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Por que reportar na Amazônia é tão perigoso

Desaparecimento e assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips ilustra os riscos crescentes enfrentados por profissionais que atuam na região

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Pablo Albarenga Francesc Badia i Dalmases
14 Junho 2022, 12.00

Canoas en un río de la Amazonía

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Pablo Albarenga

Quando cobrimos a Amazônia, tememos o perigo a cada esquina.

Quando estávamos saindo de território indígena no Pará em uma de nossas recentes viagens jornalísticas, fomos abordados pela polícia militar. Com armas apontadas para nós, os agentes revistaram nossas mochilas e pertences pessoais enquanto nos questionavam.

Nos deixara ir apenas quando perceberam que éramos repórteres estrangeiros. Mas deixaram um aviso: "Eu teria cuidado ao andar por aqui. São lugares perigosos, especialmente para jornalistas como vocês.”

Os corpos que se teme serem do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira foram encontrados na Amazônia na segunda-feira, 13 de junho, pouco mais de uma semana após seu desaparecimento.

As esperanças de encontrá-los vivos começaram a diminuir depois que a polícia confirmou haver encontrado pertences pessoais de ambos. Ao que tudo indica, Phillips e Pereira haviam sofrido ameaças antes de desaparecer na manhã de domingo, 5 de junho.

Ambos os profissionais tinham vasta experiência na região amazônica, tendo publicado reportagens em diversos veículos, incluindo o The Guardian. As autoridades brasileiras prenderam um homem em conexão com os desaparecimentos.

Phillips e Pereira desapareceram no Vale do Javari, onde a combinação de atividades ilegais de garimpeiros, madeireiros e narcotraficantes que descem do Peru se soma à pesca ilegal de pirarucu, um valioso peixe amazônico que chega a pesar 200 kg.

A crescente demanda nas cidades pelo peixe, que sempre fez parte da dieta dos povos indígenas, vem fomentando o tráfico ilegal. Diante da pesca excessiva, o pirarucu já está ameaçado de extinção. Acredita-se que este seja o assunto que Phillips e Pereira estavam reportando quando desapareceram.

Além da pesca do pirarucu, o tráfico de coca, cujo cultivo no vizinho Peru aumentou nos últimos anos e contribuiu para o desmatamento da floresta amazônica, também aumentou no Brasil. Com o aumento da incidência de tráfico de drogas na região, a violência armada contra comunidades indígenas também disparou.

A densidade da floresta oferece excelente cobertura para essas atividades, e a escassa presença de autoridade abre espaço para qualquer tipo de crime. Em partes da região amazônica, a polícia e os militares têm poucos recursos ou fecham os olhos para atividades criminosas. Centenas de guardas indígenas vêm intensificando suas atividades nos territórios, mas os pequenos grupos não dão conta da dimensão da Amazônia.

Bosque inundado na Amazônia brasileira

Bosque inundado na Amazônia brasileira

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Pablo Albarenga

A impunidade na Amazônia tem raízes profundas, mas piorou em toda a região nos últimos anos. O fenômeno ficou evidente através da lenta reação do governo brasileiro ao desaparecimento de Pereira e Phillips, resposta comum entre os governos da região.

Nos momentos iniciais da notícia do desaparecimento dos profissionais, as autoridades brasileiras fizeram vista grossa. A primeira resposta veio do Exército mais de 24 horas depois. Em 6 de junho, o Comando Militar da Amazônia (CMA) se disponibilizou a enviar uma missão de busca, mas deixou claro que só o faria “mediante acionamento por parte do Escalão Superior”.

No dia seguinte, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, chamou a expedição de "aventura não recomendável". Ao sugerir que os profissionais não deveriam estar na região em primeiro lugar e que foram imprudentes, Bolsonaro tenta transferir a responsabilidade para as vítimas.

Bolsonaro não tentou esconder sua intenção de culpar os jornalistas. Essa reação não surpreende. O presidente promove abertamente planos para legalizar a mineração em territórios indígenas, um negócio que deve gerar mais de U$ 800 milhões, segundo dados do Ministério de Minas e Energia.

A Fundação Nacional do Índio (Funai), organização para a qual Pereira havia trabalhado, também culpou os profissionais, acusando-os de não contar com autorização necessária para entrar em território indígena.

Durante um café da manhã com jornalistas em junho de 2019, Phillips perguntou a Bolsonaro sobre a preservação da floresta tropical e como seu governo pretendia mostrar que levava a sério a preservação da Amazônia. Desdenhoso, Bolsonaro respondeu: “O primeiro que você tem que entender é que a Amazônia é do Brasil, não é de vocês", sugerindo que atividades extrativistas, legais ou ilegais, são uma questão de soberania.

O que aconteceu com Phillips e Pereira destaca mais uma vez os perigos enfrentados pelos jornalistas que cobrem a atual crise na Amazônia. Devemos ter cuidado, mas não podemos nos dar ao luxo de parar de contar essa história. É uma batalha que não podemos perder.

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