democraciaAbierta: Analysis

Furacões e coronavírus: tempestade perfeita sobre as ilhas do Caribe

As ações multilaterais aparecem como a melhor estratégia para o Caribe superar as crises climáticas e sanitárias.

Miguel González Palacios
11 February 2021
O presidente da Colômbia Iván Duque em sua viagem por Providencia após o furacão Iota
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Ali Waked/Twitter

A temporada de furacões de 2020, a mais longa e intensa da história, deixou um rastro de destruição em países do Caribe que já sofriam com a devastação causada pela Covid-19.

Como resultado do aumento da temperatura do planeta, os furacões no Atlântico Norte tornaram-se mais fortes e destrutivos nas últimas duas décadas, atingindo mais países, até várias vezes no mesmo ano. Essa tendência está esgotando os recursos humanos e financeiros das nações insulares do Caribe, já limitados pelo tamanho de sua população, economias relativamente modestas e instituições fracas, que mantêm vivo o passado de colonização (várias dessas nações ainda estão, de uma forma ou de outra, sob jurisdição de outro Estado).

Para complicar ainda mais as coisas, a temporada de furacões do ano passado chegou em meio à pandemia de Covid-19, que apesar de não ter produzido um número tão alto de infecções e mortes em comparação à outras partes do mundo, teve um efeito devastador na economia desses países. Devido especialmente à redução do turismo e do envio de remessas, que são as principais fontes da receita da maioria dos países caribenhos, a região viu uma contração do crescimento de 6,2% em 2020.

As ilhas do Caribe estão em uma situação crítica da qual não serão capazes de se recuperar por conta própria. Como em poucos lugares do mundo, aqui as ações multilaterais são essenciais para que a população e os ecossistemas sobrevivam ao ataque violento das crises climáticas e sanitárias.

Insulares, mas não ilhados

O principal mecanismo intergovernamental na região é a Comunidade do Caribe (CARICOM), criada em 1973 com a missão de promover a unidade entre países e territórios caribenhos com base na integração econômica, segurança, coordenação da política externa e desenvolvimento humano. O Tratado revisto de Chaguaramas, em vigor desde 2002, fortaleceu o escopo de ação da CARICOM e lançou as bases para a criação de outros órgãos regionais, como a Agência de Gestão de Emergências e Desastres do Caribe (CDEMA), a Agência de Saúde Pública do Caribe (CARPHA) e o Centro de Mudanças Climáticas da Comunidade Caribenha.

CARICOM tem atualmente 15 membros plenos: onze países insulares independentes (Antígua e Barbuda, Bahamas, Barbados, Dominica, Granada, Haiti, Jamaica, Saint Kitts e Nevis, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas e Trinidad e Tobago), três países continentais independentes (Belize, Guiana e Suriname) e um território ultramarino do Reino Unido (Montserrat). Também participam como membros associados cinco territórios que ainda dependem da coroa britânica: Anguilla, Bermudas, Ilhas Virgens Britânicas, Ilhas Cayman e Turks e Caicos.

Devido às suas capacidades limitadas, os países caribenhos dependem cada vez mais de ajuda financeira e cooperação de outros países e organizações

A integração de países insulares de língua espanhola (Cuba, República Dominicana e Porto Rico) à CARICOM tem sido dificultada por diferenças linguísticas e culturais, embora no caso de Cuba se deva em maior medida ao interesse dos Estados Unidos de manter sua influência no Mediterrâneo americano. Durante a Guerra Fria, Washington estreitou seus laços com os países da CARICOM para promover sua política isolacionista contra Havana (somente em 2000 a organização finalmente assinou um acordo de cooperação econômica com a ilha), assim como para obter seu apoio para a invasão da ilha de Granada em 1983, que derrubou o partido revolucionário que havia assumido o poder, apoiado por Cuba e a União Soviética.

Com a virada do século, o Caribe se tornou o terreno natural dos esforços do falecido presidente venezuelano Hugo Chávez de consolidar uma liderança regional que contrabalançasse a hegemonia dos Estados Unidos no hemisfério. Isso incluiu a criação da Petrocaribe, em 2005 , aliança que permite a compra preferencial de petróleo venezuelano por 15 países centro-americanos e caribenhos, e a adesão de vários deles à Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA). Dessa forma, o regime chavista conseguiu consolidar uma base de aliança e apoio diplomático para a defesa de seus interesses em espaços multilaterais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA), com a qual conta ainda hoje.

