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Pressão da indústria petroleira ameaça os Waorani do Equador

Há 30 anos, Alicia Cahuiya defende o Yasuní, um dos lugares mais biodiversos do mundo, que é também a maior reserva de petróleo do país

Gabriela Ruiz Agila
28 Setembro 2021, 12.00
Alicia Cahuiya é uma das lideranças indígenas que mais fala com a imprensa para denunciar problemas ambientais (2019)
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Carolina Zambrano/Land is Life

Alicia Cahuiya subiu à tribuna da Assembleia Nacional do Equador, fazendo ecoar sua palavra de mulher Waorani pelos murais onde se fazem as leis da pátria, colonial e paradoxal. Havia chegado do Yasuní com um grupo de indígenas com o dever de apoiar a exploração de petróleo em seu território ancestral, mas ela estava decidida a fugir do roteiro.

“Existem sete companhias petroleiras operando em território Waorani, que abrange quatro províncias. Que benefícios recebemos? Apenas ficamos mais pobres! (...) Os indígenas que vivem na selva não somos o problema. Queremos que se respeite o território. (...) Cada vez mais os governos dividem o território: zona intangível, Parque Yasuní. O que administramos os Waorani?"

Assim reivindicou Alicia, liderança indígena da Amazônia equatoriana, naquele 4 de outubro de 2013. Tinha uma serpente pintada em cada lado da face, símbolo de sabedoria. Duas faixas de tecidos claros e escuros cruzavam sobre seu torço, junto a um grande colar de sementes; uma grande pena vermelha coroava sua cabeça.

“Todos vocês devem dizer sim”, foi o pedido do presidente da Nacionalidade Waorani do Equador (Nawe), Moi Enomenga, aos indígenas de base, antes de começar sua participação na Assembleia Nacional do Equador. Alicia lembra que ele estava vestido como um “grande senhor” e usava uma coroa roubada.

Os membros da comunidade foram chamados ao debate no poder legislativo de forma enganosa para aprovar o projeto de lei que autorizaria a exploração dos Blocos 31 e 43 no Parque Nacional Yasuní. Este é um dos lugares mais biodiversos do planeta e abriga os povos indígenas Kichwa, Shuar, Waorani e povos isolados, como os Tagaeri e Taromenane.

Representantes do ex-presidente Rafael Correa (2007-2017) pressionaram Alicia e outros Waoranis através daquela diretoria corrompida. Todos foram levados desde de suas comunidades por conveniência do governo.

Pouco parecia importar aos legisladores que a aprovação do projeto de lei trouxesse como consequência a devastação da floresta amazônica e o impacto na integridade de povos como os Kichwa de Sarayaku, Sapara ou povos em isolamento voluntário, como os Tagaeri-Taromenane.

Enomenga ameaçou: “Alicia, você está agindo muito mal. Quando chegar na comunidade, seus irmãos vão matar você”. Os Waoranis se chamam de irmãos entre si. A ideia de que sua própria gente pudesse lhe fazer mal provocou em Alicia uma grande tristeza.

Ela vivia com medo e sofrimento, temendo por sua vida e de sua família. Pouco depois, desconhecidos invadiram um quarto que alugava a preços módicos na cidade de Puyo, para quando saía da floresta.

Naquela noite, ela dormiu no sótão. Os invasores não a viram quando entraram. Roubaram seu computador, telefone e câmera depois de envenenar o cachorro que vigiava a entrada da casa. Ales deixaram um bilhete dizendo: “Cuidado com sua vida, você pode morrer”. Alicia ainda se pergunta o que haveria acontecido se a tivessem encontrado.

Alicia Cahuiya em roupa tradicional
Alicia Cahuiya durante sua apresentação perante a CIDH em 2013 | Comissão Interamericana de Direitos Humanos (2015)

Apesar dessas ameaças, Alicia continuou trabalhando pelos Waoranis e outros povos indígenas. Em 2013, foi testemunha na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) para contar sobre a situação dos povos isolados Tagaeri-Taromenane, afetados pelos projetos de desenvolvimento dos setores estratégicos que devastam recursos naturais e modos de vida. E desde 2018 trabalha como coordenadora do Programa de Povos Indígenas Isolados da Organização Land is Life.

