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O que podemos aprender com os sons da natureza?

Biólogo colombiano coletou áudios ambientais por 30 anos, criando o maior banco de paisagens sonoras da América Latina

Juanita Rico
3 Agosto 2022, 12.00
O páramo de Cundinamarca, na Colômbia
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Anamaria Mejia/Alamy Stock Photo

Em sua primeira viagem de campo como estudante de biologia, Mauricio Álvarez, de Bogotá, encontrou o mundo dos pássaros e nunca mais quis sair dele. No meio da faculdade, o destino o levou a conhecer Martin Kelsey, ornitólogo britânico e primeiro diretor da plataforma BirdLife International, que lhe introduziu à biocústica: ciência que analisa a relação entre sons, seres vivos e seu ambiente para estudar padrões de diversidade e compreender o grau de intervenção em cada ecossistema.

A disciplina de registrar os sons dos ecossistemas ao longo do tempo o deixou sem fôlego. “Como você faz isso?”, perguntou a Kelsey, que respondeu: "Basta começar a gravar e aprender.”

“Foi aí que a música da natureza entrou em mim e foi a isso que me dediquei”, lembra Álvarez, que passou mais de 30 anos coletando sons dos ecossistemas e da fauna colombiana. Recém formado, Álvarez realizou sua primeira gravação em Macarena, no departamento de Meta, no centro da Colômbia. O biólogo morou na pequena cidade por quatro anos, enquanto gravava e ensinava crianças nas escolas a amar a natureza para protegê-la e aprender com ela.

Depois dessa experiência, voltou a Bogotá em 1992 para trabalhar no Instituto Humboldt. "Fui um dos primeiros funcionários do Humboldt e meu trabalho era recolher e cuidar das coleções de Inderena, o instituto que cuidava dos recursos naturais e do meio ambiente na Colômbia”, conta.

Mais tarde, Álvarez foi promovido a ornitólogo e contratado para encomendar e analisar o inventário de diversidade do instituto. Seu trabalho era fazer avaliações biológicas rápidas por meio de um inventário forte o suficiente para explicar o estado de conservação da biodiversidade do país.

O arquivo contém registros de espécies e paisagens naturais sonoras de cerca de 551 localidades

“Naquela época surgiu a ideia de viajar para diferentes regiões do país e gravar sons de pássaros. Era essencial poder fazer um inventário rigoroso”, diz.

Assim começou o arquivo sonoro do Humboldt, o maior da América Latina, com mais de 30 mil sons de fauna e ecossistemas. O arquivo contém registros de espécies e paisagens naturais sonoras de cerca de 551 localidades dos principais ecossistemas colombianos, predominantemente dos Andes, Caribe, Orinoquia e Amazônia, além de 30 departamentos.

Em termos taxonômicos, o arquivo contém representações de 1.030 espécies: aproximadamente 69% do total de espécies de aves nativas registradas no país, 2% de anfíbios e 3% de mamíferos.

No início de sua jornada, Álvarez usava um gravador do tamanho de uma maleta equipado com uma fita cassete e um microfone unidirecional. Para gravar bem, tinha que monitorar a condição da fita e carregar várias para substituir. Da mesma forma, uma hora de gravação significava quase três horas de identificação de cada som.

Hoje, já existem gravadores autônomos programáveis para captar sons em intervalos determinados por longos períodos de tempo, cujo conteúdo pode ser digitalizado.

Para explicar a importância de suas gravações e arquivo de paisagem sonora, Álvarez diz: “Quando você faz a gravação, no início você só ouve uma ou duas coisas, mas com o tempo você percebe que existem muitas outras: grilos, água, folhas, vento, sapos, humanos — sons que transmitem informações fundamentais, como por exemplo se um ecossistema sofreu intervenção humana ou não, ou se pertence a uma área mais alta ou mais próxima do mar”.

O arquivo sonoro serve como o álbum de família da biodiversidade colombiana

Cada som é, então, uma foto do ecossistema em um momento exato: mostra seu estado naquele instante e permite compará-lo com outros instantes. “Cada som conta a história biológica do ecossistema e seus animais. Imagine se tivéssemos gravação de Bogotá em 1930. Poderíamos saber muitas coisas. Por isso são tão valiosos, porque nos permitem até descobrir novas espécies e entendê-las ao longo do tempo”, argumenta Álvarez. Assim, o arquivo sonoro do Humboldt serve como o álbum de família da biodiversidade colombiana.

Ilustrando sua importância, a caracterização dos sons ambientais permitiu a expansão dos Parques Naturais Naturais Chingaza e Serranía de Chiribiquete, dois tesouros da diversidade na América Latina.

Álvarez passou 14 anos no Humboldt colecionando sons. “Quando você aprende a ouvir a natureza, ela se torna viciante. É muito bonito porque você pode ver e sentir os sons: o da manhã ou o da noite, o dos pássaros, o do mundo que canta”, conta.

Álvarez leva os ensinamentos da prática a outros âmbitos. “Acho que na vida, nos relacionamentos, na política, devemos aprender a ficar em silêncio. Parar de fazer tanto barulho desnecessário e ouvir. Foi isso que aprendi: a ouvir; ouvir para entender o que a natureza tem a dizer”, diz.

Agora ele voltou às origens: a educar crianças e jovens para que compreendam o valor da natureza e a urgência de conservá-la.

Hoje, centenas de biólogos seguem seus passos e coletam sons que conseguem até mostrar o grau de desmatamento de um ecossistema.

“Você não precisa ser alguém extraordinário para fazer essas coisas. Ironicamente, eu não tenho um bom ouvido, então tive que praticar muito, ouvir muito. Isso mostra que qualquer um pode fazer algo assim: tudo que você precisa é dedicação e amor”, defende Álvarez.

Embora o trabalho de Álvarez seja inigualável na região, existem milhares de cientistas, ornitólogos e biólogos que usam a biocústica para entender o estado da fauna e dos ecossistemas. Diante da expansão da ciência, a Colômbia realizará o primeiro congresso de bioacústica do país em outubro.


Para ouvir alguns dos sons da coleção de vida selvagem e paisagem sonora, clique aqui.

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