democraciaAbierta: Interview

'A imagem da Marielle é o que o bolsonarismo quer destruir', diz viúva da vereadora morta há 3 anos

Monica Benício quer agenda feminista na Câmara dos Vereadores e exigir justiça pela morte de Marielle Franco e seu motorista em 2018.

Débora Britto
15 March 2021, 3.30pm
Ellan Lustosa/Alamy Live News

Monica Benício estampou inúmeras manchetes de noticias, desde que se tornou viúva da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL), em 14 de março de 2018. Para além dos jornais, seu rosto e o punho erguido se tornaram uma das imagens de luta por justiça por Marielle. Nas ruas, em manifestações, eventos políticos e acadêmicos, a arquiteta rodou o Brasil e passou por diversos países para denunciar o assassinato de sua esposa como uma execução política.

Monica adaptou uma saudação tradicional em memória a militantes que morrem: em vez de “Marielle, presente!”, pediu a milhares de pessoas que se juntassem a ela no grito “Marielle, justiça!”. Desde o dia 1º de janeiro de 2021, o cenário em que ela travará a luta por justiça é outro. Com 22.919 votos, foi a 11ª vereadora mais votada do Rio de Janeiro, pelo PSOL, com o compromisso inegociável de defender as pautas da população LGBTI+ e das mulheres.

Às vésperas de completar três anos da morte de Marielle e do motorista dela, Anderson Gomes, mas com investigações ainda sem resposta, Monica Benicio ocupa uma cadeira no mesmo plenário em que sua esposa fazia política e incomodava pessoas poderosas. E ela pretende continuar lutas iniciadas por Marielle e ir além: quer combater o fascismo e o bolsonarismo, afirma.

Mas Monica não hesita em dizer que, antes mesmo de ser vereadora, o seu próprio corpo é político - mulher, de esquerda, defensora de direitos humanos, lésbica e socialista. Por tudo isso, e pelo legado de Marielle, seu mandato promete ser resistência em meio a um cenário político hostil.

Com apoio de movimentos sociais e da classe artística, Monica disputou a presidência da Comissão da Mulher na Câmara, um local estratégico para pautar políticas públicas feministas e em defesa das mulheres. Ela ocupará a vice-presidência, mas a demonstração de força com apenas dois meses de mandato não passou despercebida.

Nesta conversa com a Agência Diadorim, feita através de videochamada, Monica Benicio fala sobre politica, o legado de Marielle e as lutas que quer traçar como parlamentar. E pede: “É importante que a gente continue fazendo pressão para que seja revelado quem foram os mandantes e para que essa investigação não perca fôlego.”

DIADORIM — Sua campanha e seu mandato foram anunciados como feminista e antifascista. Qual o desafio de fazer política num ambiente extremamente machista — de 51 vereadores, apenas 10 são mulheres?

MONICA BENICIO — Olha, é um desafio, certamente. Estamos falando de uma sociedade machista e patriarcal e de um governo — hoje, não apenas instalado no Rio de Janeiro, mas no Brasil — que é extremamente misógino e tem como projeto de poder eliminar os corpos das mulheres, principalmente do debate da política institucional. Então não é uma tarefa fácil. É um desafio grande. Mas desde o início da movimentação, inclusive na campanha, teve um acolhimento e uma soma muito significativa. Os desafios vêm sendo revelados no dia a dia, mas também nesse contexto de pandemia nós estamos trabalhando de forma híbrida, então eu não tenho ido frequentemente à Câmara, tenho feito as sessões de forma virtual, o que coloca inclusive um tempo diferente. (...) Aquele espaço é muito inóspito e hostil para os nossos corpos e fazer político, porque não bastasse ser mulher, sou uma mulher de esquerda, socialista, uma mulher lésbica, que se pauta e se coloca desse lugar. Então tem aí uma interseccionalidade que atravessa essa composição e esse debate, que faz com que fique mais difícil.