As diversas ações e protestos indígenas não impediram a exploração do petróleo. Após resultado da consulta popular de 2018 para proteger o Yasuní, o governo de Lenín Moreno (2017-2021) descumpriu o mandato do povo equatoriano e autorizou a construção de plataformas de perfuração e produção de petróleo no Bloco 43 (ITT), que afetou povos isolados e o território Waorani.

Nesse cenário, em 2019, o povo Waorani venceu a decisão judicial nos tribunais nacionais para que o direito à consulta prévia, livre e informada fosse respeitado, amparado pelo artigo 57 da Constituição equatoriana. Mesmo assim, o governo não deteve seus planos.

A pressão governamental e das petroleiras tem sido tão forte que promovem contratos injustos desde o início. Por exemplo, em 2001, a empresa Agip Oil ganhou milhões de dólares com a exploração do Bloco 10, enquanto a comunidade local recebeu apenas um saco de arroz, um saco de açúcar, dois baldes de banha de porco, um pacote de sal, duas bolas de futebol, um apito para o árbitro e um cronômetro.

Já as consequências, essas acontecem no território. Em pleno coração da Reserva de Biosfera do Yasuní, o dano é evidente: o rio Manduro registra o dobro de hidrocarbonetos (0.6mg/1) permitidos pela União Europeia para água própria para banho e 60 vezes mais do que o permitido para água para consumo doméstico. Enquanto isso, 447 tochas permanecem acesas queimando gás liquefeito de petróleo (GLP) a céu aberto. E, há alguns meses, a aldeia Waorani Dikapare – localizada no Bloco 55, na província de Orellana – foi militarizada a fim de proteger as operações da petroleira Ecuaservoil S.A.

A longa caminhada de Alicia

Já as consequências, essas acontecem no território. Em pleno coração da Reserva de Biosfera do Yasuní, o dano é evidente: o rio Manduro registra o dobro de hidrocarbonetos (0.6mg/1) permitidos pela União Europeia para água própria para banho e 60 vezes mais do que o permitido para água para consumo doméstico. Enquanto isso, 447 tochas permanecem acesas queimando gás liquefeito de petróleo (GLP) a céu aberto. E, há alguns meses, a aldeia aorani Dikapare – localizada no Bloco 55, na província de Orellana – foi militarizada a fim de proteger as operações da petroleira Ecuaservoil S.A.

Alicia Cahuiya em roupa tradicional na mata
Retrato de Alicia Cahuiya para o relatório “Os contatos dos povos isolados” (2021) | Carolina Zambrano/Land is Life

Durante quatro anos, em distintos momentos, a vi caminhar descalça pelas ruas de Quito, participar de coletivas de imprensa e em aparições públicas. Sua imagem com diadema de penas vermelhas e amarelas, wayruros (sementes conhecidas como olho-de-cabra no Brasil) nos pulsos e joelhos para proteção e sua vestimenta tradicional tecida com fibras da palmeira chambira a identificam por onde quer que passe.

A máscara vermelha sobre seu rosto, pintada com urucum, lhe dá mais imponência quando fala diante de dirigentes indígenas, presidentes, jornalistas, ambientalistas ou em fóruns internacionais.

Ela mede aproximadamente 1,55 m. Aos 46 anos, tem a força de um rio; vai e vem de Ñoneno a Quito e depois a Shell – sua comunidade – entre caminhadas, viagens em canoa e ônibus.

Ela enfrenta as petroleiras e o poder político com orgulho inspirado pelo legado de seus ancestrais, habitantes do Yasuní.

Sua avó, Waare, lhe deu o nome de “Weya”, que significa “Guardiã da cachoeira”, e a instruiu no uso de plantas. Foi ela quem a ensinou a entrar na mata, preparar flechas, fazer artesanato e cuidar do pomar. Seu avô, Iteca, foi um guerreiro respeitado que lutou contra seringueiros. Ele foi assassinado e seu corpo enterrado no Yasuní, seguindo seus rituais.

