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Eleições presidenciais na Colômbia: a tensa reta final

No domingo, colombianos elegerão ou o primeiro presidente de esquerda de sua história ou um inesperado populista de direita

Juanita Rico
17 Junho 2022, 12.00
O esquerdista Gustavo Petro e o populista anti-establishment Rodolfo Hernández disputam eleições acirradas no domingo
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JHG/Alamy Stock Photo

Em 29 de maio, os colombianos surpreenderam com seu voto no primeiro turno das eleições presidenciais. Desafiando todas as pesquisas eleitorais, os cidadãos levaram o candidato autodenominado anti-establishment da Liga de Governantes Anticorrupção, Rodolfo Hernández, pegando o lugar do representante da direita hegemônica, Federico 'Fico' Gutiérrez.

Assim, a direita populista concorrerá à presidência contra Gustavo Petro, candidato de esquerda pelo Pacto Histórico, que vinha liderando todas as pesquisas desde o ano passado.

As urnas já abriram no exterior no domingo, 12 de junho, dando início às eleições mais incertas dos últimos anos. A corrida eleitoral, além disso, se viu marcada por escândalos e polêmicas, agravados pelas constantes mudanças de estratégia dos candidatos diante da pressão nas redes sociais.

Nessa reta final, não podíamos esperar debates formais entre os dois candidatos, uma vez que Hernández deixou claro que não se apresentaria a nenhum, algo inédito no país. Dessa forma, o candidato radical vem evitando expor suas óbvias lacunas programáticas. A Colômbia pode tomar dois rumos muito diferentes nos próximos anos — e o ponto de partida se dará neste domingo.

Um país diferente dependendo de quem ganhe

Se Rodolfo Hernández for eleito presidente da Colômbia, terá um mandato complicado pela frente.

Com um processo por corrupção contra ele, Hernández poderia ser afastado do cargo, abrindo caminho para que sua vice-presidente, Marelén Castillo, assumisse o poder até o final o julgamento na Corte Constitucional, o que pode levar anos.

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As perspectivas desse contexto são sombrias. Castillo, uma professora católica fervorosa, foi escolhida como vice de Hernández aparentemente apenas para preencher uma cota feminina. Ela nunca aparece em público com ele, nem em fotos ou em reuniões de campanha. Figura desconhecida para os colombianos, Castillo poderia passar de dirigir a Universidade Uniminuto, a universidade religiosa da Colômbia, para dirigir todo o país.

Se, ao contrário do que determina a lei, Hernández for eleito, mas não suspenso durante seu processo legal, não se sabe como ele governaria o país. Hernández diz que busca proteger empresários, dinheiro do tesouro e dos colombianos. No entanto, também afirma não precisar do Congresso para governar, ameaçando desde já emitir um decreto de comoção interior, que lhe permitiria contornar os filtros do Congresso e de outros órgãos decisórios. Suas propostas soam absurdas.

Hernández chegou até a reta final principalmente por dois motivos, ambos já bastante conhecidos nas campanhas eleitorais recentes da América Latina. Primeiro, liderou uma campanha agressiva e simplista nas redes sociais, principalmente no TikTok. Segundo, conseguiu vender a imagem de ser um candidato anti-establishment que devolverá à Colômbia seus valores e princípios, um discurso que remete à perigosa campanha de Donald Trump.

Embora as propostas do engenheiro coincidam com as da extrema-direita, Hernández diz não pertencer a nenhum partido ou ideologia, levantando uma cortina de fumaça para convencer os colombianos de que é a única opção neutra. Por ser empresário, muitos colombianos apostam que Hernández seria um feroz guardião dos interesses econômicos do país. No entanto, o candidato apresenta um caráter caudilhista, autoritário e violento, marcado por uma atitude machista que mascara com falsa retórica de igualdade.

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Por outro lado, em caso de vitória de Petro, a expectativa é que foque em políticas sociais, como as que promoveu como prefeito de Bogotá. No entanto, sua gestão econômica gera dúvidas.

Petro tem propostas sociais interessantes, com abordagem diferenciada a grupos minoritários e enfoque ambiental. No entanto, a implementação de seus projetos ambiciosos também não está clara. Por exemplo, Petro promete ampliar o tamanho do Estado e, ao mesmo tempo, proibir novas explorações de petróleo e gás, que representam metade das exportações colombianas. Da mesma forma, especialistas temem que um governo Petro prejudique tanto as relações com os Estados Unidos quanto com as empresas privadas colombianas.

Em entrevista ao The Economist, Petro afirmou que, caso seja eleito, buscará diálogo político com Joe Biden e estabelecer relações, com moderação e regras, com os empresários de seu país.

De todas as formas, vença quem vencer, o próximo presidente enfrentará os piores números econômicos e sociais dos últimos muitos anos.