A gente pautou desde o início da campanha — e é por onde eu pauto minha vida — o lugar da disputa de ser uma mulher feminista, de um feminismo que não é qualquer feminismo, um feminismo que é para as 99% que não aceitam que corpos sejam deixados para trás. Portanto ele é um feminismo antirracista, é anticapitalista, não cabe LGBTfobia, não cabe transfobia de nenhuma forma dentro dele, é ecossocialista. Então todas essas pautas fazem com que o debate dentro daquela casa não seja o mais fluido possível, porque é uma casa que não tem interesse em dialogar com essas pautas.

A verdade é que temos hoje no Brasil uma política, um poder em exercício, que não tem interesse em dialogar com essas pautas. Pelo contrário: visa eliminá-las. Então há aí uma dificuldade. A gente nesse momento, na Câmara, vem atravessando a disputa das comissões, de ocupá-las. Recentemente a gente fez um movimento que foi o lançamento de um manifesto, feito com apoio da sociedade civil e de movimentos sociais, para que eu ocupasse a presidência da Comissão da Mulher. Isso está em debate ainda, mas há uma dificuldade interna da casa, porque quem decide isso de fato é a casa, são os vereadores e vereadoras presentes lá dentro. Então importa a movimentação da sociedade civil para marcar uma posição, mas, no fim das contas, isso é decidido dentro da casa. São nessas movimentações e decisões que a gente vê o tipo de política esta casa está disposta a construir. E, diante desses movimentos, a gente pauta ali um enfrentamento para que ela seja mais inclusiva, para que nossos corpos sejam de fato uma ferramenta de transformação daquele espaço e da política institucional, mas também de inspiração para esta coletividade externa. Uma coletividade externa que olha dentro daquela casa e a vê sendo ocupada por uma Marielle, por uma Monica, por uma Tainá de Paula, por uma Thaís Ferreira e se inspira ali para estar disputando esse espaço, entendendo que esse espaço deve, sim, ser ocupado por todos os corpos sem a gente estar aí pautando um índice de violência que eles cometem para nos tirar desse debate. Então tem sido difícil, mas tem havido muito acolhimento e muita recepção da sociedade como um todo.

Em menos de dois meses — na verdade, no primeiro dia em que estivemos efetivamente na Câmara —, protocolamos três projetos de lei: o primeiro, sobre o Dia da Visibilidade Lésbica (que é uma reapresentação de um projeto que era da Marielle), um contra o feminicídio e outro contra fake news. Então isso é um start que mostra a que viemos e que tipo de trabalho faremos naquela casa.

Como você mesma apontou, são 51 vereadores e só 10 mulheres — e não são todas de esquerda. Então não basta ser uma mulher ali, você precisa representar os interesses delas e as vidas delas. É desafiador, mas temos uma mandata que é composta por uma equipe que parte parte dela compunha a equipe da Marielle, e, sem dúvida nenhuma, é uma equipe muito animada e engajada em construir um trabalho de excelência.

DIADORIM — Que avaliação você faz do trabalho e da importância da Comissão de Defesa da Mulher, que, em 2020, só se reuniu duas vezes (segundo os registros disponibilizados pela Câmara). Marielle presidiu essa Comissão, entre 2017 e 2018. Quão estratégico é para o seu mandato ocupar esse espaço?

MONICA — A Comissão da Mulher foi durante muito tempo subutilizada, justamente porque sempre foi ocupada por mulheres que estavam ali construindo o campo da direita. A Marielle foi a primeira mulher de esquerda a assumir a presidência da Comissão, e por isso conseguiu fazer um trabalho de destaque. E por isso a Comissão da Mulher passou a ter visibilidade, porque nunca foi disputada naquela casa, porque não é por onde passa a grande política e o ambiente em si era tão machista que sequer havia interesse dos vereadores pelo espaço, então não havia uma discussão que fosse mais delicada a respeito do tema. Como eu falei antes, não basta ser uma mulher para ocupar a Comissão, precisa ser uma mulher que esteja interessada em construir pautas que falem sobre a preservação da vida e da luta das mulheres.