Waare chorava ao lembrar de Iteca, mas não tinha um lugar para ir honrar sua memória, porque esta havia sido arrasado pelas máquinas das petroleiras. Os Waoranis perderam seus kewencores – locais de enfrentamento por defesa territorial – e as sepulturas de seus antepassados quando o governo autorizou a abertura de caminhos e oleodutos por quilômetros dentro da floresta.

Quando Alicia compreendeu que as lágrimas de sua avó previam a dor das próximas gerações, sentiu um grande incêndio em seu coração. Nos anos, decidiu encontrar uma forma de fazer escutar sua voz. Organizou-se com outras mulheres; melhorou seu espanhol e viajou a Quito com mais frequência para contar uma história que contradiz o discurso do boom petroleiro.

Anteriormente, as obras de infraestrutura petroleira haviam provocado o deslocamento forçado dos Waoranis. E essa tampouco foi a única política que os afetou. Na década de 70, o governo e petroleiras como Texaco-Gulf criaram o Instituto Linguístico de Verão (ILV) para fazer a função de mediador comunitário.

Sob o argumento de evangelizar e educar os Waoranis, o governo, as petroleiras e o ILV iniciaram um isolamento forçado através do “protetorado indígena” de Tiweno a fim de esvaziar terras. Desta forma, o Estado equatoriano pôde oferecer “terrenos baldios” às petroleiras, reforçando a prática de expropriação de terras coletivas em nome do “interesse público”.

Os vestígios e a memória dos antepassados de Alicia Cahuiya são apagados pelas políticas públicas do setor petrolífero. Por isso, ela e outros Waoranis resistem. Eles sabem que o petróleo continua devastando seu território e que, sem a floresta, eles podem desaparecer.

Tomar a lança

O petróleo levou outros problemas aos territórios indígenas: desmatamento, mineração, hidrelétricas, alcoolismo, violência e prostituição. Alguns dirigentes Waoranis assinaram acordos com petroleiras para a exploração do território ancestral. Enquanto as mulheres eram relegadas ao trabalho doméstico, os homens – empregados pelas companhias petroleiras – aprendiam espanhol e costumes estrangeiros; ganhavam dinheiro, mas não compravam roupas nem alimentos para cuidar de seus filhos.

Alicia cahuiya e outro indígena dançando
Alicia Cahuiya sorri em atividade recreativa. Participa da Oficina de defensores e defensoras indígenas em Bogotá – Colômbia (2019) | Carolina Zambrano/Land is Life

“(Os homens) saíam dessas reuniões da diretoria ou com as petroleiras e chegavam bêbados para nos bater. Eu me perguntava o que poderíamos fazer para impedir isso”, diz Alicia, que também sofreu maus-tratos.

Foi assim que nasceu a Associação de Mulheres Waorani da Amazônia Equatoriana (Amwae), que tem o objetivo de gerar emprego, autonomia financeira, fortalecer empreendimentos de mulheres e dar visibilidade à sua presença política.

A líder diz que na floresta não são necessários dólares, mas trabalho árduo para cuidar da terra, e que a inserção da lógica do mercado consumidor modificou a relação dos Waoranis com a floresta. “Se fosse pelo dinheiro, meus filhos não conheceriam a floresta”, assegura.

A luta de Alicia, como de outras mulheres waoranis organizadas, começou em casa. Ela enfrentou o pai que trabalhou toda sua vida para as companhias petroleiras e que ainda as defendia, e depois teve que confrontar também o próprio marido.

O casamento foi usado, historicamente, pelos Waoranis para pacificar guerras, unir clãs e reforçar a função pacificadora das mulheres. Não cumprir com essa promessa significa a morte. Alicia tinha 12 anos quando teve que se casar com Nanto, na comunidade Shell. Antes havia sido prometida ao filho de um poderoso xamã do Yasuní, mas os adultos escolheram seu atual esposo.

“Você tem que chegar cedo ou ficar em casa”, tentava impor Nanto a Alicia quando ela assumiu a liderança. Mas Alicia tinha que cumprir seus deveres: viajar e organizar sua gente, enquanto em casa havia queixas e ciúmes.

Inclusive seu esposo – que também fora dirigente comunitário – pediu, em algum momento, que ela aceitasse a entrada da petroleira em Yasuní. Alicia não cedeu.

