congresso em que sua coalizão – junto com os aliados de centro-esquerda – não contam com uma maioria viável.

Boric foi forjado nos protestos estudantis de dez anos atrás – e desde então se mantém fiel aos princípios dessa luta

Boric também enfrenta um país devastado pela pandemia e uma crise econômica profunda, dominado por atores econômicos e sociais que não estão dispostos a abrir mão de seus privilégios e mais do que dispostos a sabotar tentativas de redistribuir o poder e a renda. Pressionado por sua base radical para avançar a agenda de forma rápida, Boric terá de lidar simultaneamente com os apelos de seus aliados moderados – que são fundamentais para a realização de mudanças estruturais ousadas. Os membros da elite financeira e industrial do Chile – e muitos especialistas moderados – já deixaram claro que o futuro presidente deve limitar seus objetivos ambiciosos.

No entanto, permaneço cautelosamente otimista.

Em parte, isso se deve às qualidades excepcionais do próximo presidente do Chile. Boric foi forjado nos protestos estudantis de dez anos atrás – e desde então se mantém fiel aos princípios dessa luta, evitando a tentação de ser corrompido e domesticado pelos que estão no poder. Boric também aprendeu o valor da flexibilidade. É encorajador vê-lo tão aberto ao diálogo, notar sua vontade de reconhecer os erros e se proclamar como alguém – como ele disse em seu discurso de vitória – que escuta mais do que fala. Nunca subestime a capacidade de impor de um líder com verdadeira compaixão por aqueles que sofrem, que conta com o dom único de coragem e generosidade de seus semelhantes.

A ascensão de Boric vem em um momento propício para a esquerda latino-americana

Outro fator a favor de Boric é a Convenção Constitucional (em cuja implementação ele foi fundamental). Os 155 constituintes escolhidos pelo povo estão em processo de escrever uma nova Carta Magna para substituir a fraudulenta Constituição aprovada por Pinochet em 1980 e que tem impossibilitado reformas desde então. O processo sem precedentes de reimaginar como a nação deve ser governada, de como ela pode realizar o sonho de se tornar uma sociedade verdadeiramente inclusiva, está sendo realizado por constituintes que representam a imensa diversidade do povo chileno. A convenção tem conta com o mesmo número de mulheres e de homens, é presidida por uma mulher indígena e está no caminho de libertar o Chile das persistentes algemas legais e ideológicas do legado de Pinochet. A convenção também se esforça para tornar suas deliberações participativas e baseadas na comunidade – uma prática que coincide com os próprios instintos e experiências de Boric.

Igualmente promissor para o sucesso de Boric é que sua ascensão vem em um momento propício para a esquerda latino-americana. Argentina, Bolívia e Peru, as três nações que fazem fronteira com o Chile, estão atualmente governadas, embora de maneira incerta e precária, por governos de esquerda. Além disso, a eleição de uma mulher socialista como presidente de Honduras e a probabilidade de que Lula derrote Jair Bolsonaro (amigo de Kast, a propósito) em Brasil são outros sinais de mudanças importantes. Os governos de direita no Equador e na Colômbia estão em apuros. Os colombianos irão às urnas este ano e pesquisas mostram que o ex-guerrilheiro Gustavo Petro pode conquistar uma vitória surpreendente.

A feroz defesa dos direitos humanos por parte de Boric e seu compromisso com as normas e instituições democráticas – que já o levaram a criticar a ditadura do pseudo-sandinista Daniel Ortega na Nicarágua e as atrocidades do venezuelano Nicolás Maduro – poderiam fortalecer a necessária renovação da esquerda na América Latina, ajudando a evitar os erros dos governos revolucionários anteriores.

Finalmente, no entanto, minha convicção de que aqueles que votaram em Boric podem ser capazes de enfrentar, junto com ele, tantos e tão diversos desafios, está enraizada em minha existência pessoal. Nascido em Buenos Aires e criado em Nova York, cheguei a Santiago em 1954, aos 12 anos. Rapidamente me encantei pela beleza da terra e pela coragem e sabedoria de seu povo. Nas décadas seguintes, encontrei um lar no vasto movimento pela justiça social chileno, um movimento que culminou no governo democraticamente eleito do socialista Salvador Allende. E depois do sangrento golpe de 1973 que pôs fim ao movimento de Allende, fiquei espantado e inspirado pela forma como o país que passei a chamar de meu conseguiu resistir à ditadura com enormes sacrifícios e logo expulsar Pinochet por meios pacíficos, iniciando uma transição democrática que, com todas as suas imperfeições, encontrou agora um líder que pode ajudar o povo a completar seu caminho em direção à liberdade e à igualdade.

Eu vi com meus olhos o que os chilenos e chilenas podem fazer quando são chamados a uma causa nobre. Só posso rezar para que agora, mais uma vez, meu país seja um exemplo de libertação para um mundo turbulento que clama por alguma luz no meio de tanta escuridão.


Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo The Nation. Leia o original aqui.

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