A grande delicadeza dessa história é sobre quem está na presidência dessa Comissão e que fazer político será esse — porque ele pode ser nenhum, pode ser neoliberal, pode ser machista, ele pode ser feminista, enfim. Agora independente de termos ou não a presidência, a nossa disputa será feita pelo debate de gênero e pautado pelo feminismo — estando na presidência, só participando da comissão ou inclusive fora dela. Isso não vai nos impedir de fazer um trabalho que tenha o feminismo e a pauta de gênero como seu eixo principal, falando de um lugar de disputa de direito à cidade, principalmente em relação à perspectiva das mulheres, porque a gente entende que uma cidade segura para as mulheres é uma cidade segura para todos os corpos.

É claro que quando você está na presidência da comissão ou dentro da comissão, você consegue utilizar a política institucional como uma ferramenta para operar para fora da casa. Acho que o grande interesse é fazer política para fora da Câmara. A Câmara dos Vereadores deveria, em tese, ser a casa do povo, mas o povo é pouquíssimo representado lá dentro, pois a maior parte dos vereadores faz seus acordos no toma lá dá cá e legisla em causa própria, então o debate a ser feito é esse. Mas independente do lugar que a gente ocupe, a gente vai fazer política com o intuito de transformar a vida das mulheres de forma efetiva nessa cidade.

Monica de máscara com uma camisa
Monica durante ato de campanha para sua eleição | Divulgação

DIADORIM — Ainda com relação às pautas do seu mandato, entendo que as pautas LGBTI+ são prioritárias. Como você avalia as políticas públicas voltadas para essa população no contexto do Rio de Janeiro?

MONICA — Olha, eu podia falar para você que a situação nesse ponto é grave ou trágica, mas eu estaria sendo otimista usando qualquer uma dessas palavras. Então, fazendo uma análise de conjuntura mais neutra, por assim dizer, eu diria que é muito grave a situação LGBTI+, hoje. De forma geral, o Rio de Janeiro reflete um pouco o que é a conjuntura nacional. Não é à toa que a política bolsonarista nasce no esgoto do Rio, então o Rio é uma espécie de laboratório dessa política nacional, que desaguou nesse governo fascista e desastroso. Agora a política LGBT tem um recorte específico, porque é uma camada de vulnerabilidade que é ainda maior. Quando a gente fala que o Brasil é um dos países que mais mata sua população LGBTI+ no mundo, isso é muito grave.

O Rio de Janeiro, por exemplo, já ocupou o segundo lugar no ranking de interesse turístico da população LGBT, mas hoje, se não me engano, está na 49ª posição. Deixou de ser interesse para a população LGBT ter o Rio como o seu destino turístico, e isso se deve ao aumento da violência, que se acentuou muito depois de 2018 com a política bolsonarista avançando e se elegendo. Então o que temos hoje é uma política muito frágil, que num contexto de pandemia se agrava ainda mais, porque a gente sabe quais são os corpos mais vulneráveis.

A gente não tem uma política que combata a LGBTfobia, não temos políticas de incentivo, acolhimento ou prevenção, nenhum tipo de política que olhe para essa população. E falando do recorte da Câmara Municipal, é muito grave, porque estamos falando de uma casa que é extremamente fundamentalista. A gente acabou de tirar a cidade da mão de um bispo [o ex-prefeito Marcelo Crivella (Republicanos)], que sucateou a cidade e deixou ela num estado lamentável. Estamos agora num governo — que é o governo do Eduardo Paes (DEM) — que está longe de ser um governo como o do Crivella —, (...) do qual somos oposição, mas que flerta com o campo progressistas e monta as suas secretarias assim. No entanto, é um governo liberal, é um governo que está aí trabalhando em prol das empresas, do grande mercado e do capital.

Acho que a grande dificuldade na Câmara vai ser buscar diálogo com esse campo que se diz progressista, que diz querer reconstruir uma cidade que está em estado de abandono total — mas vamos ver isso na prática, como no caso da aprovação do PL da Visibilidade Lésbica, que não foi aprovado por dois votos, em 2017, quando a Marielle apresentou. Vamos ver o quanto esta casa está disposta a conversar com o campo progressista, dialogar com essas novas pautas — seja a pauta do feminismo, seja a pauta da luta LGBT, seja a pauta da luta antirracista —, vamos ver na prática como isso vai se dar, se fica só no discurso ou se vamos colocar as coisas realmente em prática para ter modificações efetivas.