Nos últimos anos, a região também foi palco da expansão global da China e sua queda de braço com os Estados Unidos. O gigante asiático tem aliados de longa data no Caribe, como Cuba, Guiana e Jamaica, e conseguiu a adesão oficial de dez países caribenhos à chamada Nova Rota da Seda. A China também fez com que alguns outros rompessem suas relações diplomáticas com Taiwan como condição para receber empréstimos e investimentos multimilionários. Pequim conseguiu aproveitar o vácuo deixado por Washington durante o governo de Donald Trump para consolidar sua influência no Caribe, tornando-se o principal parceiro internacional de ajuda ao desenvolvimento, reconstrução dos países afetados pelos furacões e, agora, gestão da crise de saúde da Covid-19.

O Caribe em estado de emergência

A América Latina e o Caribe é uma região altamente propensa a desastres naturais (atrás apenas da Ásia) e sofre proporcionalmente mais mortes e perdas econômicas em decorrência deles. Devido às suas capacidades limitadas, os países caribenhos dependem cada vez mais de ajuda financeira e cooperação de outros países, organizações internacionais, bancos multilaterais, sociedade civil e empresas privadas, para a tarefa monumental de prestar auxílio, reconstruir sua infraestrutura e impulsionar sua economia antes do seguinte desastre.

Estes países também dependem da cooperação internacional para administrar emergências sanitárias, particularmente o Fundo Rotativo para a Compra de Vacinas e o Fundo Estratégico da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que lhes permitiram erradicar doenças graves como a poliomielite, rubéola e sarampo e controlar a epidemia de HIV.

Em uma situação de dependência estrutural na região caribenha, o multilateralismo aparece como a melhor estratégia para enfrentar desafios tão grandes como as mudanças climáticas e as pandemias

Até 1º de fevereiro, a região registrou 78 mil infecções e 1,6 mil mortes em uma população de pouco mais de 19 milhões, somando os países membros e associados da CARICOM – cifras comparativamente baixas. Seus frágeis sistemas de saúde conseguiram conter a pandemia graças às doações de suprimentos e equipamentos médicos da China, Reino Unido e Emirados Árabes Unidos, além de pessoal médico enviado por Cuba. A maior parte dessa ajuda internacional foi administrada por instituições da CARICOM e pelo Banco de Desenvolvimento do Caribe, para garantir uma distribuição equitativa entre as nações do Caribe.

Quanto à vacina, essas nações enfrentam enormes dificuldades orçamentárias e de endividamento para comprá-la diretamente dos fabricantes. Nesse contexto, a região voltará a depender da cooperação bilateral, principalmente de empréstimos e subsídios prometidos pela China, e de mecanismos multilaterais como a iniciativa Covax para superar a pandemia, com todos os riscos que isso implica.

O futuro do Caribe é multilateral

Em uma situação de dependência estrutural como a vivida pela maioria das nações caribenhas, o multilateralismo aparece como a melhor estratégia para enfrentar desafios tão grandes como as mudanças climáticas e as pandemias. A aparente fragilidade desses países também pode ser a força que lhes permite melhor posicionar-se nos cenários internacionais para pressionar, por exemplo, pela implementação dos Acordos de Paris, que obrigam as nações mais ricas a mobilizar recursos para construir maior resiliência em regiões vulneráveis ​​como esta.

Da mesma forma, o Caribe tem grande importância estratégica tanto para a China quanto para os Estados Unidos (e agora mais com a chegada de Biden à Casa Branca). Portanto, os países da região devem trabalhar de mãos dadas para inclinar a balança a favor de seus interesses coletivos. Caso contrário, a região poderia se tornar cada vez mais fragmentada e vulnerável devido à competição entre os países pelos benefícios de suas relações bilaterais com as duas potências.

O destino do Caribe não está escrito e a região pode se tornar um laboratório em pequena escala do que a ação multilateral pode alcançar para mitigar os efeitos da mudança climática e para a reconstrução sustentável da devastação causada por desastres naturais e a pandemia de Covid-19.

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