O desemprego já ultrapassa os 12% e a inflação alcançou insustentáveis ​​9,23%, a maior dos últimos 20 anos. Diante desse panorama, tanto um quanto o outro terão que tomar medidas urgentes para corrigir a má gestão do governo atual de Iván Duque e repensar suas estratégias econômicas, sociais e de liderança.

Após dois anos de pandemia, quase três meses de protestos sociais violentos, um Acordo de Paz não executado, violência descontrolada nas áreas rurais e 1.313 líderes sociais assassinados desde a assinatura do acordo, o país precisa de um tipo de governança diferente, que execute plano de paz, crie políticas públicas eficientes e leve em conta as necessidades do povo antes das de grandes conglomerados, empresas externas ou políticos.

Empate nas pesquisas

Apenas um ponto percentual separa Petro e Hernández, de acordo com a última pesquisa da Invamer. A sondagem mostra que Petro tem uma intenção de voto de 47,2%, enquanto Hernández tem 48,2%.

Quanto à imagem favorável de cada candidato, a pesquisa indica que a de Hernández caiu, passando de 50% para 48,1%, e que a de Petro aumentou, passando de 47,6% para 49,8%.

Este raio-x da opinião colombiana mostra que qualquer um pode ganhar no domingo. A verdade é que o novo presidente da Colômbia será decidido no photo finish, o que aprofundará ainda mais a polarização no país. Hoje, o clima na Colômbia é tenso: está dividido entre petristas, antipetristas, rodolfistas e antirodolfistas. A reação de qualquer um dos lado à vitória ajustada do outro suscita algumas preocupações.

Sombras de corrupção e campanha suja

A campanha eleitoral na Colômbia chega ao fim sob manchas de acusações de corrupção contra Hernández e Petro.

Em 13 de junho, o jornalista Daniel Coronoell, em sua vídeo-coluna “El Reporte Coronell", entrevistou a principal testemunha do caso de corrupção contra Hernández, complicando a situação para o candidato.

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No caso, conhecido como Vitalogic, o Ministério Público acusa Hernández de celebração contrato impróprio. O caso remonta a 2016, quando era prefeito de Bucaramanga. Na época, a gestão de Hernández enfrentava uma crise sanitária devido ao colapso do aterro de El Carrasco. Para resolvê-lo, contratou um consultor especializado para avaliar diversas empresas para implementar os processos de conversão de resíduos em energia.

Hernández fechou dois contratos: um para a consultoria, por 336 milhões de pesos, e outro para a empresa que seria contratada, por US$ 250 milhões. A Promotoria afirma que o consultor escolhido, Jorge Alarcón, foi escolhido a dedo por Hernández e que os outros candidatos nunca existiram. Alarcón é empregado da Vitalogic, empresa que licitou o segundo contrato — suscitando acusações de conflito de interesses. Adicionalmente, o filho de Hernández, Luis Carlos Hernández, teria acertado um contrato de corretagem com dois empreiteiros da Vitalogic para receber uma comissão de US$ 2 milhões, caso a empresa fosse escolhida.

Além disso, a Procuradoria Geral da República apresentou provas de que funcionários da Vitalogic se reuniram com Hernández para confirmar a assinatura do contrato. Logo, por meio de mensagens do WhastApp, o engenheiro teria discutido aspectos da licitação com seu filho, que então os discutiu com Vitalogic, o que é ilegal.

O julgamento do caso contra Hernández tem data para 21 de julho. Assim, caso Hernández ganhe as eleições, sua primeira aparição pública depois de assumir à presidência em agosto poderia ser em seu julgamento.

Por outro lado, em 9 de junho, a revista Semana publicou uma série de áudios dos comitês de estratégia de campanha de Gustavo Petro que sugerem a existência de um plano para difamar os candidatos de centro Gutiérrez e Sergio Fajardo.

Nas gravações, Sebastián Camilo Guanumen Parra, estrategista de comunicação de Petro, alegadamente discute como desacreditar Fico através de boatos espalhados nas redes sociais. Guanumen teria sugerido explorar as relações do candidato com o narcotráfico, sua má gestão e as redes de poder que o sustentam.

A revista Semana também publicou outros dois áudios nos quais Roy Barreras, que foi afastado da campanha de Petro após o escândalo, teria discutido maneiras de contornar os danos diante de notícias que líderes do Pacto Histórico, partido de Petro, teriam oferecido extradição a criminosos encarcerados como parte da proposta de "perdão social" do candidato de esquerda.

Os áudios, sem dúvida, atrapalham a campanha de Petro, que representa os movimentos progressistas do país.

Nesse contexto complicado, este domingo decidirá não apenas quem governará a Colômbia, mas também o rumo ideológico do país para os próximos quatro anos. A visão capitalista neoliberal de desenvolvimento de Hernández substituirá a inação de Duque? Ou os colombianos optarão por levar a esquerda pela primeira vez à presidência, colocando o progresso social, ambiental e político acima do status quo econômico?

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