DIADORIM — A bancada do PSOL no Rio tem feito diálogos com outros mandatos e partidos de esquerda para construir uma frente ou articulação para as pautas LGBTI+?

MONICA — Nesse momento a gente ainda não abriu esses diálogos porque a gente começou o expediente no dia 18 de fevereiro, efetivamente. Só que antes disso a gente estava nessas comissões especiais (eu estava na de orçamento) e agora começamos a falar das [composições das] comissões regulares. A casa de fato só começa a funcionar depois das comissões serem instaladas. E aí a gente começa a correria da política e buscar fazer alianças, acordos, enfim. Mas o que temos hoje de bancada de oposição ali é a bancada do PT e a bancada do PSOL. O PSOL, junto com o PT e DEM, está entre as três que têm sete vereadores e vereadoras. O PSOL com o PT somam uns 10 vereadores, mas o PT tem uma polícia que em alguns momentos se alinha com o PSOL e em outros momentos nem tanto, mas acredito que nas pautas LGBTs não têm divergência. Também há outros vereadores e vereadoras que não são desse campo, mas com os quais há um certo diálogo, pois não são fundamentalistas, que dependendo do tema que você apresente (não basta só a pauta), eu acredito que não terá grandes dificuldades. Mas não quer dizer que temos maioria para aprovar projetos nesta pauta, isso vai ter que ser costurado sempre com muito cuidado, com muito trabalho. O PSOL não tem a prática de fazer a política do toma lá dá cá, então a gente tem que fazer uma política muito mais amarrada, muito mais elaborada. É um pouco mais difícil fazer política dentro daquela casa, mas é possível. Estou otimista que conseguiremos fazer um bom trabalho na pauta LGBT.

DIADORIM – Entramos em 2021 com um contexto de pandemia agravado. Tem um empobrecimento da população, a fome batendo à porta de muita gente... O que você tem pensado, especialmente em relação à população negra, periférica, que sofre mais com a situação econômica precária?

MONICA – Esse debate já vem acontecendo em toda a bancada do PSOL, e inclusive vem da bancada anterior, com a defesa da implementação da renda básica e, na questão da saúde, com uma atenção específica para as favelas e periferias, que são os lugares mais afetados. E isso tem sido uma briga constante. Na Comissão de Orçamento, por exemplo, as sugestões eram que a gente tirasse do bolso do contribuinte, dos funcionários públicos, enfim, daquela velha história que a gente já conhece para poder ir tapando buracos econômicos dentro do município, o que é muito grave, porque sabemos que a população mais afetada é a população que está às margens, são os copos das mulheres pretas, da população negra em geral, periférica, favelada. Então não é cortando os gastos e tirando do bolso do contribuinte que a gente vai promover [as políticas de assistência]. Pelo contrário, quando a gente consegue movimentar o capital, quando a gente consegue injetar o capital, a gente sabe que a população vai conseguir consumir e movimentar a economia.

Então a gente foi no sentido de defender a renda básica, de fazer a implementação da renda básica, para que a gente tire a população desse lugar de extrema pobreza, porque, como você falou, tem pessoas passando fome. A gente não está falando de luxo, porque tem vereador que acha que por conta desse valor as pessoas vão deixar de trabalhar e ficar preguiçosas. As coisas mais bárbaras que você pode imaginar são escutadas ali na defesa desse discurso de não oferecer a renda básica. O debate é justamente esse, a gente primeiro fazer a compreensão de que é um direito humano, estamos falando de uma questão de humanidade. Então hoje o que a gente faz nesses primeiros dias é brigar pela implementação e pagamento de uma renda básica. Mas já é um movimento do PSOL carioca que vem desde a antiga legislatura.

Marielle Franco e Monica Benício sorriem para a foto
Marielle Franco e Monica Benício | Acervo pessoal

DIADORIM – Neste mês, completa-se três anos do assassinato de Marielle Franco. Qual avaliação você faz do andamento das investigações, que ainda têm muitas perguntas sem respostas, e como você pretende na Câmara pressionar por justiça no caso?