Apesar de ser proibido que mulheres Waorani toquem em armas por ser considerado má sorte, um dia, Alicia tomou a lança de Nanto. Por conta própria, caçou macacos e antas.

Com o passar do tempo, Nanto também aprendeu a cuidar de quatros meninas e um menino enquanto sua esposa trabalhava como política.

Vitória em Cotopaxi

O verão de 2021 foi um marco na trajetória política de Alicia. Ela foi eleita encarregada do tema Mulher e Família na Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), uma das organizações indígenas de maior repercussão no país e na região. Transformou-se assim na primeira mulher Waorani eleita para um alto cargo numa instância de representação política indígena nacional.

Alicia Cahuiya em roupa tradicional na mata
Retrato de Alicia Cahuiya em Pacayacu, província de Sucumbíos, no Equador (2017) | Andrés Yépez

O novo presidente da Conaie, Leonidas Iza, durante sua posse enfatizou: “Temos que fortalecer a justiça indígena em nossas comunidades tendo em vista os níveis de violência que vêm sofrendo nossas companheiras”.

Mais de 30 anos depois do “primeiro levante indígena” em 1990, a eleição de Alicia é resultado de processos políticos de liderança local e comunitária, de sua história pessoal e de outras líderes indígenas femininas como Tránsito Amaguaña e Dolores Cacuango.

Como lembra Alicia, essa marcha foi sua primeira visita a Quito, levada de mãos dadas com seus pais. E assim ela traçou seu caminho até chegar a vicepresidente da Nawe e cofundadora e presidente da Amwae. Essa última organização gera empregos na elaboração de artesanato e produção de cacau, trabalho que foi reconhecido com o Equator Prize de 2014 e o Premio Latinoamérica Verde, na categoria Biodiversidade e Florestas em 2015.

Na tarde de sua posse, em 24 de julho, entre as montanhas da província de Cotopaxi, Alicia – com a máscara de guerreira pintada em sua face – recebeu a incumbência de cuidar das famílias e mulheres de 53 organizações que representam 18 povos e 15 nacionalidades indígenas.

Sua tia, Huica, a acompanhou junto com outros Waoranis na celebração. Nanto estava a seu lado apoiando-a nesse momento histórico. Alicia entrelaçou as mãos com as de seus companheiros e as levantaram em sinal de vitória.

Como dirigente da Conaie, Alicia Cahuiya planeja capacitar mais mulheres em direito a fim de erradicar a violência de gênero nas comunidades. E continuará apoiando e fazendo parte dos processos de fortalecimento de lideranças indígenas femininas no Equador e na Amazônia como um todo.

Alicia deverá dar continuidade à sua árdua luta num cenário hostil para os indígenas, com um Estado que quer ampliar as explorações petrolíferas no Yasuní. O governo do banqueiro Guillermo Lasso (empossado em maio de 2021) já anunciou o aumento da produção diária de petróleo passando de 500 mil barris de petróleo (bdp) a um milhão.

O plano de expansão da fronteira petrolífera já está em andamento e, por isso, a luta de Alicia Cahuiya está mais atual do que nunca. Imagens de satélites mostram a abertura de uma estrada de 4,7 km no Bloco 43, que atravessa o Parque Yasuní e liga a plataforma Tambococha B e C à Ishpingo A e B. Isso ocorre apesar do derramamento de 15,8 mil barris de petróleo de 7 de abril de 2020, afetando diretamente famílias Qaoranis e de outros povos que vivem nas margens dos rios Napo e Coca. Ainda não houve justiça para as 25 mil famílias afetadas.

Após a apresentação de canto em kichwa dos meninos do Cotopaxi – que foi parte da cerimônia de sua posse como dirigente – o questionamento de Alicia às autoridades governamentais falou mais alto: Onde as crianças viverão?

Sua crítica é que se permita e facilite a destruição de uma das florestas mais ricas em biodiversidade. “O governo deve entender que a floresta não é um território vazio, não é mercadoria”, expressou Alicia com dignidade e exigiu, mais uma vez, “Deixem-nos viver como Waoranis!”.


Essa reportagem faz parte do projeto “Defensoras do território” de Climate Tracker e FES Transformación.

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