MONICA – Olha, começando de trás para frente, eu acho que nossa campanha ter sido bonita e potente da forma como foi ela já começa a abrir um diálogo e uma sinalização do que essa mandata representa, da viúva da Marielle estar ocupando aquele espaço. Então a gente tentou fazer uma campanha com muita responsabilidade em relação à memória da Marielle. E, num momento de pandemia, foi uma campanha com pouca rua, com muitos cuidados, com pouco dinheiro, mas o fato de a gente chegar a uma votoção tão expressiva é por si só espécie de recado e de cobrança por justiça, que não aceitaremos essa não resposta dos mandantes do assassinato de Marielle e Anderson.

A respeito das investigações, eu acho que a situação que se tem hoje é muito preocupante. A gente tem presos acusados de serem executores, tanto motorista quanto atirador, e eles ainda não foram levados a júri popular, então é importante que a gente cobre que isso aconteça o mais rápido possível. A gente quer ver eles responsabilizados, mas não só eles. Queremos todos os envolvidos [responsabilizados]: os intermediadores, e, principalmente, os mandantes desse grave crime contra a democracia.

Recentemente, houve uma troca no Ministério Público. A gente teve uma renovação, em janeiro, tanto dos promotores responsáveis pela investigação quanto do procurador-geral de Justiça do Rio – e, no ano passado, já houve nova troca de delegado e do procurador do ministério público também. Então foram muitas mudanças, o que não há muito o que ser feito dentro da burocracia, mas inevitavelmente preocupa bastante porque estamos falando de um inquérito que vai completar três anos e é super volumoso, não é qualquer coisa. Eu acompanho com bastante cuidado e bastante de perto. A gente está falando de um assassinato, infelizmente, muitíssimo sofisticado, muito bem realizado e que houve erros na investigação lá no início, o que prejudica agora no final.

Não é motivo para que haja desânimo ou qualquer tipo de descrença sobre se chegaremos aos mandantes – pelo contrário, quanto mais pressão a gente gera, mais a gente mantém essa investigação em curso. O que pessoalmente me preocupa um pouco – considerando que o Brasil é um país conhecido por ter uma memória muito frágil – é que em algum momento Marielle seja colocada apenas no lugar da memória, no lugar da resistência, e que a gente perca a compreensão de que é fundamental, inclusive por respeito a essa memória: revelar quem foram os mandantes desses assassinatos.

É importante a gente não perder isso de vista. E, nesse momento, a situação é muito delicada, porque houve essas trocas [na equipe do Ministério Público], então até que os novos investigadores, promotores e o próprio procurador-geral se inteirem de todo o inquérito, há um trabalho muito grande a ser feito. A impressão que me dá agora, de onde eu acompanho, é que pouquíssimo tem sido feito desde que houve a troca, é que há hoje uma inércia a respeito das investigações do caso de Marielle e Anderson. E a gente precisa cobrar isso, principalmente porque a gente vai chegando a quase três anos, e, em qualquer investigação, quanto mais tempo passa, mais difícil fica para se chegar em um resultado. É importante que a gente continue fazendo pressão para que seja revelado quem foram os mandantes e para que essa investigação não perca fôlego. Isso é muito importante.

DIADORIM – O Rio de Janeiro é um pouco termômetro da política nacional. A família Bolsonaro é do Rio e também está na Câmara Municipal. E o Rio de Janeiro é também um território extremamente emblemático no que toca à violência política contra mulheres – como no caso das suas correligionárias, a deputada federal Talíria Petrone e a vereadora Benny Briolly, em Niterói, que estão sofrendo ameaças recorrentes. Como é que você e sua equipe têm lidado com essa questão da segurança – que eu imagino que foi discutida em sua campanha e agora que você é vereadora?

MONICA – Essa questão da violência política contra mulheres é um tema que precisa ser debatido, denunciado, como a gente vem fazendo. Inclusive porque o que temos hoje é uma política que não tem vergonha de oprimir o corpo das mulheres e que faz política descarada mesmo nesse sentido. Marielle foi uma vereadora democraticamente eleita, uma mulher negra, que estava num relacionamento lésbico, representante das pautas LGBTs, representante das pautas das minorias, que denunciava o genocídio da juventude negra, que era tudo isso que essa casa não quer dialogar, que essa casa não quer olhar ou fazer política para – e quando essa mulher é executada num crime político, o recado que se dá é que essa política que ela fazia e representava não pode ocupar esses espaços.

O recado que a sociedade dá vai justamente na contramão disso, porque não houve recuo – pelo contrário, houve avanço. No ano de 2018, mais mulheres se colocaram à disposição e foram eleitas, e isso vem numa crescente. A sociedade, inclusive, quando pega toda essa barbárie, toda essa dor e transforma a Marielle num símbolo de representatividade e resistência, faz isso coletivamente. Então essa é uma resposta não só simbólica, mas importante de ser compreendida como uma resistência por si só. No entanto, com a não revelação dos mandantes [do assassinato de Marielle Franco], o que temos hoje, no Rio de Janeiro e no Brasil como um todo, é assumir que existe um grupo capaz de assassinar como forma de fazer política. Por isso, o assassinato de vereadoras e parlamentares no interior do Rio e em outros lugares do país não é algo surpreendente. O que tem um diferencial no caso do assassinato da Marielle é que ela foi assassinada em uma das maiores capitais do mundo, às nove horas da noite, voltando de uma agenda de trabalho – e ela foi executada como um recado político. Então isso faz com que vire a chave, isso faz com que a gente entenda hoje que o que está em disputa é a democracia versus a barbárie, não é o campo da esquerda ou da direita. Enquanto a gente não responder esse assassinato de Marielle, parece que se torna legítima na sociedade a reprodução da violência contra os corpos das mulheres, principalmente na política institucional – afinal de contas, a certeza da impunidade está aí.

É claro que houve um debate a respeito de segurança, sobre virar ou não candidata, mas essa para mim nunca foi uma questão. Eu jamais recusaria por isso, mas a gente fez isso com responsabilidade e, inclusive, entendendo que hoje a minha segurança é uma responsabilidade coletiva. Ela é uma responsabilidade, inclusive, com uma política a ser construída e segue sendo construída. Eu tenho uma medida cautelar concedida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da OEA [Organização dos Estados Americanos], o que faz com que se algo acontecer comigo seja um problema do Estado brasileiro e eu me torno um incidente diplomático. Além disso, estou dentro do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos no Brasil, e tomamos também medidas de segurança, que eu não posso dizer quais são. Enfim, hoje pensar na segurança é importante para todas as mulheres que estão disputando o campo da política institucional. A gente viu inclusive mulheres de direita sendo atacadas, mas principalmente mulheres que estão no campo progressistas e que estão lutando pela democracia, são defensoras de direitos humanos – porque quanto mais marcadores de vulnerabilidade têm os corpos que estão ocupando a política institucional, maior violência [contra eles].

Não por acaso, a violência contra a Talíria vai numa crescente muito grande. A violência contra a Benny Briolly, que é uma mulher negra e trans, numa cidade extremamente conservadora, que é Niterói, foi numa crescente num tempo muito curto. Então tem corpos com marcadores que fazem com que essa violência seja mais acirrada. A gente precisa também levar esse recorte de raça e de classe para dentro desse debate da segurança da política, porque são marcadores fundamentais – principalmente porque quem ataca hoje as mulheres é a política bolsonarista, que tem seus marcadores de alvo certos, e é a isso que precisamos fazer enfrentamento.

O legado de Marielle é as mulheres não se retirarem, mas se inspirarem para continuar seguindo, por ela e por nós

DIADORIM – Você fala muito do fascismo potencializado pelo discurso de ódio bolsonarista. O você considera como estratégias para enfrentar esse bolsonarismo a partir da Câmara Municipal?

MONICA – Olha, tem uma construção anterior [ao mandato de vereadora], enquanto defensora de direitos humanos – o que faz com que ao redor da minha imagem haja um acúmulo de história, inclusive de luta, que foi justamente na construção dessa política de combate ao bolsonarismo. E isso desde o início da campanha a gente disse também que esse corpo político era para ser utilizado para uma construção programática da esquerda para derrotar o bolsonarismo, então é uma questão também que ela vem de um acúmulo de uma imagem.

Nesses quase três anos [em busca] de justiça por Marielle, fui tendo acumulo enquanto defensoras de direitos humanos, quanto mulher socialista, feminista, lésbica. Ao denunciar o caso de Marielle ao redor do mundo, automaticamente eu denunciava a política bolsonarista, porque estão relacionadas. A violência contra Marielle e contra o que ela representa é, de fato, relacionada a essa política bolsonarista, porque a imagem da Marielle é o que o bolsonarismo quer destruir. A luta da Marielle, da política que ela defendia, vai na contramão da política bolsonarista, porque não não há acordo com o fascista. Com o fascismo a gente não dialoga, a gente destrói. Então a ideia de colocar isso como uma pauta vem de uma construção natural nesses quase três anos, e, a partir da Câmara Municipal, o que a gente vai fazer são as ações, como essas que já foram feitas, inclusive: do PL da Visibilidade Lésbica e do combate a fake news (que é uma espinha dorsal para o governo Bolsonaro dar certo, um governo que é pautado por fake news, que tem aí a seu serviço operando o gabinete do ódio). Falar do combate ao feminicídio, num governo que tem como objeto de ódio, como objeto de destruição, o corpo das mulheres, isso por si só já é fazer um enfrentamento à política bolsonarista.

O meu corpo político – e aí [me refiro] a Monica, não a vereadora – está a disposição dessa luta primeiramente enquanto defensoras de direitos humanos, e, enquanto mandata, nosso objetivo é fazer uma política que vá diretamente na contramão da política bolsonarista, que faça o enfrentamento direto a essa política, que é uma política fundamentalista, misógina, racista, LGBTQIfóbica. A gente não consegue falar em democracia enquanto estiver num governo Bolsonaro.

DIADORIM – Qual você considera ser o principal legado de Marielle para as mulheres que entraram na política institucional ou que foram para a linha de frente do combate a esse bolsonarismo?

MONICA – Olha, eu acredito que é principalmente essa inspiração para a resistência. Porque sempre foi um espaço muito hostil. Para o corpo da Marielle, aquele não era um espaço convidativo, pelo contrário, era um espaço extremamente violento. E o que faz hoje mulheres disputarem a política, inclusive respeitando e considerando a memória da Marielle, é justamente não aceitar essa violência que nos foi imposta por tantos e tantos anos e que terminou, no limite, executando uma mulher que travava as lutas que travava e que lutava pelas nossas vidas. Então eu acho que o principal legado é esse lugar da inspiração, o lugar da inspiração à resistência, porque o legado de Marielle é construído, ao meu ver, no dia a dia, nas ações dessas mulheres que foram para o front, que não recuaram, que entenderam que disputar uma outra sociedade, por mais que seja perigoso, é urgente. É urgente porque quando a gente está disputando a cidade, quando a gente está disputando a política, a gente não está mais falando sobre a segurança das nossas vidas, mas da segurança daquelas que virão e respeitando aquelas que vieram antes de nós – e acho que a Marielle tinha muito respeito a isso, principalmente quando dizia que os nossos passos vêm de longe, falando do seu lugar de mulher preta, ocupando e lutando por aquele espaço.

Eu acho que o respeito a isso é muito importante, mas olhar para isso como inspiração, pra não se retirar do debate, pelo contrário, para encontrar força para seguir é para mim o principal legado – porque na minha opinião pessoal, enquanto companheira, isso fala muito da energia do que era Marielle, que era essa coisa de resistência, de pulsar vida e caminhar sempre para frente, acreditando que a mudança é possível. Então acho que o legado de Marielle é as mulheres não se retirarem, mas se inspirarem para continuar seguindo, por ela e por nós.

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Sarah Clarke Head of Europe and Central Asia, Article 19.
Chair: Nandini Archer Global Commissioning Editor, openDemocracy.

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